terça-feira, 22 de agosto de 2017

O TERRITÓRIO EXIGE MAIS ATENÇÃO

O território exige mais atenção
(Publicado no semanário O DIABO em 170822)

Os fogos florestais têm sido uma tragédia sem fim à vista. Também a seca e as temperaturas mais altas estão a criar sérias dificuldades na agricultura. São visíveis as alterações climáticas devidas a fenómenos naturais incontroláveis pelo homem, como a inclinação do eixo da Terra que, no caso português, está a fazer sentir o avanço do deserto do Sarah.

Muitos lamentos têm sido ouvidos por pessoas que conhecem bem o interior do país. Algo tem sido dito por técnicos conhecedores das causas dos fogos florestais. Mas isso não resolve o problema porque os cidadãos que foram escolhidos para gerir os interesses dos portugueses, não mostram interesse em conhecer e compreender a essência dos assuntos e, quando legislam, não cuidam de transmitir às autarquias e aos habitantes algo que eles possam compreender e concretizar para bem da Nação.

A floresta tem que ser preparada para resistir aos fogos que a ameaçam todos os anos. Tem sido dito que isso acarreta despesas volumosas, mas é preciso pensar na dimensão das despesas causadas pelos fogos diariamente nesta época estival e decidir se será mais racional gastar na organização da floresta ou deixar que ela seja destruída causando prejuízos mais volumosos. Mas isso não pode ser decidido por palpite, mas sim, baseado em cuidadoso estudo feito por gente conhecedora, planeado, organizado e praticado de forma bem controlada e ajustada às realidades e às suas variações imprevistas.

Já várias pessoas dedicadas aos aspectos nacionais lamentam o desaparecimento de guardas florestais, de guarda-rios e de cantoneiros, que podiam fazer o papel de vigilantes e alertar sobre qualquer desvio pernicioso daquilo que deveria ser feito e ajudar as pessoas a evitar erros.

E, quanto à agricultura, faz pena ver muitos terrenos que outrora davam produção para sustentar os aldeões que dela viviam e mandar educar os filhos e, agora, onde se produzia milho e outros produtos, crescem silvas e vegetação espontânea que no verão serve de pasto às chamas. Não será aconselhável regressar aos métodos de trabalho do passado, mas devem ser difundidas novas metodologias para obter produtos que sejam úteis ao consumo nacional e à exportação. Recordo que, em tempos idos, o eng Sousa Veloso dava na TV uma lição semanal sobre diversos aspectos da agricultura real de forma acessível aos menos letrados.

Esse era um bom serviço prestado pelas televisões ao país. Agora, em vez disso, elas passam o tempo e repetir frases e imagens sobre crimes ocorridos ontem, pormenores de bombeiros frente às chamas, futebol, coscuvilhices e notícias nem sempre comprovadas de campanhas demolidoras contra aquilo que no momento é seu alvo ou dos seus mandantes. Seria mais útil e benéfico aos portugueses se elas transmitissem ideias complementares de formação profissional em coisas que interessam à maioria dos telespectadores.

Certamente, se hoje houvesse um seguidor de Júlio Isidro a ensinar bricolage, haveria menos adolescentes desviados do bom caminho. E se houvesse outro Megre, haveria menos acidentes nas estradas, por haver mais cuidados com a própria segurança e a dos outros utentes.

Para concluir, o território do interior precisa de mais atenção e que os «boys» o conheçam melhor e se sintam sensibilizados para aumentarem o seu saber sobre assuntos reais e para pensar e trabalhar um pouco na elaboração de medidas práticas e eficientes para criar mais segurança e maior rendibilidade do património de que dispomos.

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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A PAZ É UM BEM APRECIÁVEL

A Paz é um bem apreciável
(Publicado no semanário O DIABO em 170815)

A busca da paz, harmonia, bom entendimento, deve constituir um objectivo permanente de todas as pessoas, desde as mais simples até às responsáveis pelos estados. Podem chamar-me utópico ou lunático, por assim pensar, mas já aparecem pessoas com grande responsabilidade a manifestar ideais semelhantes. Oxalá o seu número se multiplique, para bem de todos nós e da vida no planeta.

