Transcrição de notícia seguida de NOTA:
Presidente do Irão garante estar pronto para o diálogo
Expresso. 22:52 Terça feira, 6 de agosto de 2013 Liliana Coelho
Hassan Rouhani diz esperar um diálogo construtivo com os EUA sobre o programa nuclear.
O presidente do Irão, Hassan Rouhani, garantiu hoje que o país está disposto a iniciar conversações "sérias e substantivas" com o Ocidente sobre o programa nuclear.
"Como presidente do Irão, eu anuncio que a república islâmica está determinada a resolver este assunto e a pôr fim às preocupações do outro lado, desde que os direitos do povo iraniano sejam preservados", afirmou Hassan Rouhani, citado pela CNN, na primeira conferência de imprensa no palácio presidencial do Teerão.
"Estamos determinados e prontos para iniciar sérias e substantivas negociações com o outro lado, se estiverem preparados como nós. Estou confiante de que as preocupações de ambos os lados acabarão durante as negociações, num período não muito longo", acrescentou.
Segundo o governante iraniano, se os Estados Unidos demonstrarem "boa-vontade" e "respeito" pelo Irão estão criadas todas as condições para o diálogo. Hassan Rouhani defendeu, contudo, que as sanções internacionais são desnecessárias e contraproducentes.
"As sanções e as ameaças são sempre uma sombra sobre as negociações e nós poderíamos resolver as velhas queixas num ambiente de paz e calma", afirmou.
A eleição de Hassan Rouhani, um clérigo moderado, de 64 anos, veio reforçar a ideia de que o Irão parece querer finalmente resolver este impasse.
NOTA: Esta afirmação demonstra que não é utópico nem despropositado o tema desenvolvido em
NEGOCIAÇÃO E DIÁLOGO EM VEZ DE GUERRA e nos diversos posts nele linkados
O Irão pode iniciar uma era de recuperação da sua grandeza histórica da antiguidade, do Império Persa, de Ciro o Grande, no século VI aC.
Alguns eventos:
- Nabucodonosor II da Babilônia conquistou o Reino de Judá
- Os persas derrotaram os medos sob o comando de Ciro II
- Os persas conquistaram a Babilônia e libertaram os hebreus
- Os persas derrotaram os egípcios na Batalha de Pelusa
- Revolta depôs o último rei etrusco de Roma.
- Pérsia tomou controle da Fenícia.
- Abecásia é colonizada pelos gregos antigos.
- Surgimento da Filosofia Ociental.
Curiosamente, esta notícia vem num momento importante devido a posição parecida do Papa Francisco acerca da «revolução social global».
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sexta-feira, 9 de agosto de 2013
«IRÃO ESTÁ PRONTO PARA O DIÁLOGO»
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sábado, 5 de setembro de 2009
Nuclear. Insanidade globalizada
No dia 6 de Agosto de 1945, às 8horas e 16 minutos os E.U.A lançaram uma bomba atómica sobre Hiroxima. Três dias depois, dia 9, foi lançada outra bomba sobre Nagasaki. Os estragos foram de tal monta principalmente na quantidade de feridos e nos efeitos radioactivos que perduraram por muitos anos, que nunca mais foi utilizada tal arma em casos reais.
Durante o meio século seguinte, na Guerra Fria entre a NATO e o Pacto de Varsóvia, elas foram utilizadas como força de dissuasão e cumpriram esse papel, evitando a eclosão de conflito entre as duas potências militares.
Com os receios de disseminação de armas deste género, de efeito massivo, os Estados que as possuem e, por isso, mais conscientes do perigo de uma utilização, sob qualquer pretexto, têm procurado reduzir os seus arsenais e evitar a sua proliferação por pessoas menos escrupulosas.
Um disparo «acidental» pode ocasionar com a reacção subsequente, o desaparecimento da vida humana no Planeta. Mas como eliminar tais armas? Os mais poderosos não querem ficar à mercê de grupos ou Estados menos sensatos. E estes preferem que os seus habitantes morram de fome e com outras carências, do que lhes faltar dinheiro para criarem armas de alto grau de letalidade como se está a ver , pelas notícias frequentes que chegam da Coreia do Norte (aqui e aqui) e do Irão (aqui).
Mesmo entre o Paquistão e a Índia já tem havido sustos preocupantes quando movimental os mísseis durante asa crises da Caxemira.
Se as usam será uma tragédia, e se as não usam, para que gastam tantos recursos no seu fabrico?. É grande o risco de em momento de raiva perderem o controlo aconselhado pelo bom senso. Pior do que a pandemia da Gripe H1N1, é a insanidade global que afecta muitos líderes políticos de países, por todas as latitudes e longitudes.
