Reforma na disciplina militar atinge Eanes
Manuel Carlos Freire
Ex-presidente da República e Loureiro dos Santos visados.
A proposta de revisão do Regulamento de Disciplina Militar (RDM), feita pelo Ministério da Defesa, alarga aos militares reformados as restrições a que estão sujeitos os do activo.
O documento, a que o DN teve acesso, foi enviado pelo ministro Nuno Severiano Teixeira às chefias e associações de militares dias depois de noticiado que a Força Aérea instaurou um processo disciplinar a um militar reformado. A proposta clarifica expressamente o artigo 5.º do actual RDM, ao alargar aos militares na reserva (fora do serviço) e na reforma as restrições de direitos a que estão sujeitos os militares no activo.
Um dos 13 deveres da proposta de RDM a que esses militares fora do activo passam a estar vinculados é o "de lealdade", cujo cumprimento impõe "não manifestar de viva voz, por escrito ou por qualquer outro meio, ideias contrárias à Constituição ou ofensivas dos órgãos de soberania e respectivos titulares, das instituições militares e dos militares em geral ou, por qualquer modo, prejudiciais à boa execução do serviço ou à disciplina das Forças Armadas".
A vingar, a proposta de Nuno Severiano Teixeira vai abranger figuras como o general Ramalho Eanes - um ex-presidente da República e antigo chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas que participou num jantar público de protesto de ex-comandantes do Exército contra o então ministro da Defesa, Paulo Portas -, o general Loureiro dos Santos (ex-chefe do Estado-Maior do Exército que há anos comenta e critica as políticas do sector) ou o deputado socialista e membro da comissão parlamentar de Defesa Marques Júnior (onde questiona directamente o ministro da tutela ou os chefes militares).
"É um duplo disparate", declarou o general Loureiro dos Santos ao DN - "por uma razão essencial" e por "outra formal", explicou. Quanto a esta: o texto "é inconstitucional", pois o artigo 270 da Constituição (restrições ao exercício de direitos) só se aplica aos militares no activo. Esta leitura está sustentada em posições de constitucionalistas como Vital Moreira e Joaquim Gomes Canotilho, os quais sustentam que "estão abrangidos apenas os [militares] que se encontram em serviço efectivo, o que exclui todos os que estejam desligados do serviço por qualquer dos motivos legais (aposentação, reserva, disponibilidade, etc.)".
Quanto à "razão essencial", Loureiro dos Santos dá como exemplo o que sucede na generalidade dos países da NATO: "Quando os militares deixam a efectividade de serviço, servem como válvula de escape para transmitir à opinião pública e aos órgãos políticos as situações de tensão que existem nas Forças Armadas. Se não houver um sistema de escape dessas tensões, quando não há mecanismos exteriores de alerta, elas acumulam-se no interior da instituição militar ou entre esta e os responsáveis políticos. E às vezes rebentam."
Os Estados Unidos da América e a guerra no Iraque oferecem um exemplo actual: "houve generais que passaram à reserva para denunciar publicamente os erros estratégicos que estavam" a ser cometidos pela Administração Bush, afirmou Loureiro dos Santos. "É um erro gravíssimo colocar os militares fora da efectividade de serviço sob a alçada disciplinar", enfatizou o ex-chefe do Estado-Maior do Exército. Observou ainda ao DN, a propósito do que lhe poderá suceder no futuro: "Já não me preocupo muito com isso."
O presidente da comissão parlamentar de Defesa, Miranda Calha (PS), escusou-se a comentar um texto cuja versão final ainda não chegou à Assembleia da República. O deputado António Filipe (PCP) adoptou a mesma posição. Dos restantes deputados que o DN procurou ouvir, apenas João Rebelo (CDS) respondeu: "Se for verdade, há dois problemas: a oportunidade da medida [que coincide com o caso Luís Fraga] e a sua duvidosa constitucionalidade."
NOTA: Têm aparecido por aqui comentários a dizer que estamos em ditadura. Na minha ingenuidade, achava que eram insinuações exageradas, irónicas, maldizentes, uma brincadeira. Mas confesso que estava enganado pois, agora, veio este sinal inequívoco.
Tenho que dar razão ao amigo V.C. pelo que, cautelosamente, diz no comentário que enviou por e-mail.
«Os avanços a que assistimos destes «despudorados» pseudo-democratas no trilho do autoritarismo, do «eu quero, posso e mando», do desdém pelos cidadãos, mormente, pelos cidadãos militares a quem tudo devem e com quem só teriam (e terão) a aprender, constitui razão suficiente para preocupação de toda a nação. É inqualificável a intenção objectivada com a proposta em apreço (ou melhor desapreço). Não sei o que fazer !!!!!!! ou fazer-se !!!!!!»
Querem colocar uma mordaça aos militares reformados, de qualquer idade, mesmo que já nem se lembrem de segredos militares, talvez à imagem de regimes totalitários como o Zimbawe, a Birmânia, a Coreia do Norte, o Iraque de Saddam, a Indonésia de Shukarno… Serão esses os modelos dos nossos governantes, que querem passar por democratas?
Então, pergunto porque essas restrições de liberdades se aplicam apenas aos militares reformados? E porque não a todos os portugueses que cumpriram o serviço militar e que, em muitos casos, tiveram a cesso a matérias classificadas que estavam vedadas a muitos militares profissionais, do QP, por motivo de funções? Enfim, dessa forma, seriam amordaçados todos os portugueses excepto os que não «foram à tropa» por deficiência ou cunha, grupo em que se inserem os actuais políticos, alguns dos quais desertores e objectores de consciência.