Por isso, sinto-me feliz com algumas notícias que recebo. A mais recente foi a de representantes das duas principais facções da Líbia, com mediação da França, estarem dispostos a passar a ter convivência, harmonia, que crie condições de unidade, segurança e desenvolvimento, num país que já teve grande importância no Norte de África. «Comprometeram-se a um cessar-fogo e a abster-se de fazer qualquer uso da força armada para outro propósito que não estritamente o da luta antiterrorismo». Não será fácil aplicar o acordo num país fracturado, mas já deram um grande passo ao «concordarem realizar eleições “o mais cedo possível” e obedecer a uma trégua entre as suas forças no terreno».

Também a Colômbia passou a não viver amedrontada por ataques de elementos das FARC que passaram a ter uma participação normal na vida do país, depois de entregarem as armas. Recorda-se que, em fins de 2015, elas propuseram ao governo e ao país entrar de imediato, sem condições que apenas levantam desconfiança, numa trégua bilateral prévia, como passo gradual ao cessar-fogo bilateral e definitivo que já estavam visando” e que veio a concretizar-se com êxito.

Em Espanha, a ETA dispôs-se a terminar a sua oposição violenta e a participar no engrandecimento do país.

A China, estado pacífico e tolerante, aconselhou os países do Médio Oriente a conviver como amigos, em paz e com repúdio de guerra. E, quanto ao seu vizinho norte-coreano têm aconselhado a cumprir as condições colocadas pela ONU e a respeitar os outros povos. Porém alerta para que são os Estados Unidos e a Coreia do Norte que têm a "principal responsabilidade" pela escalada de tensões e por negociar a paz na Península Coreana. São estados que têm condições que dispensam o recurso a mediadores, mas que, incompreensivelmente, mostram atitudes de fanfarronice com ameaças crescentes que podem levar a ponto de não retorno.

Estes são alguns exemplos daqueles que entendem que é preferível resolver os atritos pacificamente, por diálogo, do que enveredar pela escalada da violência. Mas é desejável que se ergam mais vozes e se tomem atitudes na defesa dos elevados ideais da convivência pacífica entre os povos, para que se generalize o recurso a conversações, diálogo, negociações, directamente ou com ajuda de mediadores, e se evitem as guerras que tanto mal têm causado a pessoas e aos seus bens materiais, bem como a toda a parte viva do planeta. É certo que os industriais de armamento não estão interessados nesta evolução porque, estando intoxicados pela droga dinheiro, colocam a sua ambição de riqueza acima dos interesses dos humanos seus semelhantes, sem sensibilidade para os sofrimentos que causam. E empurrados por eles, há governantes, de consciência empedernida, sem solidariedade para com os sus semelhantes, que não hesitam em aproveitar pequenos motivos para dar largas à sua vaidade e utilizar armas poderosas, com exagerada capacidade de destruição.

Façamos todos aquilo que está ao nosso alcance para que o mundo viva feliz e possa saborear os bons efeitos da paz e da harmonia social.

António João Soares
8-08-2017

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terça-feira, 8 de agosto de 2017

SERVIÇOS PÚBLICOS NÃO RESPEITAM UTENTES

Serviços públicos sem respeito pelos utentes
(Publicado no semanário O DIABO em 170808)

O cidadão portador do Cartão nº 03749056 7ZX5, residente em Runa precisou de ir a Lisboa no dia 13 de Julho de 2017. Habituado a usar de pontualidade, com o significado de «estar a horas», estava na estação da CP de Runa às 07h30 para tomar o comboio com paragem prevista no horário para as 08h13, com chegada prevista ao Rossio às 09H59.

O comboio chegou a Runa às 08h50 (com atraso de 37 minutos). Chegou ao Rossio às 10h57, isto é, cerca de 1 hora mais tarde do que que o previsto.

