sexta-feira, 10 de maio de 2019

TV, ESCOLA DE CRIME?

TV, escola de crime?
DIABO nº 2210 de 10-05-2019, pág. 16

Quando, em 5 de Agosto de 1962, morreu a actriz, modelo e cantora norte-americana Marilyn Monroe, com 36 anos, em consequência de overdose de barbitúricos, na sua casa, em Los Angeles, dado o seu grande prestígio de artista e ela ser ídolo de muita gente, principalmente jovens, surgiu o risco de haver muitas fãs a decidir pôr fim à vida para lhe seguirem o exemplo. Realmente, apesar das medidas recomendadas por psicólogos e sociólogos para que o assunto não fosse demasiado focado na Comunicação Social, segundo a autora Lois Banner, “a taxa de suicídio em Los Angeles dobrou após a confirmação de sua morte, bem como a circulação da maioria dos jornais naquele mês”.

O poder da comunicação social é terrivelmente assustador, influenciando, normalmente pelos aspectos mais nefastos, pessoas ainda não formadas ou com uma formação ténue e mal consolidada, que desejam imitar as pessoas mais focadas na TV e outros meios de comunicação social, no desejo de obterem uma notoriedade semelhante. Infelizmente, essa debilidade mental não é devidamente encarada pela TV no sentido de não dar alimento aos instintos dos mais débeis mentais que procuram imitar aqueles a quem, ocasionalmente, é dado mais tempo de antena.

Por isso, sem olhar ao valor ético dos telespectadores, nem aos possíveis efeitos sociais, e procurando apenas ter audiência, exploram acontecimentos de que apenas se devia dar uma rápida notícia sem pormenores nocivos. Passar muito tempo várias horas por dia, repetidamente, a mostrar um criminoso e a falar de pormenores da sua má acção, pode servir de estímulo para um tipo mal formado aprender pormenores a evitar para levar o crime ao fim que deseja e sem ser identificado pela autoridade. Não parece socialmente correcto idolatrar alguém que comete uma acção repelente.

Essa visão deturpada da função da Comunicação Social não pode ser alheia ao aumento da violência doméstica, da violência no futebol, do desmazelo e irresponsabilidade que está na origem da quantidade de mortos nas estradas, da pedofilia, etc. Quem aparece na TV funciona como chamariz, como modelo para pessoas sem formação moral, com índole parecida. Não foi por acaso que aumentou a taxa de suicídios após a morte de Marilyn, apresar de a Comunicação Social ter sido aconselhada a evitar referências muito visíveis.

No campo oposto, sabemos que os nossos cientistas têm tido reduzida publicidade entre nós, embora sejam um indicador do impacto na ciência no Mundo. No entanto, de ano para ano, cresce o número de portugueses constantes em artigos “altamente citados” internacionalmente. Parece que devia ser poupado tempo com os criminosos para ser dedicada mais atenção aos nossos cientistas que merecem ter fãs e seguidores. Por exemplo, Nuno Peres, físico da Universidade do Minho, foi em 2018 o cientista a trabalhar em Portugal mais citado no mundo por outros investigadores. Também José Teixeira, o segundo mais citado dos investigadores a trabalhar em Portugal, merece bom destaque e, a seguir, António Vicente e Miguel Cerqueira, ambos na área das ciências agrárias.

Mas há muitos outros nomes a quem a Comunicação Social devia dar mais atenção, como Isabel Ferreira, Lillian Barros, Letícia Estevinho, Luís Santos Pereira, Mário Figueiredo, José Bioucas-Dias, Miguel Araújo, Pedro Areias... e haverá muitos mais cujos nomes deixo ao cuidado dos nossos jornalistas que se interessem pelo que há de mais meritório em Portugal e que possa servir de incentivo a jovens que desejam êxito na vida.

Se as nossas TVs preferem continuar focadas no crime e dar tempo de antena a criminosos, então merecem aquilo que muita gente já diz: que a TV é uma escola de criminosos. ■

António João Soares
03-3-2019

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sexta-feira, 3 de maio de 2019

CUIDADO E PRECAUÇÃO, SEMPRE

Cuidado e precaução, sempre
(publicado no semanário O DIABO nº 2209 de 03-05-2019, pág 16?

São imensos os acidentes de várias espécies que têm vindo a público, com perdas de vidas, de bens materiais e de danos para o meio ambiente que podiam e deviam ser evitados com práticas sistemáticas de cuidado e precaução com a manutenção e a utilização de equipamentos. Pessoas menos conscienciosas dirão que os cuidados e as medidas de precaução de que é exemplo a manutenção de materiais, têm custos. Mas, em sentido contrário, não podemos tentar esquecer que as vidas perdidas os haveres estragados por acidentes evitáveis têm um preço muito mais elevado, por vezes incalculável e com efeitos demasiado dolorosos para as vítimas e suas famílias, além da emotividade desagradável da população em geral.

