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quinta-feira, 19 de abril de 2012

Causalidade e a Rã Surda

Transcrição de artigo do Público, seguida de NOTA:

  "Nos países desenvolvidos"
Publicado no Jornal de Notícias de 19-04-2012, às 00.00. Por Manuel António Pina

É conhecida a anedota da singular noção de causalidade daquele investigador que cortou as patas a uma rã e lhe disse: "Salta!"; e que, como a rã não saltasse, concluiu que, quando se cortam as patas às rãs, elas deixam de ouvir.

Ocorreu-me essa história ao saber do estudo que sustenta mais uma nova redução das indemnizações por despedimento que o ministro Álvaro (quem haveria de ser?) anunciou que levará à Concertação Social, estudo que conclui que... nos países desenvolvidos indemnizar trabalhadores despedidos não é obrigatório. Assim, acabam-se com as indemnizações por despedimento e, zás!, passamos a "país desenvolvido". E poder-se-ia ainda aumentar também os salários para os níveis praticados nos países desenvolvidos e então é que ficaríamos tão desenvolvidos, ou mais, que os países desenvolvidos. A ideia, no entanto, não ocorreu ao ministro Álvaro, como não lhe ocorreu a ideia de se demitir, pois nos países desenvolvidos ninguém salta da blogosfera para ministro...

A mesma provinciana lógica causal foi recentemente invocada pelo secretário de Estado da Saúde para justificar uma nova cruzada antitabagista: nos países desenvolvidos - mais um esforço, portugueses, se quereis ser nova-iorquinos! - é proibido fumar na rua, no automóvel, na própria casa de cada um.

E,  já agora, por que não restaurar também a pena de morte, seguindo esse exemplo extremo de país desenvolvido que são os Estados Unidos?  


NOTA: Infelizmente, a «pressa» dos governantes leva-os, frequentemente, a conclusões inconsistentes acerca da essência dos problemas esquecendo que «não se deve tomar a nuvem por Juno». As soluções eficazes não podem reduzir-se a colocar em peça velha remendos vistosos mas inadequados.

Sobre o mesmo ministro sugere-se a leitura do artigo de opinião de Fernando Santos com o título Álvaro e o canto de sereia (basta fazer clic). Tem estilo diferente e aborda aspectos de grande fantasia.

Imagem de arquivo

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domingo, 9 de dezembro de 2007

Problemas. Os sintomas e as causas

De médico e de louco todos temos um pouco. Atrevo-me, por isso, a utilizar uma analogia entre as relações internacionais e a medicina. Um médico não se limita a fazer desaparecer os sintomas, que são considerados como avisos, sinais de que algo está mal, mas analisa-os com a intenção de chegar às suas causas, que é a essência do problema ao qual é necessário aplicar a terapêutica mais adequada para ser eficaz. Mas esse é o método de trabalho de quem teve uma formação específica profunda e demorada e que nunca deixa de estudar a fim de se manter actualizado, a par das mais modernas inovações da ciência e da técnica.

Com os políticos não se passa o mesmo, dada a ausência de preparação para as funções e a sua conhecida aversão ao estudo sério e consequente, de onde resultam demasiadas hesitações e erros que provocam avanços e recuos, com variados e pesados custos para o erário, que podiam e deviam ser evitados.

Hoje os jornais trazem notícias do Darfur, do Iraque, do Afeganistão e do Kosovo. São pontos do globo com crises graves que estão a utilizar forças militares em grande quantidade e cuja pacificação fica para muito além do horizonte não se vislumbrando uma data final da normalização. A impreparação dos políticos e a sua miopia acentuada, tem resultado na aplicação da força armada para combater os sintomas, sem terem capacidade de análise serena das causas, isto é da essência do verdadeiro problema, daquilo que está em jogo. O efeito obtido traduz-se em indescritíveis destruições de património material, histórico, arqueológico que faz falta à cultura da humanidade e, o que é mais criminoso, a mortes de imensas pessoas inocentes e inutilização de muitas outras cuja vida passa a ser apenas sofrimento e revolta.

Em vez da confrontação armada, teria sido mais avisado sentar à mesma mesa representantes das partes em conflito e levá-las a analisarem calmamente os interesses em jogo com vista a chegarem a um acordo que fosse aceite por todos. Dessa forma, os representantes dos povos abrangidos pela crise, actuariam democraticamente, através dos seus delegados, para a construção do melhor futuro possível para todos. Mas, a «comunidade internacional» ignorando o espírito democrático, assalta o País e impõe, de cima para baixo, pela força das armas, a solução que nenhuma das partes quer. E passam-se anos de morte e sofrimento sem nada se obter de melhor para os povos.

Para ilustrar estas palavras basta observar o que se tem passado e continua a passar-se em cada uma das regiões atrás citadas, mas tem de ser uma observação o mais possível imparcial, sem preconceito, sem dar previamente razão aos «bons» ou aos «maus», sem chamar rebelde e terrorista a qualquer das partes. Quantos países se formaram à custa de muita luta em que foram apelidados de terroristas? E dos terroristas e rebeldes de hoje quantos virão a ver coroadas de êxito as suas lutas que só existiram por não ter havido uma negociação serena das suas pretensões? Quem melhor do que a população local pode gerir os interesses do Darfur, ou do Kosovo, ou do Afeganistão? Será mais democrático, e mais eficaz a imposição da «ordem» por militares estranhos à região?

Não me refiro a uma ajuda às forças locais para elas poderem manter a ordem pública, em benefício de toda a população e não de apenas uma das partes em conflito, mas tendo por base o resultado de negociações directas entre os interesses em luta. Essa ajuda, esse reforço das forças locais, numa acção humanitária conduzida localmente, sem impor os interesses estranhos, será conveniente.

Parece utopia? Parece irrealista? Mas as lições da vida mostram ser conveniente que os objectivos estejam um pouco acima daquilo que é vulgar e normal. Só assim se avança para a inovação e criatividade e se cria desenvolvimento.

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