Provavelmente, será mais um diploma legal desajustado da realidade para, quando não for ignorado, gerar situações insensatas, anedóticas e ridículas, como aquela que envolve o caso do Sr. coronel Luís Alves de Fraga (ver aqui e aqui). Deve ser a leis deste tipo que o Sr. Presidente da República se referia quando disse que as leis «nem sempre se distinguem pela qualidade (ver aqui), na sessão solene comemorativa do 25º aniversário doTC.
quinta-feira, 10 de abril de 2008
Militares amordaçados até à hora da morte
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A. João Soares
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Duas etapas sensíveis na vida
Neste texto, com links que ajudarão os interessados a aprofundar a análise, abordam-se dois aspectos de como se pode melhorar, nos diversos grupos etários, a qualidade de vida através do estudo e da acção.
Nas escolas há um mundo prático, para lá dos conhecimentos teóricos e científicos dos currículos, para o qual é conveniente alertar os alunos dando-lhes ferramentas e estímulos de curiosidade que os atraiam para o aprofundamento das questões. São indicados três artigos do JN que merecem uma leitura atenta. Depois, é referida a posição do PR quanto à valorização da velhice activa.
Um artigo do Jornal de Notícias, acerca da utilidade da matemática, refere que cerca de oito centenas de alunos do Ensino Secundário participaram, ontem, na iniciativa "Alunos em comunicação matemática" que decorreu na Universidade Lusíada de Famalicão com a finalidade de perceberem a utilidade da disciplina. Eduardo Cunha, um dos responsáveis da iniciativa explicou que "os alunos não sabem para que serve a Matemática e, muitas vezes, somos questionados por eles acerca disso. Há necessidade de os pôr a descobrir qual é a utilidade da Matemática".
Sobre um outro tema prático do ensino, o JN cita Ana Vilas-Boas, coordenadora do programa de educação para a saúde da Escola Secundária de Alvide, em Cascais" afirmou com clareza, que a escola deve informar e formar no sentido de fornecer aos jovens todas as ferramentas que lhes permitam saber fazer escolhas correctas. Só desta forma conseguiremos formar cidadãos conscientes e responsáveis"
Noutro artigo do JN António Rocha da Escola Secundária Inês de Castro, em Gaia disse que "obviamente que, a par da informação técnica, privilegiamos a formação referente à transmissão de valores e afectos, respeitando sempre as opções e a liberdade individual de cada um",
O Presidente da República (ver aqui), na sessão de abertura do Fórum Gulbenkian de Saúde dedicado à análise da evolução demográfica em Portugal e no mundo, defendeu que falta pôr em prática "soluções mais flexíveis de transição da vida activa para a velhice" e é preciso que o envelhecimento da população não seja visto como ameaça ou fardo para o bem-estar das novas gerações.
Os diversos agentes da sociedade e, em particular, as empresas devem favorecer práticas de envelhecimento activo através de "soluções que permitam uma combinação de trabalho, lazer e aprendizagem" aos cidadãos que estão a entrar na terceira idade. Não é correcta a perspectiva pela qual tem sido abordado o envelhecimento e centrada sobretudo nos custos que o fenómeno acarreta.
Para o PR está a haver "todos os anos" o desperdício de "um capital que poderia ser muito útil para as empresas, para os trabalhadores mais jovens, para as organizações da sociedade civil". Quanto às empresas, questiona-se " sobre se a obsessão àcerca do contínuo rejuvenescimento dos seus trabalhadores se traduz sempre num ganho efectivo de eficiência e se tal não poderá contribuir para um défice de identidade, de cultura organizacional e, mesmo de rentabilidade". Contrariou o que considera ideia feita, segundo a qual "cada cidadão reformado representa mais um posto de trabalho liberto para um jovem trabalhador". "Tal seria verdade" referiu, em sociedades pouco dinâmicas e com fraca mobilidade profissional, o que não se aplicará necessariamente às sociedades de hoje. Nas actuais sociedades, em que se diz valorizar o conhecimento e a experiência, é "paradoxal" que o conhecimento acumulado não seja aproveitado.
Sem o seu aproveitamento activo na sociedade, os idosos contribuem para aumentar a pressão sobre os sistemas de saúde, ao procurarem os profissionais "como um refúgio onde tentam encontrar um pouco mais de atenção e carinho" de que sentem carência.
Realmente, para um idoso, é importante receber carinho e ter o sentimento de utilidade. É-lhes devido carinho, a uns mais do que outros, mas o sentimento de utilidade, de que a sua vida tem interesse para a colectividade, é-lhes fundamental para suportarem o peso da idade com os inerentes achaques. Estas reflexões são, em grande parte, fruto de interessantes experiências no meio de alunos de três «universidades» para a terceira idade: UITI, Saudação e Academia de Seniores de Lisboa. Nelas, vários alunos procuram mais a convivência com outros do que a aquisição de conhecimentos, mas não são poucos os que com a experiência e os conhecimentos ali adquiridos preparam trabalhos de grande nível e com utilidade para a comunidade. Recordo um belo trabalho sobre a Rota da Seda elaborado por uma senhora modista de Almeirim que se deslocava a Lisboa para assistir às aulas e utilizava bem o computador.
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Optimismo será pura utopia?
Tenho procurado sobrevalorizar os aspectos positivos que poderão criar esperança em dias melhores para Portugal. Tenho considerado que erros e recuos podem não passar de acidentes de percurso e que serão remediados adequada e oportunamente.