Há poucas dezenas de anos, em meios próximos da educação e da formação profissional era defendida e aconselhada a excelência dos resultados do trabalho, mas o aparecimento de uma onda juvenil de falsos filósofos, ainda imberbes nas artes profissionais e convencidos de que estavam dentro do conhecimento da digitalização, lançaram a ideia de que o que era necessário era chegar ao fim sem olhar para a qualidade do trabalho, afastaram o culto da excelência no trabalho e deixaram lugar vago para o desmazelo e o desleixo generalizado que está a minar o desenvolvimento das indústrias e dos países.

O incêndio que deflagrou na catedral de Notre Dame de Paris em 15-04-2019 e que a podia ter deixado irrecuperável, deve ter sido gerado por material tratado com menos cuidado, menor precaução ou inconveniente desleixo, desmazelo ou desprezo, por pessoas não totalmente conscientes do possível perigo.

A queda do autocarro cheio de turistas, na Madeira, em 17-04-2019, que se despistou e capotou pela encosta, matando 29 turistas e ferindo 28, segundo suspeitas, pode ter perdido os travões durante o percurso, pouco tempo depois de abandonar o hotel. E isso poderia não ter sucedido se a viatura tivesse sido cuidadosamente vistoriada antes da sua utilização, ou se o motorista a tivesse imobilizado logo que detectou que algo não estava a funcionar correctamente.

Em Agosto de 2010, o despiste de um autocarro dos Transportes Colectivos do Barreiro, em frente da estação do terminal rodo-fluvial, causou um morto e quatro feridos ligeiros. O acidente ocorreu quando o autocarro se despistou e embateu noutro autocarro da mesma empresa municipal de transportes públicos. Uma melhor concentração do motorista naquilo que estava a fazer teria evitado o morto e os feridos.

Em Outubro de 2010, quatro pessoas morreram num acidente de viação no Itinerário Principal 4 (IP4). Ao quilómetro 93, uma colisão entre um ligeiro e um mini-autocarro provocou quatro mortos, três alunos polacos e um residente de São Cibrão, e 10 feridos ligeiros, todos jovens do Abambres Sport Club. A que se terá devido a falta de concentração do motorista no trabalho que ia a realizar?

Em 10 de Março último caiu na Etiópia um avião, seis minutos depois de descolar, tendo morrido todos os 149 passageiros e 8 tripulantes. Provavelmente, antes da descolagem não teria sido devidamente inspeccionado. E, possivelmente, o piloto do voo anterior não deve ter informado sobre qualquer deficiência detectada.

Em 29 de Outubro passado, um Boeing caiu no Mar de Java, devido a uma causa desconhecida, o piloto entrou em contacto com a torre de controle e pediu para retornar ao aeroporto, porém a aeronave perdeu o sinal 13 minutos depois, o avião que transportava 189 passageiros entre eles uma criança e dois bebés, caiu ao mar, tendo morrido todos os seus ocupantes. Em 11-12-2018, fiz em O DIABO um apelo para se tomarem medidas preventivas a fim de “Reduzir os acidentes rodoviários”.

As vidas assim perdidas e os ferimentos podiam provavelmente ter sido evitados se tivesse havido o culto da excelência quer dos mecânicos quer dos motoristas e pilotos.

Vale mais prevenir do que remediar. ■

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quinta-feira, 25 de abril de 2019

ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS E DEFESA DO AMBIENTE

Alterações climáticas e defesa do ambiente
(Publicado no DIABO nº 2208 de 26-04-2019, pág 16)

Vi há dias uma imagem de crianças arregimentadas em quantidade por algum grupo de falsos filósofos, pretendendo talvez obter um ambiente mais limpo e saudável, e a exigirem ao Governo uma luta activa contra as alterações climáticas, como se estas dependessem da poluição ambiental ou da limpeza das ruas e do termo do uso do carvão e do petróleo nos meios de transporte e nas indústrias. Se estivessem atentos nas escolas e tivessem bons professores, sabiam que, muito antes da revolução industrial, houve climas muito diferentes dos actuais devido a evoluções naturais do planeta e do ambiente cósmico em que este se move. Para não nos prendermos com o caso da arca de Noé e da extinção de muitas espécies, quero referir um caso que me surpreendeu há menos de 30 anos. Quando me encontrava em Loures a criar o Serviço Municipal de Protecção Civil, fiz uma caminhada à serra entre Bucelas e a Via Longa e, já no cimo, vi conchas de ostras no chão; e quando começava a pensar que devia ter havido ali um piquenique com muita gente, tomei consciência de que a área com tais materiais era demasiado extensa, era toda a serra, sinal de que há muitos séculos aquele terreno esteve submerso.