No regresso, o referido cidadão não conseguiu chegar a Sete Rios a tempo de tomar o comboio que passou às 16h44. E, como o comboio seguinte partia de Meleças às 18h35 teve de se deslocar para esta estação, tendo queimado cerca de duas horas no percurso e no cais e embarque, sem comodidade adequada a tão longa espera.

Os horários não estão de acordo com os interesses da generalidade dos utentes, com intervalos muito variáveis e, por vezes exagerados. Por outro lado, os planos feitos pelos cidadãos para os seus deslocamentos não podem ser elaborados com fiabilidade devido a atrasos frequentes na circulação dos trens.

Alguns comboios utilizados nesta linha (do Oeste) têm os vidros de tal maneira pintados que a sua opacidade não permite ver os nomes das estações em que vão parando, o que dificulta aos utentes sair na estação que lhes interessa. E não existe qualquer meio de comunicação a informar qual é «a próxima estação».

Na quinta-feira seguinte, dia 20, o comboio que seguia para Caldas da Raínha, devia, pelo horário parar às 7h10, mas apenas chegou às 7h35 (25 minutos de atraso). O que seguia para Meleças chegou a horas mas, na estação seguinte, Dois Portos, esteve parado mais de 20 minutos, o que se repercutiu num atraso desagradável na chegada ao Rossio.

E, no regresso a partir de Sete Rios que estava previsto no horário ser às 16h44 teve um atraso de 6 minutos, que foi sendo aumentado nos anúncios sonoros, para 10, 20, 27 e 30 minutos. A confusão gerada pelos anúncios, quase sobrepostos a outros, perturbou a atenção e o passageiro perdeu-o e teve que tomar outro comboio para Meleças, de onde partiu às 18h38, quase DUAS horas após ter comprado o bilhete.

No dia 27, o bilhete foi comprado em Sete Rios às 15H49. Às 17h05, depois de muita espera em Meleças, era hora de partir, mas os passageiros que aguardavam foram avisados por um funcionário da CP de que essa viagem não se ia realizar e que teríamos de esperar algum tempo pela seguinte. Às 18h36 o comboio iniciou a viagem, isto é, 2h47 após ter sido obtido o bilhete. As pessoas reclamavam e o funcionário respondia que a bilheteira já estava fechada e podiam entregar reclamação por escrito no dia seguinte. Alguns passageiros ligavam para casa a fim de informar do atraso da chegada, para não estarem preocupados.

Os responsáveis pela CP e os governantes responsáveis pela defesa dos cidadãos devem prestar a devida atenção aos casos referidos e a outros que possam contribuir para um melhor serviço a prestar aos cidadãos. Pensa-se que o investimento em tais medidas será recuperado pelo aumento de utentes atraídos pela maior comodidade deste meio de transporte que é menos poluente do que os rodoviários.

É urgente que as entidades responsáveis actuem eficazmente em defesa das populações do Oeste que precisam de utilizar esta linha. Tal como está a funcionar, É UMA VERGONHA.

António João Soares
1 de Agosto de 2017

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segunda-feira, 7 de agosto de 2017

NECESSIDADE DE CORPO DE AGENTES FLORESTAIS

Transcrição de texto de Rute Coelho, publicado no DN em 6/0872017
"Devia ser criado um corpo nacional de agentes florestais"




Reformado da Polícia Judiciária, António Carvalho dedica-se ao setor privado
PAULO SPRANGER/GLOBAL IMAGENS

António Carvalho trabalha para seguradoras como perito em incêndios.

É na esplanada da Graça, em Lisboa, debaixo da sombra dos grandes e velhos pinheiros-mansos, que vamos ao encontro de um dos maiores especialistas em incêndios do país: António Carvalho, 60 anos, reformado da Polícia Judiciária onde era coordenador de investigação criminal de incêndios. Há quatro anos que trabalha no privado, para várias seguradoras, a fazer peritagens de incêndios e explosões urbano-industriais (para o património florestal não há seguros, dado o risco elevado). É com conhecimento acumulado de décadas que retira conclusões sobre o estado do país em matéria de prevenção de fogos florestais. "Outro Pedrógão pode acontecer", garante. "Os partidos do eixo do poder, PS e PSD, têm há 30 anos um comportamento de negligência grosseira relativamente aos incêndios. Deviam estar calados e escondidos."