Porém, hoje, a quantidade de notícias sobre as perspectivas de evolução da economia que a todos afectará, principalmente aos de mais fracos recursos, conduzem a um considerável grau de pessimismo e à desconfiança sobre as intenções dos governantes quando, por palavras e não por obras, nos procuram convencer que estamos num mar de rosas.
Eis alguns títulos cuja leitura é preocupante, mas esclarecedora da situação:
- Editorial do Diário de Notícias
- FMI enerva Governo ao prever economia mais fraca (DN)
- Nível de vida dos portugueses longe do europeu por mais um ano (JN)
- Pormenores (JN)
- Efeito da crise financeira mais profundo e prolongado do que o previsto (PÚBLICO)
- FMI prevê que crise mundial adie retoma portuguesa por pelo menos mais dois anos (PÚBLICO)
- Défice ameaçado? (PÚBLICO)
- Governo e oposição discutem credibilidade (PÚBLICO)
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quarta-feira, 9 de abril de 2008
Investigador português recebe prémio no Canadá
Na sequência de outros posts em que são referidos casos exemplares de compatriotas que são distinguidos no estrangeiro pelo valor demonstrado, deixo aqui o nome de José Carlos Teixeira, objecto do artigo transcrito do «Portugal Diário».
Professor foi galardoado com um dos mais prestigiados prémios
O professor e investigador português José Carlos Teixeira, radicado no Canadá, foi galardoado com um dos mais prestigiados prémios universitários daquele país, em reconhecimento da «excelência» do trabalho que tem desenvolvido na área da geografia social.
O «Prémio de Investigação da Universidade da Colúmbia-Britânica-Okanagan» será entregue numa cerimónia dia 12 deste mês, a ter lugar no pólo universitário de Kelowna, onde José Carlos Teixeira é professor associado.
Esta é uma das duas maiores distinções conferidas pela universidade, a par do prémio de docência.
Em declarações à Lusa, José Carlos Teixeira, que nasceu nos Açores há 49 anos, confessou ter ficado inicialmente surpreso ao saber do prémio.
«Devo este prémio à comunidade portuguesa no Canadá»
«É que geralmente dá-se este prémio a pessoas em final de carreira», desabafou, manifestando-se orgulhoso por tratar-se de um louvor ambicionado por muitos académicos, mas alcançado apenas por alguns.
«Devo este prémio à comunidade portuguesa aqui no Canadá, porque ela foi sempre o centro dos meus estudos, o meu laboratório principal», indicou o docente, que elaborou outras análises na área da geografia social sobre as comunidades polaca, jamaicana, moçambicana e angolana no país.
«Com este prémio gostaria de transmitir uma mensagem aos jovens portugueses e luso-descendentes: a de que é possível atingir-se um nível de excelência, mesmo sendo originário de regiões pequenas e mais pobres», salientou à Lusa.
Para o investigador, o prémio demonstra o mérito do impacto das pesquisas que fez, dentro e fora do meio académico.
As grandes temáticas focadas pela sua investigação são três:
- A estrutura e evolução das comunidades,
- a mobilidade para os subúrbios a partir das primeiras cidades onde as comunidades se instalaram e
- o papel do comércio étnico português.
Hoje-em-dia é já visível uma base de empresários, assim como de industriais, de origem portuguesa a terem êxito e a evidenciarem-se no Canadá, especificou acerca daquele último ponto.
Natural da freguesia da Ribeira Grande, em S. Miguel, Açores, José Carlos Teixeira viajou para o Canadá em 1978 para fazer um mestrado, findo o qual planeava regressar aos Açores.
Mas, acabou por emigrar em definitivo, constituiu família e concluiu um doutoramento em Toronto.
Iniciou a seguir uma carreira docente nas universidades de York, Toronto, Okanagan e Colúmbia Britânica, tendo ingressado nesta última em Julho de 2006.
O professor português do Departamento de Geografia da UBCO é autor de mais setenta publicações, de entre livros, monografias, dissertações, artigos, relatórios e pesquisas.
«Os Portugueses no Canadá», que será reeditado em breve pela Universidade de Toronto, e «Os Portugueses no Canadá: do mar para a cidade», em co-autoria como professor Victor da Rosa, são algumas das obras mais conhecidas.
José Carlos Teixeira assumiu recentemente funções de coordenação - «Priority Leader» - no projecto Metropolis, rede internacional de instituições de pesquisa e outras organizações, que procede a análises comparativas nas áreas da migração e integração de imigrantes, podendo servir para apoiar políticas imigratórias.
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Dia do Combatente - 2008
Discurso do General Vasco Rocha Vieira, no Mosteiro da Batalha
Vivemos tempos de crise.
São tempos em que se esquecem valores, em que se afirmam antagonismos sem sentido de comunidade, em que se foge para o individualismo como pretexto para não assumir a responsabilidade de defender a colectividade.
São tempos de máscaras e aparências, em que se esquece o valor do serviço e o respeito pela realidade.
São tempos sem glória.
São tempos em que as lamentações das vítimas esquecem os exemplos dos heróis.
São tempos que ignoram o passado da independência e anunciam um futuro sem liberdade.
São tempos de resignação e de fatalismo.
O que o presente nos mostra exige que se diga que não queremos ir por aí, que não vamos por aí.
Entre a ilusão que nos engana e a realidade que nos interpela e desafia, temos de saber escolher a verdade efectiva das coisas.
Temos de saber construir o futuro com a nossa vontade, enfrentando a verdade das coisas e das forças, vendo-as como elas são, e não como, por ingenuidade ou por desalento, gostaríamos que fossem.