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segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Irão – Uma história longa de final incerto
Bruno Cardoso Reis. IEEI (Transcrito da publicação online do Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais)
Perceber o Irão actual, implica perceber que este é o nome oficial da velha Pérsia – uma civilização milenar, com uma história imperial repleta, de que os iranianos muito se orgulham. Nessa história, no entanto, o século XIX e XX são marcados pela mancha da decadência e da dominação por potências externas, como a Grã-Bretanha e os EUA.
O actual regime iraniano – a República Islâmica – foi fundada há precisamente trinta anos atrás, em 1979, tendo como um dos principais pontos da sua agenda vingar e inverter essa humilhação. Do PREC no Irão saíram vitoriosos os radicais, os inimigos jurados dos EUA. As palavras de ordem preferidas dos milhões cujas manifestações cada vez maiores, apesar da repressão, acabaram por derrubar o xá Pahlavi, eram precisamente: «Mag-Bar Shah! Mag-Bar Amerika!» – ou seja – «Abaixo o xá! Abaixo a América!».
Mas estas não foram as primeiras manifestações da história do Irão. Em 1953, na crise que acabou com o derrube de Mossadegh, o primeiro-ministro nacionalista e populista que nacionalizou o petróleo iraniano, foi uma acção concertada da CIA e dos serviços secretos britânicos que levou ao desencadear de manifestações e de um golpe militar que acabou com a queda de Mossadegh. Esse facto continua a ser um marco fundamental da história do Irão. Mais, nos anos iniciais do regime islâmico, liderado por Khomeini, as relações com os EUA foram ainda azedadas, por culpa de excessos revolucionários iranianos, como a tomada como reféns de todo o pessoal da embaixada norte-americana em Teerão em 1979 – que acabou por contribuir para a derrota de Carter face a Reagan – ou o apoio a grupos terroristas hostis aos Ocidente. Mas também os EUA tiveram um papel nisso, ao apoiarem não só o Iraque de Saddam Hussein contra o Irão, na guerra iniciada pelo primeiro; mas também aparentemente apoiando grupos terroristas iranianos, como os Mujaheddin do Povo, que desencadearam uma campanha brutal no interior do Irão ou abatendo acidentalmente um avião de passageiros iraniano sobre o Golfo Pérsico. Que importância tem isso hoje? Muita. O Presidente Ahmadinejad fez parte da associação de estudantes que organizou a ocupação da Embaixada dos EUA. O Guia Supremo Ali Khamenei sobreviveu por pouco a um desses atentados terroristas nos anos 80.
Não é por acaso que a Grã-Bretanha é acusada de planear as actuais manifestações. É claro o desejo de evocar memórias de 1953. Mas talvez essa escolha de inimigos também traduza uma mudança. Há uma nova geração de iranianos a entrar na política e a eleição de Barack Obama parece ter tornado mais difícil vender no Irão a imagem dos EUA como o Grande Satã contra o qual o regime islâmico precisa estar em eterna vigilância.
Tal como na crise de 1953 e na de 1979, o que torna os acontecimentos actuais no Irão tão importantes é o facto de eles traduzirem não apenas uma batalha pelo controlo “da rua” em manifestações populares. Esta é também uma crise que atinge e divide as elites do regime. O Guia Supremo Khamenei parece alinhar com o Presidente Ahmadinejad, mas, aparentemente, o segundo homem mais poderoso do Irão, Hashemi Rafsanjani, que lidera o Conselho de Discernimento e o Conselho de Guardiões tende a alinhar com o candidato Mir Mousavi.
Claro que os dois grupos não têm o mesmo peso. Khamenei tem claramente mais trunfos na manga, em particular o controlo último das forças armadas e das forças de segurança. Mas uma ruptura total com a ala reformista do regime poderá ser complicada, quer em termos institucionais, pois há elementos reformistas em posições importantes, quer também pelo impacto negativo, tanto interna como externamente.
Papel decisivo no desenrolar da crise terá, evidentemente, a força armada, mas também o Conselho de Guardiões, que tem um papel fundamental em questões de legitimação política. É possível que Khamenei use a crise para eliminar complemente qualquer veleidade de independência face a si no interior do regime, afastando ou humilhando Rafsanjani – que foi violentamente atacado por Ahmadinejad – até como forma de preparar o terreno para que os conservadores controlem plenamente a sua sucessão. Mas pode também acontecer que um compromisso de algum tipo seja considerado necessário.
