sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Filhos da Pátria

Transcrição seguida de NOTA:

Filharada portuguesa
Por Fernando Dacosta, publicado no Ionline em 16 Ago 2012 - 03:00

Há dias, um banqueiro tornou pública a soberba do ministro das Finanças ao adoptar o inglês como “língua de trabalho” no seu reino de secos e molhados. Esse banqueiro, Fernando Ulrich, abespinhou-se por Vítor Gaspar impor tal idioma aos que conferenciem com ele – isto é, portugueses a tratar, em território nacional (o Terreiro do Paço ainda o é), de assuntos portugueses.

Houve já, e por atitudes assim, quem entrasse de chamar “Nuno Álvares Pereira da Contabilidade” àquele (por iluminado) dirigente. Inapropriadamente, porém: a igreja do Condestável era a do catolicismo, a do ministro é a do cifrão; a bíblia de D. Nuno era a do Vaticano, a do dr. Gaspar é a de Bruxelas; a trindade venerada pelo santo era a celestial, a do contabilista é a troika.

Na sanha de aspergir a Pátria, o titular da sua pasta (pasta, massa, dinheiro) tomou como hissope uma calculadora que não regista valores de cultura, de história, de civilização de que a língua portuguesa é símbolo vivo. O menosprezo por ela fez-se-nos, aliás, uma constante: cantores cantam em inglês, romancistas romanceiam em francês, universidades cursam em americano, etc., num inqualificável atentado à nossa identidade.

A propósito de identidade, recordo amiúde o presidente Giscard da França que, ao visitar Portugal, nos deu uma bela bofetada de luva branca: quando, na conferência de imprensa de despedida, patuscos do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da imprensa lhe falaram em inglês, ele interrompeu, sarcástico, pedindo aos intérpretes o favor de traduzirem o que se dizia para português e francês, as línguas dos países ali afirmados – não a Grã-Bretanha.

Gaspar e afins jamais perceberão ninharias destas. Que bela filharada tens, Portugal!

NOTA: Abençoada Pátria que tem sobrevivido com tais Filhos De Portugal!!!

Ele parece agir em função das ordens de Bruxelas que interpreta conforme os manuais por que estudou em inglês, ficando à margem de Portugal que, para ele, não passa de uma virtualidade de frios números que não lhe conseguem dar ideia das realidades que afligem a maior parte dos portugueses, com o desemprego a crescer, a economia a estiolar, como se vê pelo número de empresas encerradas e pela redução do consumo de gasóleo, entre outros sinais.

Tem sido um esforço hercúleo e inútil procurar-se compreender qual o benefício que resultou para Portugal dos sacrifícios, sofrimentos e dores que têm sido infligidos à maior parte dos portugueses (exceptuam-se os que vivem à volta do Poder eleito e do Poder real (bancos, grandes empresários e grandes especuladores).

Quanto às dúvidas acerca do seu desempenho, não deve ter sido por acaso a notícia de 29-01-2012 Cavaquistas defendem saída de Vítor Gaspar do Governo.

Em 22-06-2012 outra notícia Vítor Gaspar admite que défice orçamental está em risco de derrapar demonstra que o sacrifício da maioria dos portugueses (os do costume), ao fim de um ano não tinha mostrado sinais de ter sido útil e eficaz. O agravamento de uma doença não é animador para quem deseja a sua cura.

O seu distanciamento em relação às realidades da vida dos portugueses ficou explícito na notícia de 22-04-2012 Vítor Gaspar preocupado com desemprego em que se mostrou surpreendido por o desemprego ter sido muito superior aquele que tinha previsto. E em 09-05-2012, sentiu necessidade de afirmar Vítor Gaspar: “Eu não minto, eu não engano, eu não ludibrio”, talvez por sentir que os cidadãos tinham dúvidas sobre as suas verdades.

Entretanto notícia de 14-08-2012 diz Taxa de desemprego com novo máximo de 15 no segundo trimestre e, a reforçar as provas da quebra da economia, a notícia Venda de gasóleo cai quase 10% no primeiro semestre de 2012,e a notícia de 08-04-2012, 17 falências por dia em Portugal.

Imagem de arquivo

4 comentários:

Mário Relvas disse...

Caro A. João Soares,

quer se queira quer não, o inglês é uma língua internacional que qualquer membro da troika fala e lê ao discutir assuntos nossos mas de nível internacional. O banqueiro referido, de vez em quando, manda umas bocas do género. Mas quando ele fala com os bancos internacionais fá-lo em português? É óbvio que não. Mandavam-no às urtigas a não ser que tenham algum português ou brasileiro em cargos de chefia. Portanto ainda bem que temos um ministro que domina bem o inglês para não ser levado e defender, assim, melhor o nosso interesse nacional!
Ter tradução directa implicava um gasto extra o que não é de sugerir neste momento. Será que Ulrich tem dificuldades no inglês?
Este é mais um descaso de quem nada disse de jeito... Felizmente nunca tive conta no BPI nem tenciono fazê-lo.

Indelizmente há casos mais sérios no panorama social português como é o caso da postagem que coloquei, há pouco, no blog e que o convido a ler e a comentar.

Cumprimentos

A. João Soares disse...

Caro Relvas,

Nada tenho contra ninguém, de acordo com a Bíblia (caso da mulher adúltera) e, como pode reparar nos 2607 posts aqui colocados, limito-me a referir casos e palavras tendo sempre em atenção os interesses nacionais.

Deste modo, o cerne deste post assenta na seguinte frase de Fernando Dacosta, que traduz um procedimento para o qual não encontro plena justificação, nem ela me é dada pelo seu comentário.

«impor tal idioma aos que conferenciem com ele – isto é, portugueses a tratar, em território nacional (o Terreiro do Paço ainda o é), de assuntos portugueses.»

Não se trata de poupar em intérprete!!! que, nesta caso, «creio» não ser necessário!!!

Não acha?

Cumprimentos
João

Mário Relvas disse...

Caro A. João Soares,

Não trago aqui nada da Bíblia. Mas tenho de interrogar; se estão estrangeiros na mesa de negociações fala-se em duas línguas? Acho falta de educação e de nível. Lembro-me dos nossos emigrantes a falar português e depois, entre eles -o que é falta de educação quando o fazem na presença de pessoas que não conhecem a língua estrangeira- falam uma coisa chamada françoguês. Mas...
Quem me dera que em Portugal se falasse português e se utilizasse muito pouco, o mínimo indespensável, de anglicismos.

A propósito Ulrich poderia começar por explicar de onde vem tal nome. português não é...

Refiro de novo que o governo, seja ele qual for, não pode temer banqueiros nem as suas afirmações. talvez eles estejam a perder algum protagonismo a nível nacional e internacional. E dinheiro...

Cumprimentos

A. João Soares disse...

Repito que o que me levou a fazer este post foi o facto de ser referido

«portugueses a tratar, em território nacional (o Terreiro do Paço ainda o é), de assuntos portugueses» terem de falar em idioma inglês.

Claro que, se houver estrangeiros, e se não for utilizado intérprete, terá de ser utilizada uma língua conhecida de todos.

Quanto à sua última frase, lamento com muita dor nos meus sentimentos nacionais que os governantes se submetam a bancos e grandes empresários, principalmente porque o fazem por interesses pessoais e dos seus cúmplices pois vêm nessas empresas o lugar para encaixar os filhos e familiares e, depois de passarem à «peluda» se encabidarem como administradores decorativos com salário correspondente à sua «cotação de mercado», segundo termos usados por Catroga.

Cumprimentos
João