Como a Natureza é viva e sempre a movimentar-se, tão lentamente que não nos apercebemos, só com muita atenção compreenderemos os fenómenos naturais, para os quais nada influiu a acção do ser humano. Por exemplo, ao olharmos para um mapa ou um globo terrestre, vemos que o oceano Atlântico se localiza numa fenda que cortou o continente africano e separou dele a América do Sul. A costa do Brasil tem um contorno que mostra bem ter-se deslocado da costa africana onde agora é o Golfo da Guiné. E já há sinais de que o mesmo Continente irá ter uma nova fenda no Vale do Rift na área onde se encontra o Lago Niassa e parte do vale do rio Nilo.

O sistema climático terrestre resulta de desequilíbrios energéticos, factores climáticos e, na história geológica do planeta, vários factores já induziram significativas mudanças de clima, como as várias transições entre Eras do Gelo e Interglaciares ocorridas no Quaternário. As suas causas só podem ter sido naturais, porque o homem primitivo não tinha capacidade nem ferramentas que o tornassem perigoso para o Planeta.

Actualmente, com a ciência mais evoluída do que noutras eras, já se fazem previsões ou se alinham receios de alterações climáticas devidas a causas exteriores ao globo terrestre, por exemplo de origens solares, que vão desde a variação da energia solar que chega à Terra e podem consistir na variação da própria órbita terrestre. E quanto a esta, já se fala que o eixo da Terra está a inclinar-se e há quem preveja que ele ficará perpendicular à trajectória dos raios solares; e, se isto se concretizar, deixará de haver as quatro estações do ano. Ficará apenas uma, sem alteração.

Todas estas possibilidades de alteração do clima serão naturais e não podem ser evitadas pela acção humana. Mas a manifestação das crianças, depois de bem orientada e explicada, nas escolas, é muito válida para tornar o ambiente mais saudável para termos uma vida mais agradável: a higiene corporal e do ambiente que nos cerca, os cuidados com a alimentação, a eliminação de materiais nocivos como o dióxido de carbono e muitos produtos químicos, produtores de fumos tóxicos e geradores de poeiras, o tratamento de águas residuais, etc, etc.. Trump, ao retirar o seu país do acordo de Paris, não foi tão inconsciente como dele foi dito: mostrou que estava bem informado sobre o facto de o clima não depender da acção humana. ■

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sexta-feira, 19 de abril de 2019

NATALIDADE, TRABALHO E IMIGRAÇÃO

Natalidade, trabalho e imigração
DIABO nº 2207 de 19-04-2019, pág 16

A par da teoria do género, das instituições intituladas autoridade, observatório, polícia, da república familiar, acentuou-se agora a apologia do controlo da natalidade ou, pelo contrário, do seu aumento. Como em tudo o mais, cada um destes factores sociais, deve ser bem ponderado, com profunda análise das suas implicações definindo vantagens e inconvenientes, face ao resultado desejado.

Em Portugal tem sido referido o factor “força de trabalho muito fraca” devido à baixa natalidade e ao envelhecimento da população, tendo atrás de nós, na Europa, a Alemanha, com população mais envelhecida. Mas a força de trabalho na nossa economia poderá ser bem acrescida se forem libertados os deputados que temos a mais e aumentam os gastos públicos sem notável compensação e se forem dispensados muitos dos ocupantes dos gabinetes do Governo e de instituições públicas, como assessores, adjuntos, técnicos especialistas, secretárias pessoais, técnicos administrativos, etc. os quais em empresas privadas bem geridas poderão dar melhor contributo para o desenvolvimento do País.

Mas o governo parece mais esperançado no aumento da natalidade e, enquanto ela não se traduzir em aumento na força de trabalho, se recorra à imigração, mas esta exige um controlo muito apurado das qualidades e competências e dos apoios às condições de vida. Há por aí estrangeiros, principalmente romenos a receber subsídio por cada elemento da família o que permite bom recheio de casa, mas de que não resulta actividade económica rentável para o fisco. Além de que os adolescentes, inactivos, como “a ociosidade é mãe de todos os vícios”, se entregam a actividades ilegais, por vezes em grupos dos quais até alguns têm sido exportados para actuar no estrangeiro integrados em movimentos bem conhecidos.

Para evitar o descaminho da juventude excessiva, a “África (e a Ásia) vão começar a ‘falar seriamente’ sobre planeamento familiar”. E isto é indispensável para os países poderem desenvolver-se, “porque os recursos são insuficientes para gerir ‘o tsunami de juventude’”.