Estes também são tempos para voltarmos aos valores essenciais, para defender a memória dos que construíram Portugal independente, para honrarmos a responsabilidade de deixar aos sucessores mais do que aquilo que herdamos dos que nos antecederam.
É por tudo isto que estes não podem continuar a ser tempos de resignação e de fatalismo.
Perante dois camaradas nossos, tombados em combate em terras da Europa e em terras de África, afirmamos e honramos aqueles que, sujeitos à condição militar, venceram a luta pelo prestígio pagando como preço a própria vida.
Todos os que tombaram em combate, todos os que perderam uma parte da sua vida em nome do dever militar, têm o direito à nossa homenagem.
É isso que distingue os homens livres dos escravos.
Pouco importa se venceram ou perderam a guerra em que morreram.
Quem combate, quando combate, não conhece o fim da História.
Não tem a distância do crítico, nem a serenidade do historiador.
É sujeito da condição militar, prossegue os desígnios da política pelos meios extremos da guerra.
Não teme a morte, porque sabe que só quem não tem medo da morte pode afirmar a vida, para ele e para os seus.
Quem combate não declarou a guerra.
Combate porque essa é a sua condição militar, combate para que a sua pátria não venha a ser terra de escravos.
Combate para que os que detêm a responsabilidade política conduzam os destinos do país até aos tempos de paz, de desenvolvimento e de cooperação.
Combate para que a guerra tenha um fim.
Faz a guerra com a finalidade na paz.
Mas não haverá paz, só haverá escravatura e dependência, se não assumir essa responsabilidade de fazer a guerra.
Foi esse o caminho que escolheu quando aceitou assumir a condição militar.
Todas as sociedades que se organizaram até atingirem a condição de serem independentes, de serem habitadas por homens livres e não por escravos, assentaram em três pilares, em três funções constituintes e integradoras, formadoras da sua identidade: o agricultor, o religioso, o guerreiro – o que trabalha a terra, o que trabalha as ideias, o que trabalha as armas e assume o combate.
A evolução das civilizações e das culturas foi alterando estas designações, mas não alterou os seus conteúdos e os seus valores, não alterou o papel integrador destas três funções.
A subsistência material da comunidade, a condução da evolução da sociedade dentro de uma visão do mundo e realizando o critério da justiça, a defesa dos valores e das liberdades de todos os que vivem nesse território, podem designar-se hoje como economia, como política e como defesa, mas estes três pilares continuam a ser os factores constituintes da independência e da liberdade.
Nenhum desses pilares existe sem os outros, todos são necessários para que a comunidade nacional produza riqueza, afirme a sua independência, garanta a sua liberdade, defenda os seus valores.
Os que esquecem esta interrelação, os que ignoram a necessidade dos três vectores, condenam-se a perder tudo: a autonomia económica, a independência política, a liberdade cívica, o sentido dos valores.
Condenam-se à pobreza, à subordinação, à escravatura, à perda do futuro.
Estes são riscos reais que se configuram nestes tempos de crise.
Ignorá-los, esquecer a exigência da mobilização para os enfrentar, seria um acto de traição.
Traição à Pátria, certamente.
Mas também traição a nós próprios, traição ao que nos foi deixado em herança, traição aos nossos valores de independência e de liberdade, traição ao nosso sentido de dignidade.
Perante dois portugueses sem nome, que morreram cumprindo a obrigação da sua condição de militar, devemos-lhes a determinação e a mobilização com que se poderá vencer estes riscos reais com que estamos confrontados.
Para que o seu sacrifício não tenha sido em vão, somos nós que temos de preservar os valores da condição militar, aceitando o combate quando isso é inevitável para não sermos condenados a um destino de escravos.
Escravos de outros poderes ou escravos das ilusões, escravos de ideologias ou escravos de fantasias, escravos de compradores ou escravos de credores, mas sempre sem liberdade, sem identidade e sem dignidade, sem voz e sem direitos.
Os combatentes que se reúnem aqui, hoje, vindos das mais diversas partes de Portugal, renovam o seu compromisso de honra para com a Pátria, prestando homenagem aos que morreram em seu nome para que haja liberdade e independência.
Os que aqui estão, combatentes do nosso tempo, ganharam o direito, pelo seu sacrifício e pela sua lealdade, a que lhes seja reconhecido o mérito, a coragem e a dedicação de quem soube assumir as suas responsabilidades.
Nos tempos de crise, como são os que vivemos, tudo parece complexo, intrincado, irresolúvel, irremediável.
Não é assim, não tem de ser assim.
E só será assim se nos faltar a vontade, se perdermos o sentido da dignidade, se abandonarmos o valor da liberdade.
As crises têm uma origem, têm uma trajectória, têm um diagnóstico, têm uma terapêutica, têm um tratamento.
É neste quadro que a condição militar, assumida no juramento que é feito por cada elemento das Forças Armadas, ganha um peso simbólico superior.
A função militar, a responsabilidade pela defesa, é apenas um dos alicerces em que assenta uma sociedade independente e livre.
Não se substitui aos outros alicerces, às outras funções, mas é sua obrigação contribuir para que as outras funções tenham todas as condições para se cumprirem.
Se cada um – produtor, político, soldado – for fiel às obrigações da sua função, se cada um aceitar todas as responsabilidades da sua condição, se cada um respeitar o juramento que faz perante todos os outros de que defenderá a independência e a liberdade, encontraremos as respostas para as dificuldades, seremos capazes de superar a crise.
