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sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Corrupção dos políticos não é notícia

Transcrevo o artigo seguinte, porque encerra uma lição de jornalismo básica, mas que é pouco praticada. Na nota final procuro dar uma explicação aos menos versados na teoria do jornalismo.
Eis o artigo:

"O homem que morde o cão"
JN. 091106. 00h00m. Manuel António Pina

Algo muito estranho se passava: há uma semana que jornais e TV falavam de mais uma investigação envolvendo a "Face Oculta" do regime e o bastonário dos advogados ainda não aparecera nos jornais.

Temia-se o pior. Estaria o bastonário doente? Não teria, pela primeira vez, nada de mediático a dizer sobre um assunto mediático? Perdera o gosto pelas primeiras páginas? Ou, mais grave, ter-se-ia tornado uma pessoa discreta ou até, valha-nos Deus, sensata? Fosse o que fosse, não resistiu mais que uma semana.

E, como ninguém lhe perguntava nada (noutros tempos já teria ido quatro ou cinco vezes à SIC acusar juízes e MP de qualquer coisa), decidiu meter-se a caminho e, já que Maomé não ia à montanha, ia ele a Maomé: que a opinião pública está a "fritar em lume brando" os suspeitos da operação "Face Oculta" e que a investigação "funciona para a comunicação social".

Numa coisa tem o bastonário razão, a comunicação social deveria ter ignorado o caso.
Notícia, nos tempos que correm, o "homem que morde o cão", seria empresários, gestores públicos, políticos e autarcas não serem suspeitos de corrupção.


NOTA: Como o autor refere, embora possa passar despercebido aos mais leigos, é que notícia é aquilo que tem por assunto casos excepcionais, raros e insólitos. Um cão morder um homem não é notícia, mas se for «o homem que morde o cão» já o é. Um homem a andar pelo passeio normalmente não é notícia mas se se deslocar em pino sê-lo-á e, poucos metros andados, aparecerão batalhões de repórteres com câmaras e microfones.

Por isso, fica justificada a frase final do texto, isto é, a corrupção generalizada nos políticos, activos ou na privada, deixou de ter direito ao título de notícia. Relativamente a corrupção e a políticos, NOTÍCIA é o que se passou com Rui Rio que mostrou determinação no combate e a tal praga como foi referido em Rui Rio político sério.

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domingo, 17 de maio de 2009

O jornalismo age como instrumento

O comum dos leitores não se apercebe dos fins pretendidos pelo jornalismo quando enfatiza um ou outro assunto, deixando de lado outros aparentemente mais relevantes para a vida do País, dos portugueses. O realce de uma notícia, uma alusão, uma citação, uma interrogação, uma suspeita, pode ser uma arma mortífera, ou pelo menos muito agressiva, embora, na aparência, pareça inocente. É a isso que o habilidoso jornalista aponta o dedo ao chamar a atenção para a forma como foram tratados três casos.

Sócrates, o primo e a Capadócia

DN. 090517. por Ferreira Fernandes

O melhor trabalho jornalístico português que vi nos últimos tempos, em todas as categorias, foi o do fotógrafo chinês Zhang Xiao Dong. Aconteceu ontem, no Expresso. A reportagem escrita esteve cargo de um bom repórter, Rui Gustavo, que foi à China encontrar o primo de Sócrates. O primo nada disse com interesse, porque o que teria interesse seria ele a comprometer o primo.
O que interessa - vou dar um exemplo para os leitores distraídos perceberem o que é hoje interesse jornalístico - seria Sócrates dizer no meio de uma viagem de Estado: "Vim à Capadócia porque era há muito um sonho da minha namorada vir à Capadócia." Como Sócrates não disse isso, esta frase não abriu telejornais. Talvez alguém tenha dito uma parecida, mas também não abriu telejornais, pois não? Sorte de quem tenha dito essa frase similar e possa - e ainda bem que pode - dizê-la sem escândalo.

Mas deixem-me voltar ao jornalismo de factos, à maneira de Zhang Xiao Dong. Segundo percebi, o repórter do Expresso foi para a China sem fotógrafo. Chegado ali, Rui Gustavo encontrou um, local, e pô-lo ao corrente: "Vou entrevistar um tipo português que está aqui a treinar kung fu. Ele é personagem de um escândalo de que todo o meu país fala." O fotógrafo chinês tranquilizou-o: "Compleendido." Não garanto que o diálogo tenha sido mesmo esse, nem tão-pouco a pronúncia. Mas o essencial passou-se assim.