É imperioso que as sociedades encarem este problema de forma bem ponderada, porque envolve implicações de natureza religiosa, aspectos sociais de tradições e mentalidades que desaconselham decisões apressadas e insustentáveis. Estes problemas devem analisados e debatidos, ponderadamente, para fazer face aos milhões de pessoas que chegam ao mercado de trabalho e não conseguem emprego.

Para tratamento dos idosos, como é de tradição, se as famílias tiverem recursos para providenciar educação de dois filhos e eles forem bem-sucedidos na vida, poderão assumir eficazmente essa função, não sendo necessária maior quantidade de filhos. Mas ter meia dúzia de filhos, não tendo recursos para lhes garantir educação, aumenta o risco de não obterem trabalho, ficarem a viver na dependência da família ou de “alguém” e serem aliciados por organizações terroristas, algumas muito citadas nos jornais.

Será aconselhável que a UE e a União Africana preparem aliança bem estruturada que permita receber e controlar «migrações legais e seguras». Por outro lado, convém aconselhar indústrias e outras actividades para se instalarem em África para a desenvolver e dar trabalho a africanos. Quanto aos que venham para a Europa convém que o façam de forma legal, tragam meios de sobrevivência e possam contribuir para melhorar as economias dos países de acolhimento.

Voltando à falta de força de trabalho nacional, e não querendo simplificar a máquina administrativa, reduzindo fortemente os seus efectivos, e querendo recorrer a trabalhadores africanos, é recomendável que se tenham em consideração os cuidados no parágrafo anterior, em ambiente de reciprocidade de respeito pelas pessoas quanto a raça, religião e tradições pessoais, devendo, no entanto, as normas sociais dominantes ser as da tradição local. ■

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sexta-feira, 12 de abril de 2019

SECA SEM SOLUÇÃO?

Seca sem soluções?
Diabo nº 2206 de 12-04-2019, pág 16, por António João Soares

Na parte final do Outono de 2017, foi sentida um grave seca que os especialistas consideraram das piores dos últimos 100 anos em Portugal e uma das mais intensas e prolongadas. A situação mais grave viveu-se no distrito de Viseu, onde a escassez de água na barragem de Fagilde, abastecedora da cidade capital do distrito, obrigou a uma mega-operação de transporte de água a partir da barragem de Aguieira, por sucessivas colunas de autotanques, a fim de manter os depósitos em condições de fornecerem a água suficiente à população.

Perante a situação de Viseu, e as previsões climáticas pessimistas, abordei o problema num artigo n’O DIABO de 19-12-2017 sugerindo a solução da dessalinização da água do mar, começando já a preparar as respectivas instalações, a fim de não sermos apanhados de surpresa. Existindo instalações adequadas, podem ser abastecidas áreas até à fronteira Leste, pois a sua distância ao mar não constitui obstáculo difícil, dado que a grande Lisboa consome água vinda da barragem de Castelo de Bode, a uma distância superior à maior distância entre o mar e a fronteira com Espanha. E nestas coisas vitais para a população, vale mais prevenir do que remediar.

Essa sugestão foi apresentada há mais de um ano mas, actualmente, estamos a enfrentar nova seca preocupante, com previsões de vir a ser repetida de forma mais grave, durante as próximas décadas. Mas os nossos doutos governantes parece que não deram um passo para uma solução do problema e, apesar da gravidade da situação e das ameaças de se tornar trágica, o Ministro do Ambiente e da Transição Energética, João Matos Fernandes, em entrevista ao jornal Sol de 31-03-2019, ao ser-lhe perguntado “o que é que o Ministério do Ambiente tem feito nesta matéria”, respondeu: “Só há uma solução a curto prazo: poupar água. E só há uma solução a longo prazo, insisto. Mesmo nos anos em que chove, temos de continuar a poupar água. Portugal está num ‘hotspot’ das alterações climáticas, que é a bacia mediterrânica - que é uma região onde é mais a quantidade de água que consumimos do que aquela que chove. E, portanto, é mesmo preciso poupar água”.

O senhor ministro parece não encarar a falta de água como aconteceu em Viseu, e pode acontecer mais ou menos por todo o país. Só podemos poupar aquilo de que dispomos e, se não tivermos água, não temos que poupar. E aquilo que se recusou a encarar tem que ser ponderado: o armazenamento da pouca chuva que possa cair. Não apenas se devem construir mais barragens em série nos rios de maior caudal, como se deve aumentar a capacidade das existentes, alargando o seu fundo, em vez de se manterem confinadas ao leito inicial do rio entre duas barreiras em V.