Como não aprecia o hábito português de criticar sem apontar soluções, deixa uma sugestão: "Devia ser criado um corpo nacional de agentes florestais, com funções de controlo do espaço florestal e de auxiliares da silvicultura." No fundo, explica, bastaria "vontade política" para ir repescar o modelo dos guardas-florestais que existiu até 1997. "Apesar de serem designados de agentes não teriam funções policiais ou de fiscalização. Cada concelho com um gabinete técnico florestal teria dois agentes." Seria um corpo de pelo menos 250 agentes florestais (existem 300 municípios. "O recrutamento seria feito nas escolas técnico-profissionais e também entre os bacharéis de engenharia florestal."

António Carvalho também defende que o Dispositivo Especial de Combate a Incêndios Florestais (DECIF) devia deixar de ser distribuído da forma clássica, com os meios mobilizados na capacidade máxima apenas na fase Charlie, entre 1 de julho e 30 de setembro. "As fases de combate aos incêndios (de 15 de maio a 15 de outubro) estão desajustadas e não estão adaptadas às condições meteorológicas." O país tem vindo a enfrentar anos com seca cada vez mais extrema. "A manta morta dos combustíveis e do espaço florestal tem cada vez menos humidade, os combustíveis secam mais cedo. Temos ventos cada vez mais fortes e inconstantes. Leva a que o risco aumente face ao mesmo espaço. Se o risco aumenta, e temos alteração nas condições climatéricas, tudo o que aconteça mais cedo, em maio ou junho, pode ter repercussões mais nefastas relativamente a outros anos em que só acontecia em agosto." O que se tem visto no terreno este verão "é uma ausência das equipas especializadas no combate imediato ao fogo para irem proteger aldeias isoladas, algumas com duas ou três casas. No fogo de Mação não havia dispositivo no terreno para uma resposta ao tempo".

No combate aos incêndios o tempo é crucial. "Mandam dez aviões e 500 homens, por exemplo. Mas a pergunta que se tem de fazer é: ao final dos primeiros 60 minutos quantos lá estavam? Passada essa primeira hora o incêndio torna-se proativo e propaga-se."

Perante a descoordenação dos meios a que o país tem assistido, António Carvalho não tem dúvidas de que é possível acontecer outra tragédia como Pedrógão. "Proteger as pessoas está correto mas temos de impedir que o fogo chegue perto das habitações. E não é no terreno que se toma essa decisão. E depois vemos nas televisões imagens das pessoas com mangueira de rega a combater as chamas e a cortarem a erva à volta da casa, erva que deviam ter cortado três meses antes. E andamos a protegê-los? O que é que a freguesia e o concelho fizeram para que a lei fosse cumprida? "Fala com o desgaste de quem já está farto de incúria. Falta "intervenção estratégica", garante. "Tirando 1% a 2% de causas naturais que são atmosféricas, 99% dos incêndios em Portugal têm intervenção humana e acontecem por negligência, que é punida até cinco anos. Os fogos com causa intencional, com dolo, punidos até 13 anos, são residuais. O primeiro passo devia ser "impedir que os incêndios por negligência (queimadas, atirar pontas de cigarro, fogueiras para churrascos ou para redução de combustíveis) aconteçam, apostando numa fiscalização estratégica". Essa fiscalização deve ser feita pela polícia de proximidade, que é a GNR nas zonas rurais. "Nas zonas em que se fazem queimadas agrícolas, até às 10.00 ou 11.00 da manhã, o reacendimento pode acontecer por volta das 14.00. A autoridade devia ter estes períodos em consideração. Se um fogo fica ativo à meia- -noite então foi posto porque a essa hora não há queimadas."