Esse será o resultado do regular funcionamento das instituições democráticas, conjugando, com inteligência, com realismo e com determinação, o produtor, o político e o soldado – isto é, o crescimento económico, a orientação estratégica na resolução dos conflitos de interesses e a defesa da independência e da liberdade.
E é no estrito respeito pelas normas do regular funcionamento das instituições democráticas que os que são sujeitos da condição militar, por opção de vida e por fidelidade a um juramento de honra, têm legitimidade para esperar dos responsáveis políticos as condições necessárias para o efectivo cumprimento das missões que lhes são atribuídas.
As sociedades precisam da instituição que, na obediência da condição militar, tem por valor superior a sua defesa.
No quadro da sua estrita responsabilidade de defesa da independência e da liberdade nacionais, as Forças Armadas não escolhem as missões que lhes são atribuídas pelos responsáveis políticos.
É aos responsáveis políticos que pertence a responsabilidade de fazerem corresponder as missões que atribuem aos militares com os meios que põem a disposição dos que colocam em risco as vidas para as cumprirem.
A unidade das Forças Armadas, condição essencial para que cumpra a sua função de defesa da unidade nacional, não pode, em nenhuma circunstância, ser posta em causa ou em dúvida.
Mas a dignidade das Forças Armadas exige que ao seu quadro de missões corresponda o adequado sistema de meios.
Junto aos túmulos de dois soldados, renovamos o juramento que nos integrou na condição militar.
Como sempre, em tempos de estabilidade e em tempos de crise, a unidade das Forças Armadas é uma condição necessária para a defesa da independência, para a garantia da liberdade e para o regular funcionamento das instituições democráticas.
Outros contribuirão para que a esta condição necessária se juntem as condições suficientes para que os portugueses possam construir o seu futuro por afirmação da sua vontade e dos seus valores.
Viva Portugal.
General Rocha Vieira
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terça-feira, 8 de abril de 2008
Pontes sobre o Tejo
Circula um e-mail que mostra uma imagem em que se vê claramente o assoreamento ao longo da ponte Vasco da Gama.
Olhando para ele com serenidade, não é difícil pensar que dentro em pouco o rio será atravessado por uma barreira que reduzirá a capacidade de a água em quantidades semelhantes às de passado recente. O LNEC precisa de gente nova e meios para estudar este caso e outros semelhantes.
São sintetizadas as seguintes conclusões:
- o LNEC não previu este assoreamento da Vasco da Gama.
- o LNEC não previu que, como consequência, com um pouco mais de chuva, Sacavém fica submersa.
- o LNEC tem de ser deixado prever como é que o assoreamento da próxima ponte e tão perto da Vasco da Gama vai entupir o Tejo.
- o LNEC não teve tempo para estudar os efeitos de barreira que o assoreamento de duas pontes vai trazer ao caudal imenso do rio e das suas marés.
- o LNEC não pode ter tido a serenidade para estudar este factor que nos esta a comprar uma catastrofe.
- o LNEC não tem tido renovação de quadros
- o LNEC não teve tempo para estudar.
Dêm-lhe tempo, gente nova, meios novos e serenidade para estudar.
Não compremos uma desgraça a muito curto prazo com o assoreamento total do curso do Tejo
Pontos de vista:
Só?!
Fizeram a Vasco da Gama para ajudar a aliviar a circulação na ponte que já existia.
Qual foi o resultado?
Agora, com a mesma intenção – dizem –, querem fazer outra quase colada à segunda!
Qual será o resultado?
Poderá ser só corrupção ou não será também uma boa dose de estupidite? Parece que só à lambada seria possível sacudir-lhes a mioleira podre.
Se repararmos bem e não só na superfície, notaremos que salvo raras excepções o resto da população, empresas, etc., não vai melhor. Que teria provocado este atraso mental geral? Não será consequência de se terem estoirado os fundos europeus destinados a fazer progredir o país de todas as formas, o que mais do que certo teria obrigado as mentalidades a acompanhar. Obrigado, Cavaco & Cia.
De Leão Pelado
A primeira vez que passei a Vasco da Gama, ainda vivia em Espanha, pensei precisamente neste aspecto dada a pouca altura das aguas do rio...não tinha a noção. No entanto, não sendo especialista de pontes, era de prever que os pilares fossem pontos para retenção da muita matéria que as aguas transportam (lamas, terra, areis e matérias mais sólidas ) transformando-os em pequenas ilhotas ao redor e estas transformarem-se numa barreira. Acabando por entupir o livre curso das águas fazendo com que estas ultrapassem facilmente o normal curso do leito: seja pelas grandes chuvadas, em Portugal seja pelos degelos e chuvadas de Espanha. Penso no perigo para quem viva e tenha casas nessas zonas.
António Delgado
Estas achegas não se referem a queda da ponte.
Apenas demonstram, de forma muito racional, que a ponte Vaso da Gama está a produzir um assoreamento que constituirá uma barragem do Rio Tejo de que resultará, em caso de grandes caudais como os que ocorreram no fim da década de 70, inundações gravíssimas nas regiões marginais.
Já em tempos havia um plano para se abrir o canal da Marateca, que serviria para unir os baixos vales do Tejo e do Sado o que contribuiria para a Marinha poder sair para o mar em caso de bloqueio da foz do Tejo, ou obrigaria o inimigo a ter de bloquear as saídas dos dois rios Tejo e Sado..
Ora, se as duas pontes se associarem em criar dupla barragem à saídas das águia do Tejo, esse canal será aberto, pela força das águas, mas com prejuízo para as populações e as actividades económicas por não ter sido planeado e previsto.