E, como se prevê que o nosso clima passe a ser parecido com o do Norte de África, convém não ter total esperança nas barragens, por falta de chuva suficiente, e iniciar o estudo da dessalinização em moldes adequados às nossas condições geográficas. Pode ir buscar o exemplo de Cabo Verde. Com o mar aqui tão perto, não é lógico que um governo deixe morrer o povo com falta de água e se limite a aconselhar a sua poupança.

E a poupança de água começa na utilização de boas canalizações para distribuição sem perdas, e no controlo do consumo, principalmente pelos grandes consumidores, como autarquias, etc. O sr. Ministro referiu o aproveitamento das águas residuais dos esgotos tratados nas ETARs, mas isso só pode ser possível quando houver água pois, sem ela, nem os esgotos funcionam. Enfim, o Governo tem que estudar bem o problema, para não insistir na insensatez do Sr. Ministro. ■

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sexta-feira, 5 de abril de 2019

CORRUPÇÃO ATÉ QUANDO?

Corrupção até quando?
(Publicado no DIABO nº 2205 de 05-04-2019, pág 16)

A corrupção tem sido considerada um atentado à desejada moralidade, honestidade e respeito pelo dinheiro dos contribuintes, mas o seu combate não tem sido exercido com determinação e sentido de Estado. Já, em tempos, o PGR Pinto Monteiro respondeu aos jornalistas, após um evento a que assistiu na região do Bussaco, que a acção judicial contra actos de corrupção era muito difícil porque estes decorriam entre duas pessoas sem testemunhos nem provas. Mais tarde começaram a aparecer apelos a que as pessoas que soubessem de algo do género o denunciassem.

Mas tem sido notório que, como é crime que está demasiado generalizado, os denunciantes, em vez de acarinhados e terem possibilidade de ver o bom resultado da sua acção patriótica, acabam por ser arguidos por difamação, etc. Nesta data há duas pessoas a contas com a justiça, uma eurodeputada e um ‘hacker’.

Quanto ao ‘hacker’, houve quem o considerasse merecedor de um prémio, à semelhança de dois ‘hackers’ que visaram interesses de americanos. Um que gostava de informática e se dedicava a ela em profundidade tinha entrado nos segredos do Pentágono. Logo que foi detectado, a solução que foi adoptada pelos altos responsáveis da Instituição, depois de reconhecerem a sua competência em assuntos informáticos, consistiu em o contratar para trabalhar nela e o resultado foi a realização de alterações no funcionamento da informática utilizada, por forma a ser mais segura e impermeável a infiltrações nefastas.

O ‘hacker’ português de quem agora se fala bem poderia ser convidado a trabalhar na PJ ou na PGR, onde poderia dar importante ajuda no combate à corrupção em conformidade com a ideia exposta por Pinto Monteiro, mas sem necessidade de denunciantes duvidosos.

Um outro ‘hacker’ português “recompensado” precisava de dinheiro para adquirir novas aplicações para os seus estudos das possibilidades da informática, ousou utilizar a conta de uma entidade americana que, numa curta passagem por Lisboa, fez algumas compras com o cartão de crédito. Esse senhor detectou que na sua conta bancária apareceram algumas pequenas despesas que o intrigaram. Acabou por, através de investigações dos serviços adequados, saber quem foi o pequeno delinquente e, ao saber das suas capacidades e da sua carência de dinheiro, o convidou para um emprego e lhe pagou uma formação académica à sua escolha. O lesado pagou-lhe a ida para a América e conseguiu assim um colaborador que lhe garantiu segurança e eficiente colaboração em todos sectores ligados à informática.

Quanto ao caso atrás referido da eurodeputada, achei interessante o artigo publicado em 25-03-2019, em ‘Notícias ao Minuto’, “Gomes da Silva questiona tratamentos a Ana Gomes e Manuela Moura Guedes”, em que se refere que a Direcção do Benfica levantou processo judicial à eurodeputada Ana Gomes e a segunda disse na SIC que a atitude da primeira não prejudicaria Luís Filipe Vieira “porque é intocável”, num tom que sugeria boas ligações dele com gente do poder também inserida nos mesmo vícios.

À semelhança do aproveitamento pelos americanos nos dois casos citados, Ana Gomes devia ser apoiada e chamada a explicar o seu ponto de vista e, depois, feitas as averiguações convenientes para se “lutar contra a corrupção”, como tantas vezes elementos do Governo têm prometido fazer. Ou será que há muitos “intocáveis”, com “rabos de palha” ou “telhados de vidro” que impedem que se toque nos cúmplices e coniventes?