Quanto aos incendiários locais, lembra que estão estudados pela PJ e que "deviam ser integrados nas equipas de combate aos fogos ou de tratamento das florestas". Porque o que acontece é serem "presos e libertados", sucessivas vezes. Para António Carvalho "o país não está melhor do que no tempo da troika, está na mesma, e não tem outro remédio senão ficar na União Europeia. Devemos continuar a receber refugiados mas tratá-los como imigrantes que estão integrados na sociedade e trabalham".

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domingo, 6 de agosto de 2017

SEGREDO DE «INJUSTIÇA»



Transcrição do texto de António Barreto publicado no DN de 30-07-2017.
Segredo de injustiça

Como foi possível chegar aqui, a esta polémica obscena a propósito dos fogos, em que quase todas as opiniões sobre os desastres, as causas, as soluções e as responsabilidades são dominadas pela simpatia partidária? O governo e apoiantes tudo fazem para esconder o falhanço, dissolver responsabilidades, acusar os serviços e denunciar a oposição. A oposição vitupera e acusa, faz demagogia, aproveita e aproveita-se. Toda a gente sofre em directo e chora para as notícias das oito. Fala-se em nome dos mortos, poucos referem os vivos. Percebem-se os incêndios. Com o clima mediterrânico, as nossas matas, a desordem florestal, a insuficiência de bombeiros profissionais, a inércia dos governos fora da estação dos fogos, os criminosos mal castigados, as nomeações partidárias para os serviços de prevenção, a aquisição de um sistema de comunicações pelo ministro de então que é o primeiro-ministro de hoje, as misteriosas compras de equipamento pesado, os estranhos contratos de aluguer de meios de combate, a corrupção imposta por alguns bancos e umas tantas empresas de serviços, com tudo isto, percebe-se que haja incêndios, que não haja prevenção adequada, que a luta contra os fogos acabe por ser descoordenada e ineficaz, que se coloquem em perigo de vida os bombeiros, os polícias, os enfermeiros e os guardas, para já não falar dos cidadãos, dos lavradores e dos velhotes.

Mas há algo que não se percebe. Como foi possível que um conjunto de instituições, prestigiadas umas, outras menos, considere que um desastre esteja em "segredo de justiça" e que este se aplique a uma lista de mortos... Segredo de justiça? Para acidentes deste género? É simplesmente absurdo! Como é possível admitir que um governo invoque o segredo de justiça e se reclame da separação de poderes para não publicar a lista de mortos desde o primeiro minuto? Como foi possível chegar a esta hipocrisia canhestra que tenta esconder-se atrás de argumentos jurídicos que nada têm que ver com o assunto? Uma lista de mortos a enterrar é um segredo? De quem? Para quem? Os governos, as direcções-gerais, as empresas de seguros, os bombeiros e os autarcas não têm obrigações perante os cidadãos? O que estava realmente em segredo? Os nomes? As circunstâncias? O sítio da morte? Ou as responsabilidades do governo?

Como é possível que se tenha estabelecido um black out informativo tentando impedir que autarcas, bombeiros, comandantes de guardas e polícias, responsáveis pela prevenção e pela saúde informem o público? E que se acuse de oportunismo e demagogia quem quer que faça perguntas sobre o que se passou? E que os partidos que apoiam o governo sejam incapazes de uma exigência de informação? Desde quando é demagógico fazer perguntas? Por que razão não se pode ou não se deve discutir o que realmente fez a diferença, isto é, a falha de previsão, a ausência de prontidão, a falta de coordenação e a carência de autoridade? Quem assim reage, como reagirá em todos os outros casos?

Como foi possível desnaturar de tal modo a democracia e os costumes para se chegar a este ponto? Como foi possível deixar que esta democracia se parecesse com a ditadura aquando das inundações de Lisboa e de outros desastres, para já não falar dos feridos e mortos da guerra do Ultramar com os quais o governo tentava também fazer selecção e tratamento? Como deixaram os deputados, os magistrados, os militares, os médicos, os autarcas e os comandantes dos bombeiros e das polícias que se chegasse a este ponto?