Isto significa que, tanto a ponte Vasco da Gama como a Chelas-Barreiro, são aventura inconscientes sem um estudo completo e rigoroso dos efeitos posteriores sobre o ambiente, de que tanto se fala, mas a que é dada pouca importância.
Este é um tema importante a que vale a pena prestar atenção.
A. João Soares
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Somos bons na Informática?
Somos um povo triste, sem auto estima, sem um motivo de orgulho de ser portugueses. Agarramo-nos a indicadores pouco lisonjeiros e não encontramos soluções para os melhorar. Se perguntarmos a um indivíduo, com sentimento patriótico, responderá que tem vaidade de termos feito os descobrimentos. Mas isso passou-se há já cinco séculos! E de então para cá? Talvez nos refiram a Amália Rodrigues, o Eusébio, o Figo, o Cristiano Ronaldo ou o Mourinho. Tudo isso é muito curto para um País ocupar uma posição agradável na competitividade internacional.
Por isso, é conveniente aproveitarmos qualquer sinal de evolução e progresso para criar e desenvolver o amor próprio. Nesse sentido, tenho aqui referido casos simples, mas significativos de que temos gente com valor reconhecido pelo estrangeiro. Há que valorizar esses casos e apontá-los como exemplos a seguir por outros e começarmos a avançar pelo rumo certo do desenvolvimento científico e cultural, para a melhor gestão desta grande empresa chamada Portugal.
Hoje vou aqui citar o caso noticiado no Público de 7 de Abril, com o título «Sistema electrónico do hospital da Feira distinguido a nível mundial» da autoria de Sara Dias Oliveira.
Trata-se do reconhecimento obtido na maior feira mundial de informática para a saúde em Orlando, Estados Unidos da América, na última semana de Fevereiro.
O MedtrixEPR, processo clínico electrónico do Hospital de São Sebastião, de Santa Maria da Feira, foi distinguido como uma das três soluções mais inovadoras a nível mundial, na categoria de internamento, no âmbito dos registos clínicos.
Como é sublinhado por Rui Gomes, director do serviço de Sistemas de Informação do São Sebastião, é um processo focado no profissional de saúde e orientado para o doente. O técnico recorda que a Microsoft utilizou o hospital como case study nacional que extravasou fronteiras quando o director da Microsoft Healthcare Worldwide dos Estados Unidos veio ao São Sebastião. Este responsável ficou surpreendido, e escreveu-o num blogue, como uma equipa pequena e com poucos recursos tinha desenvolvido o MedtrixEPR.
Para conhecer pormenores desta inovação que coloca Portugal nas bocas do mundo evoluído, mais interessado em assuntos importantes muito acima de futebol e telenovelas, sugere-se a leitura do referido artigo.
Não quero deixar de referir também que me recordo de, há dias, ter lido algures que cientistas portugueses descobriram a explicação da morte de neurónios o que irá contribuir para compreender as causas das doenças degenerativas do tipo Alzeimer, o que será um passo importante para a sua prevenção, para o seu tratamento e possível cura.
Não faltam boas cabeças em Portugal. Falta apenas um poder político que as apoie e evite a sua fuga para o estrangeiro à procura de condições de trabalho adequadas, por não as encontrar aqui.
Outras leituras para melhorar a auto estima:
- Francisco Veloso recebe prémio internacional
- Altos e baixos no rectângulo
- Premio honroso para António Coutinho
- Cientistas portugueses em destaque internacional
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A. João Soares
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segunda-feira, 7 de abril de 2008
Indignação da professora Ana Maria Gomes
Sobre os Professores - a Miguel de Sousa Tavares
É do conhecimento público que o senhor Miguel de Sousa Tavares considerou 'os professores os inúteis mais bem pagos deste país.' Espantar-me-ia uma afirmação tão generalista e imoral, não conhecesse já outras afirmações que não diferem muito desta, quer na forma, quer na índole. Não lhe parece que há inúteis, que fazem coisas inúteis e escrevem coisas inúteis, que são pagos a peso de ouro? Não lhe parece que deveria ter dirigido as suas aberrações a gente que, neste deprimente país, tem mais do que uma sinecura e assim enche os bolsos? Não será esse o seu caso? O que escreveu é um atentado à cultura portuguesa, à educação e aos seus intervenientes, alunos e professores. Alunos e professores de ontem e de hoje, porque eu já fui aluna, logo de 'inúteis', como o senhor também terá sido. Ou pensa hoje de forma diferente para estar de acordo com o sistema?
O senhor tem filhos? – a minha ignorância a este respeito deve-se ao facto de não ser muito dada a ler revistas cor-de-rosa. Se os tem, e se estudam, teve, por acaso, a frontalidade de encarar os seus professores e dizer-lhes que 'são os inúteis mais bem pagos do país.'? Não me parece… Estudam os seus filhos em escolas públicas ou privadas? É que a coisa muda de figura! Há escolas privadas onde se pagam substancialmente as notas dos alunos, que os professores 'inúteis' são obrigados a atribuir. A alarvidade que escreveu, além de ser insultuosa, revela muita ignorância em relação à educação e ao ensino. E, quem é ignorante, não deve julgar sem conhecimento de causa. Sei que é escritor, porém nunca li qualquer livro seu, por isso não emito julgamentos sobre aquilo que desconheço. Entende ou quer que a professora explique de novo?