É importante, porém, sem ignorar a força do reformismo de Mousavi, por exemplo entre a juventude educada urbana, não esquecer que Ahmadinejad também tem importantes apoios populares. Há indícios de fraude – uma contagem invulgarmente rápida, e sobretudo resultados uniformes em todas as partes do país, uma uniformidade inédita não apenas no Irão, mas em qualquer parte do mundo. Mais, tal desmentiria a ideia de todos os analistas de uma profunda divisão entre voto urbano, mais reformista, e voto rural, mais conservador, bem como de importantes divisões regionais e até étnicas e religiosas no Irão – com árabes e sunitas no sul, por exemplo, e azeris no norte. Apesar disto, seria errado pensar que Ahmadinejad não tem apoio. Goste-se ou não do seu populismo nacionalista, ele tem muito poder de atracção num país com a história do Irão.
O Ocidente e a Crise
O Ocidente – e em particular os Estados Unidos – têm nesta crise um papel muito delicado, que exige escolhas difíceis. Mas se há algo claro nesta crise, é que ela será, no seu essencial, resolvida internamente.
Ficar relativamente à margem parece ser a opção de Obama. Tal poderá ser o mais sensato tendo em conta o que se passou em 1953 e 1979, e a marca negativa que esses acontecimentos deixaram no Irão. Apoios demasiado abertos do Ocidente à oposição reformista podem ser ter efeitos contraproducentes, tornando mais fácil reprimi-la como uma ameaça externa ao regime. Por outro lado, o Ocidente dificilmente poderá deixar cair correntes políticas com alguma simpatia pelo Ocidente, apostadas em reforçar a componente democrática no Irão, e publicamente comprometidas em melhorar as relações do país com o exterior.
O impacto da crise na questão nuclear é o ponto mais importante para os Estados Unidos, mas é também o mais difícil. Aqui, importa recordar que o Irão é um país orgulhoso, com uma história milenar que sente que o lugar que lhe é devido entre as grandes potências lhe tem sido negado. Ahmadinejad, num dos debates eleitorais, acusou Mir Mousavi de querer repetir a política pró-Ocidental do seu antecessor, o presidente Khatami, que estendeu a mão ao Ocidente, ajudou os EUA no Afeganistão e no Iraque, mas a resposta a esses gestos de reconciliação foi novamente a humilhação do Irão, com George W. Bush a incluí-lo na lista de Estados párias do chamado “Eixo do Mal”. Ahmadinejad apresenta-se como um nacionalista iraniano que não se deixa amedrontar pelos EUA ou por Israel. Por tudo isto, Mousavi, mesmo que alcançasse a presidência ou algum tipo de acordo, até por causa do Guia Supremo, dificilmente poderia defender uma política totalmente oposta à actual na questão nuclear, como aliás ficou claro na cautela das suas afirmações eleitorais.
A política cautelosa de Obama face ao Irão parece, portanto, ao contrário do que alguns críticos têm afirmado, especialmente apropriada para este momento difícil. É essencial, pública e privadamente, que Washington garanta à liderança iraniana que, ao contrário de 1953, os EUA não estão apostados numa mudança de regime. Mas ao mesmo tempo deverão insistir publicamente e nos bastidores que é essencial algum tipo de acordo entre os dois grupos que se digladiam no Irão. Dividir para reinar não seria talvez mal pensado do ponto de vista dos interesses dos EUA, mas nem por isso será fácil de obter.
Sobretudo, seria importante para Washington tentar aproveitar este momento de maior fragilidade na legitimação do regime islâmico para oferecer ao Guia Supremo Khamenei a possibilidade de pleno reconhecimento internacional, o termo completo das sanções, e investimento ocidental em troca de garantias quanto a um acordo com os reformadores, mas também de que o programa nuclear seria plenamente revelado e inspeccionado internacionalmente, e sobretudo de que acabaria o programa de enriquecimento de urânio.
Seria também importante Washington coordenar políticas com a UE, e, se possível, a China e a Rússia, assim como com outras potências regionais, para evitar suspeitas de que os reformistas são um cavalo de Tróia de norte-americano. O grande problema colocado pelo programa nuclear iraniano a todas as potências nucleares e aos Estados vizinhos é a possibilidade de uma corrida ao nuclear numa região como o Médio Oriente. Se este esforço de coordenação diplomática for feito pelos EUA, mesmo que venha a acontecer um trágico esmagamento dos reformadores nos Irão, Obama mais facilmente poderá obter apoio para sanções e outras medidas muito duras para impedir um Irão nuclear. Um regime iraniano radicalizado será mais fácil de isolar internacionalmente.
Para saber mais...