Que é feito dos homens livres do meu país? Estão assim tão dependentes da simpatia partidária, dos empregos públicos, das notícias administradas gota a gota, dos financiamentos, dos subsídios, das bolsas de estudo e das autorizações que preferem calar-se? Que é feito dos autarcas livres do meu país? Onde estarão eles no dia e na hora do desastre? Talvez à porta do partido quando as populações pedirem socorro e conforto.

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A PROCURA DA VERDADE



Transcrição do texto publicado por Henrique Neto em O DIABO de 1-08-2017. Merece ser lido atentamente, pensando na realidade nacional.
A procura da verdade

A procura da verdade é uma das mais nobres qualidades humanas, reveladora de um estágio de avanço civilizacional no plano colectivo e de desenvolvimento moral no plano individual. Sendo porventura na actividade científica que a procura da verdade é feita com regras mais sólidas e há mais temo, sabendo-se que a verdade de cada cientista é profundamente escrutinada por muitos outros que têm a competência necessária para o fazer.

Infelizmente, em Portugal, fala-se pouco e valoriza-se muito pouco a procura da verdade e, raramente, existe a cultura de procurar a verdade de forma onde isso é feito sistémica, à parte, como disse, do campo científico onde isso é feito. Pior, é o facto de que nas actividades políticas e informativas se instalou uma cultura propagandística da verdade relativa, ou da verdade possível, por vezes da mentira pura e dura, que tendem a tornar aceitáveis critérios de relativização da verdade, através da criação de um manto mais ou menos diáfano da fantasia.

Algumas das formas mais usadas para iludir a verdade, ou para desmotivar a sua procura, é a de tornar complexos os acontecimentos mais simples e de cercear o acesso à informação necessária para que seja possível chegar à verdade. A técnica de adiar informações e decisões serve, simultaneamente, objectivos múltiplos: o de desencorajar a procura da verdade e o de facilitar o esquecimento, além de permitir que novas notícias, falsas ou verdadeiras não importa, contribuam para desorientar a procura da verdade.

Nos últimos anos, os partidos políticos portugueses e os governos têm vindo a aperfeiçoar este sistema de relativização da verdade e de ilusão da realidade, no que é presentemente um poderoso instrumento de manipulação política, que envolve alguma influência nos meios de comunicação e o trabalho de equipas de intervenção nas modernas redes sociais. O Partido Socialista conseguiu, a partir de José Sócrates, alguma excelência profissional neste domínio, com alguns aperfeiçoamentos posteriores, sendo que os outros partidos tentam agora recuperar o tempo perdido, mas em condições mais precárias e menos profissionais. Por exemplo, o Bloco e Esquerda utiliza a excelência discursiva dos sus dirigentes com acesso privilegiado à comunicação social para atingir os mesmos objectivos.

O sucesso destas técnicas de manipulação do mercado eleitoral, com o objectivo principal de manter níveis elevados de aprovação nas sondagens, passa por eleitores não muito esclarecidos, pelo anúncio e medidas positivas, reais ou imaginárias, e pela permanente mudança de foco de atenção das pessoas. Nos casos recentes do fogo de Pedrógão Grande e do roubo de armas de Tancos, as técnicas de relativização da verdade têm sido seguidas com notável disciplina, nomeadamente ao nível do PS e do Governo, sendo que o único factor divergente resultou da insistência de alguns meios de comunicação e do sentimento geral dos portugueses, que mostram continuar interessados no tema. Ou seja, apenas o interesse das pessoas e da comunicação social nos poderá aproximar da verdade nestes dois casos.

Nestes, como noutros casos, há por vezes tentativas de suavização da fuga à verdade, como aconteceu recentemente quando o Presidente da República relativizou a questão do número de mortos m Pedrógão, com o argumento de que diferentemente dos regimes de ditadura, em democracia a verdade acabaria por ser revelada. O que está longe de ser verdade, nomeadamente em países como Portugal, em que as instituições do Estado e da sociedade dependem excessivamente dos governos e são fracamente independentes. Basta recordar a grande unidade revelada quer no Governo quer na generalidade das instituições, sobre Tancos e sobre as explicações para a tragédia de Pedrógão Grande. É verdade que a procuradora-geral da república mostrou a sua independência revelando a lista dos mortos, mas no tempo de José Sócrates a sua dependência do então Primeiro-Ministro era evidente.