Recorrendo a estes espíritos observadores ou a outras pessoas competentes, honestas e dedicadas ao interesse nacional, há que agir sem demora na erradicação desta moléstia altamente lesiva dos portugueses, com energia semelhante à usada noutros países, onde têm sido aplicadas penas altamente pesadas. O povo português agradecerá. ■

António João Soares
29-03-2019

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quinta-feira, 28 de março de 2019

A ÉTICA NA POLÍTICA

A ética na política
(publicado no DIABO nº 2204 de 29-03-2019, pág 16)

A UE quer aplicar impostos directos às pessoas dos Estados-membros para reforçar o seu orçamento. Mas como? Se a UE pretende ser considerada democrática, esse objectivo não pode surgir da mão de um autocrata qualquer, por impulso ou capricho de um “poderoso” não eleito, e sem ouvir os pareceres dos representantes dos estados membros. E estes representantes devem ser escolhidos em função da sua comprovada experiência ao serviço dos interesses nacionais do seu país, da sensatez e da resistência a pressões de interesses particulares. Se este assunto não for tratado com muita prudência, arriscamos ter novos casos semelhantes ao Brexit, principalmente nos países menos desenvolvidos. Os contribuintes de tais impostos não aceitarão estar a contribuir para suportar os funcionários da UE que têm salários muito superiores aos valores em uso em muitos Estados europeus e que, aos 50 anos, são reformados com pensões escandalosamente altas em relação às da maior parte dos estados, além de mordomias como viagens, etc.

Não é aceitável que os altos “responsáveis” pelos destinos da UE usem o sistema primário de navegação à vista e que aliem uma perigosa ignorância do respeito pelas pessoas ao desejo de ostentarem, de forma exagerada, o poder de que estão investidos.

Os detentores de altos cargos da UE devem ser escolhidos por qualificados representantes dos Estados-membros com dados seguros sobre a sua competência, a posse de pensamento criador e a capacidade de não se deixarem viciar em burocracias desnecessárias que dificultam a convergência de medidas eficazes para um futuro melhor. E é indispensável o conhecimento das realidades quanto a potencialidades e a factores específicos, por forma a concentrar-se na definição de uma estratégia adequada e a tomar decisões independentes de interesses particulares, mas vocacionadas para o futuro que a maioria dos europeus deseja.

Não convém que a UE siga exemplos de Estados-membros transformados em Repúblicas Familiares em que se queira aparentar uma harmonia aparente à volta do líder paternal mas sem análise profunda de todos os aspectos dos problemas, e o argumento do chefe se resuma a dizer ‘é assim e não vamos perder tempo com esquisitices’.

O amiguismo, por vezes, leva para a UE políticos que estiveram em altos cargos onde não mostraram resultados visíveis, mas que lhes serviu de estágio ao “politicamente correcto” com promessas de obras e projectos que não saíram para o real, mas que geraram esperanças tendentes a aumentar os números de votos nas sondagens, vindos de pessoas crentes e pacatas, sem sentido critico, por ausência de observação e de espírito medianamente iluminado.

A política, arte de gerir um Estado e os seus serviços públicos, exige competência para conhecer os problemas, as suas causas e os seus factores determinantes, respeitando os direitos de cada cidadão, procurando garantir as melhores condições de este exercer a liberdade a que tem direito, da forma que mais lhe agradar, mas inserida nos mais vastos objectivos do desenvolvimento nacional. A liberdade do cidadão não deve ser restringida por burocracias inúteis nem por caprichos de controladores doentios com laivos autoritários. Os acessos aos escalões do poder devem basear-se na posse de qualidades e competências comprovadas pela experiência e não pela amizade e fidelidade ao chefe. O ascendente deste deve resultar das suas qualidades e da sua dedicação à causa pública, e da sua indiferença a interesses privados.

Resumindo, a personalidade e a moral de candidatos sujeitos a escolha deve traduzir-se, com rigor, numa dedicação incondicional ao interesse nacional, à semelhança do militar que, acima de tudo, defende a Pátria arriscando a própria vida. ■

António João Soares
22 de Março de 2019

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sexta-feira, 22 de março de 2019

IMPORTÂNCIA DA EDUCAÇÃO E DA FORMAÇÃO

A FINLÂNDIA não tem muitos recursos naturais. O hino nacional já diz: ...somos um país pobre, que não tem ouro. O recurso que temos é o nosso povo.
Assim, investimos no nosso povo.Toda a pessoa tem de receber formação, educação, para ir tão longe quanto a sua capacidade permitir.
Não é suficiente que uma sociedade possua algumas pessoas muito capacitadas. Toda a sociedade tem de ter a possibilidade de formação durante toda a vida.
Não basta que uma criança pobre receba alguma formação quando pequena. Ela tem de poder estudar o quanto quiser.
E a Finlândia tem sido um dos países mais competitivos nas estatísticas internacionais com apenas 5 milhões de habitantes. Imagine-se o que fariam com o dobro.