BBC – Iran Crisis
GR Afkhami, The Life and Times of the Shah (California UP, 2008)
Baqer Moin, Khomeini: The Life of the Ayatollah (IB Taurus, 1999)
Ray Takeyh, Hidden Iran: Paradox and Power in the Islamic Republic (Holt, 2007)
Stephen Kinzer, Os Homens do Xá: O Golpe no Irão e as Origens do Terrorismo no Médio Oriente (Tinta da China, 2007)
Ray Takeyh, Guardians of the Revolution: Iran and the World in the Age of the Ayatollahs (Oxford UP, 2009)
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sábado, 11 de julho de 2009
Obama e o Irão
Obama enfrenta um desaire iraniano
“Manifestamente, Londres está ansiosa por sair de cena o mais rapidamente possível, e espera que tudo possa voltar ao que era antes com o Irão. Obama tem pela frente um desafio muito mais complexo. Não pode imolar Brown e tem de se aproximar do Irão. O desafio que está diante de Obama não é apenas o regime iraniano não ter vergado, mas o facto de ele ter mostrado uma incrível resistência”.
M K Bhadrakumar* - 06.07.09
Agora, Twitter já pode voltar ao seu plano de suspensão dos seus serviços no Irão e entrar em manutenção. Twitter entra em recessão, satisfeito por ter, provavelmente, envergonhado uma potência regional ressurgente. O governo dos EUA deve um enorme favor a Twitter por ter feito algo onde, nas últimas três décadas, todos os seus restantes estratagemas de guerra e paz fracassaram.
No entanto, as histórias persas têm finais muito compridos. O regime iraniano apresenta todos os sinais de estar a cerrar fileiras e a organizar-se perante o que classificou como uma ameaça existencial ao sistema Vilayat-e faqih (governo do clero). Inclusivamente, se os EUA e a Grã-Bretanha quiserem desistir da sua desagradável altercação com Teerão, o que seria muito sensato e lógico, pode ser que este último não o consinta.
O Supremo Líder, o Ayatola Ali Kamenei, utilizou uma significativa expressão persa para caracterizar os funcionários europeus e estadunidenses, e sublinhou que o chão sobre o qual se pára «suja-se». Inevitavelmente deixou claro que Teerão não esquecerá facilmente as mentiras em catadupa que os EUA, e particularmente a Grã-Bretanha, lançaram nas últimas semanas para manchar o seu crescente prestígio regional. Numa advertência velada, Kamenei afirmou: «Alguns responsáveis europeus e estadunidenses, com as suas observações idiotas sobre o Irão, falam como se os seus próprios problemas (leia-se Iraque e Afeganistão) estivessem todos resolvidos e como se não houvesse outros assuntos para além do Irão».
O Irão teve uma história tortuosa, sobrecarregada com o que o presidente Barack Obama dos EUA lembrou no seu discurso do Cairo: «a tensão foi alimentada pelo colonialismo que negou direitos e oportunidades a muitos muçulmanos, e uma Guerra-Fria em que, amiúde, se utilizavam os países de maioria muçulmana como peões, sem ter em conta as suas próprias aspirações». Ao longo das últimas três décadas, a «linha vermelha» para Teerão foi sempre uma tentativa estrangeira de impor uma mudança de regime. Essa linha foi agora violada.
O establishment iraniano da segurança começou a aprofundar cada vez mais o que na realidade sucedeu.
Gholam Hussein Mohseni Ejehei, o poderoso ministro da inteligência, afirmou que, com base nos dados existentes, houve uma tentativa concertada de incitar os distúrbios por parte de potências mundiais, «incomodadas por um Irão estável e seguro», e conspirações para assassinar dirigentes iranianos.
As afirmações não corroboradas não colhem. Mas nos próximos dias e semanas irão surgir perguntas pouco confortáveis. Há dúvidas sobre a misteriosa morte de Neda Aqa-Soltan. Novamente, nos mortos incluíam-se oito bem treinados milicianos Basiji. Quem os matou? E certamente, quem dirigiu a carga da brigada ligeira?
É uma parte pouco conhecida da história na contagem regressiva até ao golpe anglo-estadunidense em Teerão, em 1953, contra Mohamed Mossadegue, que foi a Agência Central de Inteligência (CIA) quem perdeu o valor do que é justo quando estavam a ser montadas protestos de rua em Teerão – misteriosamente semelhantes aos recentes distúrbios – e foi o posto avançado da inteligência britânica em Chipre, quem coordenou toda a operação, manteve-se firmemente, forçou o ritmo e terminou por criar um facto consumado para Washington.