Sou professora de Português com imenso prazer. Oxalá nunca nenhuma das suas obras venha a integrar os programas da disciplina, pois acredito que nenhum dos 'inúteis' a que se referiu a leccionasse com prazer. Com prazer e paixão tenho leccionado, ao longo dos meus vinte e sete anos de serviço, a obra de sua mãe, Sophia de Mello Breyner Andersen, que reverencio. O senhor é a prova inequívoca que nem sempre uma sã e bela árvore dá são e belo fruto. Tenho dificuldade em interiorizar que tenha sido ela quem o ensinou a escrever. A sua ilustre mãe era uma humanista convicta. Que pena não ter interiorizado essa lição! A lição do humanismo que não julga sem provas! Já visitou, por acaso, alguma escola pública? Já se deu ao trabalho de ler, com atenção, o documento sobre a avaliação dos professores? Não, claro que não. É mais cómodo fazer afirmações bombásticas, que agitem, no mau sentido, a opinião pública, para assim se auto-publicitar.
Sei que, num jornal desportivo, escreve, de vez em quando, umas crónicas e que defende muito bem o seu clube. Alguma vez lhe ocorreu, quando o seu clube perde, com clubes da terceira divisão, escrever que 'os jogadores de futebol são os inúteis mais bem pagos do país.'? Alguma vez lhe ocorreu escrever que há dirigentes desportivos que 'são os inúteis' mais protegidos do país? Presumo que não, e não tenho qualquer dúvida de que deve entender mais de futebol do que de Educação. Alguma vez lhe ocorreu escrever que os advogados 'são os inúteis mais bem pagos do país'? Ou os políticos? Não, acredito que não, embora também não tenha dúvidas de que deve estar mais familiarizado com essas áreas. Não tenho nada contra os jogadores de futebol, nada contra os dirigentes desportivos, nada contra os advogados. Porque não são eles que me impedem de exercer, com dignidade, a minha profissão. Tenho sim contra os políticos arrogantes, prepotentes, desumanos e inúteis, que querem fazer da educação o caixote do( falso) sucesso para posterior envio para a Europa e para o mundo. Tenho contra pseudo-jornalistas, como o senhor, que são, juntamente com os políticos, 'os inúteis mais bem pagos do país', que se arvoram em salvadores da pátria, quando o que lhes interessa é o seu próprio umbigo.
Assim sendo, sr. Miguel de Sousa Tavares, informe-se, que a informaçãozinha é bem necessária antes de 'escrevinhar' alarvices sobre quem dá a este país, além de grandes lições nas aulas, a alunos que são a razão de ser do professor, lições de democracia ao país. Mas o senhor não entende! Para si, democracia deve ser estar do lado de quem convém.
Por isso, não posso deixar de lhe transmitir uma mensagem com que termina um texto da sua sábia mãe: 'Perdoai-lhes, Senhor porque eles sabem o que fazem.'
Ana Maria Gomes
Escola Secundária de Barcelos
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A. João Soares
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domingo, 6 de abril de 2008
O capital humano precisa de motivação
O empresário italiano Enzo Rossi ganhou as páginas de jornais europeus depois de fazer uma experiência curiosa.
Dono do pastifício La Campofilone, que factura 1,6 milhões de euros por ano, ele decidiu passar um mês inteiro com a quantia que paga aos seus operários. Foram 1.000 euros para si próprio e 1.000 euros para sua mulher, que também trabalha na empresa (no total, o equivalente a 5.400 reais). O dinheiro acabou em vinte dias. Rossi, então, deu um aumento a todos os funcionários do pastifício. Ele falou ao repórter Fábio Portela.
Porque o senhor decidiu viver um mês com o salário de um operário?
Achei que seria educativo para minhas filhas. Tenho duas meninas, de 14 e 15 anos, que, como todos os jovens, sempre pedem mais do que precisam. Queria que elas soubessem como é a vida das pessoas mais pobres. Achei que seria pedagógico para as meninas, aprender a controlar um pouco as despesas. Por isso, combinamos que viveríamos durante um mês com o salário dos operários do pastifício. Foram 1.000 para mim e 1.000 euros para minha mulher, que trabalha comigo na empresa.
Qual foi o resultado?
Tenho vergonha de confessar, mas a verdade é que não cheguei nem perto do fim do mês. Apesar de toda a economia que fizemos, o dinheiro acabou no dia 20. O meu, o da minha mulher, tudo. Faltavam dez dias para o mês terminar, e eu não tinha mais 1 euro no bolso. Encerrei a experiência e decidi dar um aumento de 200 euros aos meus funcionários. Percebi que, se o dinheiro acabava para mim, também não dava para eles. Como eles se viravam do dia 20 ao dia 30? Era impossível viver com o salário que eu pagava.
O senhor sugere que outros empresários sigam o exemplo?
Cada um tem a sua própria ética e deve fazer da sua vida o que achar melhor. Mas, seguramente, para mim valeu a pena reduzir um pouco a mais-valia e repartir os lucros com quem trabalha para mim. Gosto de ver os funcionários mais tranquilos e felizes.
Mais-valia? Por acaso o senhor é marxista?
De jeito nenhum. Sou apolítico. Aliás, a única categoria ideológica na qual me encaixo é a de egoísta. O fato de ter dado o aumento aos empregados é a prova cabal de que sou um grandessíssimo egoísta.
Qual é a relação entre uma coisa e outra?
Simples: se o salário é insuficiente, os funcionários vivem sob stress psicológico, porque não sabem se conseguirão chegar com dinheiro ao fim do mês. A mãe que precisa pagar a escola do filho, o rapaz que quer levar a namorada para comer uma pizza no fim de semana: se eles não têm dinheiro para isso, o que farão? Eles ficarão instáveis do ponto de vista emocional e, consequentemente, trabalharão mal. Quero que eles estejam bem para aumentar meus lucros. Por isso, posso dizer tranquilamente que sou um egoísta.