Como o sei? É que eu também já fiz reportagens com bons repórteres fotográficos. E sei que estes trabalham da forma como Zhang Xiao Dong trabalhou. Sei como trabalhou Xiao, mesmo não estando lá, porque vi o resultado: as fotos. As fotos de ontem do Expresso são fruto de 10 por cento de talento e 90 de transpiração. A transpiração de um repórter fotográfico vem antes do clicar, vem do esforço para poder contar a história com fotos.

Um dia, na Angola que ainda se proclamava "trincheira firme do socialismo", eu e o meu camarada fotógrafo Joaquim Lobo descobrimos um rico (nesse tempo ele não era raro, era único). Eu fiz um longo texto sob longo título: "Ele é rico, quer ser mais e não tem vergonha." Mas tudo estava nas fotos do Joaquim Lobo: o milionário posando de pé sobre a cabina de um camião, com toda a frota por trás; o milionário, em casa, dedilhando teclas, com uma estatueta de Lenine em cima do piano... Parecia simples mas essas fotos foram arrancadas por horas de teimosia e persuasão.

Ontem, no Expresso - desde a capa, com a foto do primo de Sócrates, lutador de kung fu, em cima de pilares, à dele rezando no templo de Shaolin - vi esse humilde ofício de jornalismo, contando, não aldrabando. Leitor de jornais, senti-me lavado. Ah, se só se contassem histórias e o jornalismo não fosse instrumento de sei lá o quê...

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quarta-feira, 22 de abril de 2009

Valor da notícia

Numa aula de técnica de informação, o saudoso professor, pai do Professor Luís Campos e Cunha, dizia que o valor da notícia depende da sua raridade, excepcionalidade e exotismo. Um cão morde um homem não é notícia, mas um homem morde um cão já o é.

Por termos diferentes, Mário Crespo expressa conceito semelhante quando defende que é notícia aquilo que os interessados procuram ocultar e negam por todos os meios.

E, quando os lesados negam em voz alterosa e veemente, tornam mais inverosímil a credibilidade da notícia que querem fazer passar, dando mais realce ao que querem ocultar Esta acaba por ser logicamente proporcional ao calor com que é combatida.

A notícia «falsa» ou «intencional» não é anulada pelo bramar furioso dos lesados e que, por serem parte na causa, não inspiram confiança. É raro o arguido confessar o crime!, sendo de esperar que ou não responda ou minta. A boa solução para esclarecer e desmontar eventual «manobra» tem que assentar no esclarecimento cabal levado a cabo por entidade isenta, independente, sem sofrer pressões de qualquer espécie. E, para essa entidade devem ser carreados todos os dados existentes que possam contribuir para clarificar o assunto em causa, a não ser que se trate de contributos que possam ser marginais e de pouca importância para o fim em vista. Qualquer ocultação ou dialéctica desviante das atenções é negativa e gera ou aumenta suspeitas que podem ser de longa duração na memória das pessoas. E quanto maior é o esforço para ocultar a essência do caso, mais elevado é o estímulo para o jornalista valorizar os «indícios técnicos», coligi-los, compará-los até poder fazer uma súmula com lógica e verosimilhança para trazer a público uma grande «caxa».

Não é muito lógico acusar um jornalista de quebrar o sigilo, seja do que for, pois se um assunto é sigiloso, cabe aos funcionários que com ele lidam evitar que chegue ao conhecimento de pessoas não autorizadas.

O jornalista, perante uma resposta do tipo «sobre isso não falo porque que é matéria classificada, apenas tem que respeitar o silêncio do interlocutor e não insistir, embora fique a saber que existe «algo» que não lhe querem divulgar.

Portanto, o que é secreto não deve ser divulgado nem ao maior amigo, o que exige o maior rigor de quem trabalha com ele. O papel do jornalista não é guardar segredo, mas sim, informar os seus leitores sobre tudo o que sabe e as suas notícias têm mais valor se forem inesperadas, exóticas, invulgares, raras do género «o homem mordeu o cão».

Se um funcionário que é obrigado ao segredo, conta um facto sigiloso, a um jornalista não pode esperar deste maior discrição que a sua própria, visto este, por formação profissional, não estar sujeito a qualquer obrigação desse género nem foi ajuramentado para isso. É fácil, por isso, concluir que o sigilo constitui uma responsabilidade intransmissível dos funcionários que são obrigados a guardá-lo.

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