A presidente finlandesa, Tarja Halonen, adianta algumas dicas:
“investimento maciço em educação (6% do PIB na Finlândia, sem contar a investigação); transparência no governo; honestidade partidária”;
"É muito importante ter a coragem de alocar os recursos para a educação básica", ressalta ela.

Um povo educado elegerá dirigentes honestos e competentes. Estes escolherão os melhores assessores.
Com um povo inculto acontece exactamente o inverso.
Um povo educado não tolera corrupção.
Um povo educado sabe muito bem distinguir um discurso sério de uma verborreia demagógica.
Um povo ignorante desperdiça os seus recursos e empobrece. Um povo ignorante vive a iludir-se, e deixa-se iludir.
Um povo educado prospera mesmo em condições adversas!
A Finlândia tem um clima inóspito. Mas possui uma economia de mercado altamente industrializada, com produção per capita maior que a do Reino Unido, França, Alemanha e Itália. O padrão de vida finlandês é elevado. O sector chave da sua economia é a indústria - principalmente madeireira, metalurgia, engenharia, telecomunicações (destaque para a Nokia) e produtos electrónicos.
O comércio externo é importante, representando cerca de 1/3 do PIB. Com excepção de madeira e de vários minérios, a Finlândia depende de importações de matérias primas, energia, e alguns componentes de bens manufacturados.
E se comparássemos isto tudo com o nosso país?... Não é para ficarmos deprimidos, é para fazermos alguma coisa para mudar as coisas!!!

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COMPADRIO DISCUTÍVEL

Compadrio discutível
(Publicado no DIABO nº 2203 de 22-03-2019)

 Numa época em que as pessoas começam, desde jovens, a viver isoladas com os seus telemóveis, já considerados uma “droga que retira a visão e a audição”, há, em muitos casos, o recurso instintivo ao compadrio ou amiguismo, não para melhorar a inovação e a produtividade, mas para ocultar carências e deficiências e impedir a maior degradação da imagem. O resultado raramente é positivo.

Em ano de eleições, os partidos, segundo o sistema eleitoral vigente, têm de fazer listas de candidatos para o que seria lógico, racional, escolher pessoas sérias, com boa formação moral, dedicadas aos interesses nacionais, isto é, ao crescimento da economia para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos, com visão estratégica que permitisse o melhor aproveitamento das oportunidades oferecidas pela vivência internacional, com vista a um futuro risonho com possibilidades de sustentabilidade, etc. Mas em vez de tal critério, agarram-se aos amigos, cúmplices e coniventes com quem têm trocado favores e constroem uma lista de amigalhaços e familiares que deixarão que as coisas fluam sem sobressaltos na continuidade do “deixa andar” anterior e com o perigo de uma eventual inovação ser um desastre a emendar com rapidez. Há dois casos históricos, a pretendida construção de um aeroporto internacional na Ota e a mudança do Infarmed de Lisboa para o Porto.

E temos visto nas remodelações do Governo o crescente recurso a familiares, talvez por pessoas válidas se terem recusado a fazer parte de uma equipa em que não confiem. Mas o mais preocupante é que isso não se passa apenas entre políticos, com fraca capacidade intelectual, como se diz, mas surgiu a questão de nas nossas universidades, os reitores e docentes aplicarem critério semelhante na “escolha” de novos mestres para a continuidade do ensino. Segundo João Pedro George, referindo o livro “Cientistas Portugueses”, do bioquímico David Marçal, o recrutamento de doutorados para cargos permanentes de docência na Instituição que lhes atribuiu o diploma de doutoramento está a ser demasiado usado, o que, entre outros aspectos, prejudica a produtividade científica. Isto reduz o ímpeto dos docentes para se dedicarem à investigação e à produção de conhecimento científico original, reduzindo a produção de artigos científicos e de obra publicada.

Há que proporcionar diferentes modos de pensar, alargar os horizontes intelectuais minimizar o conformismo e a submissão à ortodoxia do discurso institucional, criando condições para promover a criatividade científica, o espírito crítico e a liberdade de pensamento.

Tenho na família exemplos de que, nos EUA, não há esse compadrio e é estimulada a liberdade e a partilha de aquisição de saber. Dois irmãos doutorados lá, candidataram-se à carreira de docentes mas encontraram a obrigação tradicional de iniciarem as suas funções em universidade estrangeira, durante dois anos. Um escolheu Itália o outro optou pelo Canadá, depois ficaram a ter a obrigação de mudar de universidade a cada dois anos até serem catedráticos.