Em resumo, é na procura sistémica da verdade e na independência das instituições, bem como no carácter dos escolhidos individualmente pelo povo – e não em listas fechadas - que em democracia os cidadãos podem esperar conhecer a verdade e ser governados em função da realidade. Em Portugal estamos longe de que estejam cumpridas estas condições.

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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

EM QUE MÃOS ESTÁ O FUTURO DOS CIDADÃOS ?

Em que mãos está o futuro dos cidadãos?
(Publicado no semanário O DIABO em 170801)

Os burocratas que estão à frente de serviços e instituições públicas, do Governo, da AR e das autarquias parecem desconhecer «quase» totalmente As realidades nacionais que condicionam as vidas dos cidadãos. Vivem e actuam como boias em águas pouco turbulentas sem preparação para prever e resolver acontecimentos preocupantes e sem capacidade tomar decisões correctas e sustentáveis, mostrando ignorar a metodologia para a preparação da decisão a que me referi em O DIABO de 27 de Setembro de 2016 http://domirante.blogspot.pt/2016/09/preparar-decisao.html

A formação que a maioria obteve está eivada da «experiência» de jotinhas como está descrito, desde há mais de cinco anos, em «Carreira política», http://domirante.blogspot.pt/2012/07/carreira-politica.html, e não lhes permite agir com racionalidade e pragmatismo, perante situações graves, limitando-se a ganhar tempo, a proferir afirmações inócuas e inconsequentes e esperar que a crise amaine.

Isto tem sido constatado, até pelos menos atentos, nos incêndios florestais, nos «furtos» de armamento, nas falhas inoportunas do SIRESP, etc. As pessoas nomeadas para funções que exigem adequada preparação, competência, sentido de responsabilidade e dedicação ao serviço público são, muitas vezes, resultado de amiguismo, cumplicidade e conivência nas «brincadeiras» partidárias, em vez de serem escolhidas por concurso público ou por cuidadosa escolha com fundamento em experiência e resultados de trabalhos realizados, comprovativo de competência no âmbito da função a desempenhar.

Os resultados de tal compadrio estão bem à vista. Não se cultiva o gosto pela excelência da forma de realizar as tarefas nem pela criação de uma imagem com boa qualificação em resultado do trabalho feito. Daí que seja frequente ouvir-se que os boys querem ir para tachos em que em que possam enriquecer muito, em curto prazo e por qualquer forma. Para isso, a sabujice ao chefe pode estar mais à mão do que a ostentação do seu bom serviço e a perfeição das tarefas realizadas.

Para concluir, duas reflexões acerca de notícias lidas no dia 19/7.

Os fogos florestais continuam, como as notícias têm mostrado, nos distritos de Viseu, Guarda, Vila Real... Não estão a ser aplicadas as lições que deviam ter sido aprendidas com o caso, tão badalado, de PEDRÓGÃO GRANDE. Que espécie de conteúdo têm no crânio os responsáveis pela protecção civil, pela Natureza do País, principalmente pela floresta e pela segurança das pessoas e dos seus haveres. Consta que já, há anos, fizeram lei para garantir a protecção da floresta contra incêndios. Que tipo de lei? Porque não a cumprem nem a fazem cumprir? Porque razão continuamos sem a Guarda Florestal e sem os cantoneiros?

A Liga de Bombeiros e Protecção Civil não se entendem, não querendo a primeira ser comandada pela segunda. Perante isto, o Governo deve averiguar os motivos das divergências, ouvindo as duas partes, analisando as suas estruturas organizativas, as regras de procedimentos e , principalmente, os critérios que levaram às nomeações dos respectivos quadros. Talvez tenha sido dada prioridade a boys sem experiência nem formação adequada aos objectivos de cada instituição, os quais não podem deixar de ser convergentes para os interesses dos cidadãos de Portugal.

António João Soares
25 de Julho de 2017

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