O stress diminui a qualidade da massa?
Fabrico um produto de altíssima qualidade e alto valor agregado, que é – não que eu queira fazer publicidade – o maccheroncino de Campofilone, um tipo de macarrão finíssimo, muito tradicional na Itália. Não é qualquer mão que é capaz de transformar a farinha de trigo e os ovos em uma massa tão delicada. Se o funcionário trabalha feliz, o meu maccheroncino sem dúvida fica melhor – e vende mais.
Mas, na ponta do lápis, o senhor já teve retorno financeiro?
Ainda não, mas isso não vai demorar a acontecer. Já no fim do ano, vou sair ganhando com o aumento que dei aos meus funcionários. Sabe porquê? Em nossa cidade, as festas de Natal e Ano Novo têm no seu cardápio tradicional os maccheroncini. Com a renda extra, os meus funcionários comprarão mais da massa que fabricam. As vendas vão disparar…
Publicado na revista “Veja”
Transcrito do blog A Casa da Mariazita
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A. João Soares
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Despedimentos colectivos
Embora procure não me prender com casos concretos e singulares e manter-me na área dos conceitos, ou melhor, distanciando-me na estratosfera para ver o mundo sem me deixar influenciar por politiquices, fui estimulado a fazer um comentário sobre o tema que agora serve de base para este post.
Os despedimentos nas empresas Delphi e Yazaqui Saltano, ambos noticiados em 5 de Abril, vierem relembrar outros casos semelhantes ocorridos com empresas multinacionais que se instalaram, em Portugal a troco de benefícios fiscais de que as empresas nacionais não podem usufruir. E, apesar desses benefícios, não hesitaram em encerrar, deixando centenas de desempregados com família.
Estes casos podem ser analisados segundo vários aspectos de que escolhemos os seguintes:
1. Na óptica das empresas nada há a dizer, porque são administradas para fazer face à economia livre em que impera a livre concorrência e o efeito da oferta e da procura. A sua finalidade é o lucro através da venda dos seus produtos e, por isso, reorganizam a produção, alteram a lista de produtos e a estratégia de gestão conforme as suas conveniências, para reduzir custos e ampliar os benefícios. É pena que não tenham mais consideração pela mão de obra e pela sociedade relacionada com a empresa, mas isso também se compreende nestes tempos em que se desprezam valores não traduzíveis em dinheiro.
2. Na óptica dos trabalhadores despedidos, é uma tragédia, principalmente quando a preparação técnica é de tal modo estreita que não lhes torna fácil a adaptação a outro tipo de trabalho, e tornando difícil a obtenção de outro emprego. Fica assim em causa a deficiente programação do ensino que não dá aos estudantes ferramentas válidas para enfrentar a vida prática, na luta com a concorrência, global. Há pouco tempo um gestor espanhol que instalou uma empresa de exploração de granito em Trás-os-Montes, ao ser interrogado sobre a quantidade de emprego que ia criar na região, respondeu que ia empregar cerca de duas centenas, mas que vinham todos de Espanha, porque embora tivesse mais custos, acabava por ser compensador devido à sua maior produtividade.
3. Do ponto de vista sindical, deve haver a preocupação de obter o máximo de indemnizações aos trabalhadores despedidos, e, principalmente, retirar conclusões que levem a incrementar uma formação profissional mais ampla que permita aos operários uma rápida e eficaz adaptação a novo emprego, a novas especialidades. Nos tempos actuais, parece errado, perante as circunstâncias vigentes, um trabalhador prever ficar toda a vida numa mesma empresa, sendo mais vantajoso ir saltando de uma para outra à procura de melhores remunerações e de novas experiências, aumentando a variedade das suas capacidades.
4. Do ponto de vista do Governo, há que rever o sistema de incentivos a empresas estrangeiras que acabam por nada perder com estas aventuras, pois a redução de impostos acaba por só lhes trazer benefícios sem obrigações. Essas empresas não vêm com compromissos de ficarem para sempre, mas apenas durante o tempo em que nisso tenham vantagens. Logo que as circunstâncias se modifiquem, não fazem a mínima cerimónia em se «deslocalizarem» para países onde os custos de produção sejam menores e obtenham outras vantagens no fabrico e na distribuição dos seus produtos.
5. Acerca dois efeitos da globalização, será conveniente convencer todas as pessoas de que têm necessidade de compreender quanto a globalização lhes pode ser prejudicial ou útil conforme ignorarem ou souberem como se defender e como aproveitar as oportunidades. Os tempos que correm exigem muita atenção às evoluções do mercado de trabalho e à frequente tomada de decisões, sem exageradas afeições aos patrões actuais. É conveniente ser eficaz e competente para contribuir para o êxito da empresa a que pertence, mas essas qualidades devem ser apreciadas e remuneradas justamente, o que pode ser mais compensador numa outra empresa concorrente, ou mesmo num ramo diferente.
6. Como pano de fundo de tudo isto, um ponto a considerar é a necessidade urgente de o ENSINO se tornar mais prático de forma a formar técnicos competentes para, em empresas especializadas, merecerem bons ordenados e se tornarem imprescindíveis. Seria um óptimo sinal que as empresas multinacionais, ao deslocalizarem-se, levassem alguns técnicos portugueses por terem óptima qualidade.
Há, sem dúvida, outros aspectos interessantes para a melhor compreensão do tema, para o que convido os visitantes a deixarem comentários que contribuam meditação mais profunda, que o assunto merece.
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A. João Soares
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