Um já tem cátedra. O outro, depois de algumas mudanças, desistiu para não dificultar a vida da esposa, médica imagiologista e directora de serviço no hospital local, e dos filhos que estavam bem integrados no colégio que frequentavam e onde tinham boas relações de convívio com colegas e professores. Essa alteração de carreira não o prejudicou e tem melhores condições de vida do que o irmão catedrático.

A vida é feita de mudanças e devemos evitar a cristalização, o imobilismo e o sedentarismo a fim de promover a criatividade científica, o espírito crítico, a liberdade de pensamento e a integração em redes de investigação nacionais e internacionais. A evolução da ciência não pode estar confinada às quatro paredes de uma escola. ■

António João Soares
15-03-2019

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sexta-feira, 15 de março de 2019

O PORTUGAL QUE QUEREMOS

O Portugal que queremos
(Publicado no DIABO nº 2202 de 15-03-2019)

Constou-me que o chefe do grupo parlamentar do PSD disse que “nunca o Portugal que temos esteve tão distante do Portugal que queremos”. A intenção parece ter sido uma crítica ao actual Governo, mas nada esclarece os portugueses, nem os leva a meditar naquilo que devem querer para o futuro de Portugal, nem traduz o que o seu partido deseja para melhorar o País. É mais uma palavra vã como a maior parte daquelas que qualquer político atira para denegrir o rival e para criar ilusões nos cidadãos eleitores. Mas também pode ser interpretado como uma involuntária confissão da omissão do grupo parlamentar que chefia por não ter analisado a situação do País, os factores que lhe condicionam o desenvolvimento, as potencialidades das riquezas naturais, económicas e da população e, a partir de tal análise, ter definido objectivos a atingir, isto é, concretizar aquilo que queremos para um melhor futuro de Portugal.

E, encontrando-nos em vésperas de eleições, a definição de tais objectivos constitui uma obrigação lógica de cada partido a fim de criar, nos eleitores, esperança e alguma garantia de decidirem votar em consciência naquele que lhes pareça ser o melhor candidato ao seu voto. Recordo o artigo “Como aproveitar a passagem pela oposição”, publicado aqui em 20 de Setembro de 2016, em que procurei sugerir a um partido que se encontra na oposição que deve utilizar essa fase da sua existência como um estágio para o governo que deseja vir a desempenhar. Com esse ponto de vista, não convém limitar-se a criticar e infernizar o Governo em funções, mas sim a fazer críticas construtivas e demonstrar claramente as suas capacidades para fazer melhor e desenvolver o País e criar melhor qualidade de vida para as pessoas. É certo que tem o perigo de o Governo utilizar essas ideias e beneficiar a sua imagem. Mas, mesmo assim, o autor da ideia pode demonstrar que esta é sua e com isso ostentar a sua capacidade superior.

E, pensando de tal forma, a frase em questão leva-me a expor algumas interrogações. Que Portugal queremos? Será que todos querem o mesmo? Há algum estudo estratégico que defina o Portugal desejado pela maioria dos Portugueses? Quais os objectivos nacionais propostos pelos partidos que vão candidatar-se nas eleições que se avizinham? E que garantias nos dão de atingir tais objectivos se tiverem votos para isso? Temos vivido ao som de promessas maravilhosas que servem para nos embalar na sonolência permissiva e apática, da tolerância pacóvia e de que nunca chegámos a ver a concretização.

O autor da frase desempenha funções que justificam o pedido de que esclareça sobre o seu conceito correcto e pormenorizado do “Portugal que quer”. Quais as suas propostas sobre a Saúde, o SNS, a ADSE, o IASFA, etc, sobre a Justiça, os juízes, o tempo da resolução dos processos, o combate à corrupção, à violência em geral e, em particular, à doméstica, etc., sobre o Ensino, a preparação dos futuros cidadãos, a ética, o respeito pelos interesses nacionais, a preparação dos agentes da economia de amanhã, para fazer crescer a economia nacional, para aumentar a exportação, para reduzir a dívida, etc. etc.? O autor da frase, vazia de sugestão para solucionar a situação, pode ser considerado grande culpado da situação que acusa, por não apresentar estratégias alternativas de forma clara em todas as fases e os graus ou níveis em que devem ser concretizadas.

Se todos temos o dever de colaborar, dentro das respectivas possibilidades, para o “bem da Nação”, esse dever constitui uma imposição para todos os partidos, pelo menos os que estão representados no Parlamento que vigia e fiscaliza a actuação do poder executivo. E aí há lugar para propostas e outros actos de apoio, de reparo e de sugestão para fazer face a problemas nacionais. ■

António João Soares
09-03-2019

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