Em todo o caso, Teerão não larga a Grã-Bretanha – «a mais traiçoeira das potências estrangeiras», para usar as palavras de Kamenei. Dois diplomatas acreditados em Teerão foram expulsos, e quatro empregados iranianos da embaixada britânica continuam detidos para interrogatórios. Tudo isto, apesar das enérgicas declarações de Londres que não intensificou nada nas ruas de Teerão. Uma declaração do Foreign Office em Londres alegou que o que incentiva o primeiro-ministro Gorden Brown é programa nuclear do Irão, e não a sua indignação pelos direitos cívicos ou a morte de inocentes.
Manifestamente, Londres está ansiosa por sair de cena o mais rapidamente possível, e espera que tudo possa voltar ao que era antes com o Irão. Obama tem pela frente um desafio muito mais complexo. Não pode imolar Brown e tem de se aproximar do Irão. O desafio que está diante de Obama não é apenas o regime iraniano não ter vergado, mas o facto de ele ter mostrado uma incrível resistência.
O regime cerra fileiras
Corria o boato que o desconcertante silêncio do ex-presidente Akbar Hashemi Ransajani se devia ao facto de ele estar a conspirar na cidade sagrada de Qom e a questionar o mandato de Kamenei. Não é verdade. Domingo, Rafsanjani tornou pública uma declaração de apoio a Kamenei, ond se nota a inconfundível forma de entendimento:
«Os acontecimentos que ocorreram depois da eleição presidencial foram uma complexa conspiração tramada por elementos suspeitos, com o objectivo de criar uma ruptura entre o povo e os establishment islâmico e levá-lo a perder a sua confiança no sistema [Vilayat-e faqih]. Tais confabulações foram sempre neutralizadas quando o povo vigilante entrou em cena», disse Rafsanjani.
Elogiou Kamenei por alargar a acção do Conselho de Guardiães ao ampliar o prazo durante cinco dias para estudar os temas relacionados com a eleição e eliminar ambiguidades: «Esta valiosa acção do líder para restaurar a confiança das pessoas no processo eleitoral foi real», sublinhou Rafsanjani. Numa reunião aparte, na passada quinta-feira, com uma delegação de membros do Majlis (Parlamento), Rafsanjani disse que o seu afecto a Kamenei é «infinito», que goza de uma estreita ligação com o Supremo Líder e que cumpre plenamente com o Velayat-e faqih.
Sábado, o Conselho de Conveniência, dirigido por Rafsanjani, apelou aos candidatos derrotados a que «respeitassem a lei e que resolvessem os conflitos e as disputas através dos canais legais». Entretanto, quer Moshen Rezai, candidato da oposição e ex-chefe do Corpo de Guardas da Revolucionários Iranianos, quer o ex-presidente do Majlis, Nateq Nouri, o principal pilar da política iraniana, também se reconciliaram.
A realidade é que Mir Hussein Mousavi está isolado. Fazendo orelhas moucas aos reparos de Mousavi, o Conselho de Guardiães ordenou uma recontagem parcial de 10% das urnas de voto, escolhidas aleatoriamente em todo o país, perante as câmaras da televisão estatal. A recontagem confirmou, segunda-feira à tarde, o resultado de 12 de Junho e informou o Ministério do Interior que «o Conselho de Guardiães, depois de examinar os problemas, rejeita todas as queixas recebidas, e aprova a correcção da 10ª eleição presidencial».
A recontagem de 2ª feira mostrou um ligeiro aumento dos votos do presidente Ahmadinejad na província de Kerman. A Mousavi, agora, resta-lhe a pouco segura opção de recorrer à «desobediência civil», mas não o fará – para consternação de comentaristas ocidentais a quem, ao que parece, ele impressionou como o «Gandhi do Irão».
Se o vaticínio era que o presidente do Majlis, Ali Larijani, parecia prometedor como potencial líder dissidente, também prognóstico foi desacreditado. Segunda-feira, quando se dirigia à reunião do comité executivo da Organização da Conferência Islâmica, em Argel, Larijani atacou a política dos EUA por «interferir» nos assuntos internos dos países do Médio Oriente. Aconselhou Obama a abandonar esta política: «essa mudança será benéfica tanto para a região como para os próprios Estados Unidos».
O governo de Obama tem de tomar algumas decisões difíceis. Obama foi obrigado a endurecer a sua posição pelas críticas permanentes e pela pressão montada por redes anti-iranianas e poderosos lobbys ocultos no Congresso dos EUA e na classe política – aparte os círculos do establishment da segurança, que tem contas velhas a saldar com o Teerão mas têm um abominável historial de erradas interpretação das vicissitudes da política iraniana.
A mudança dessa posição monolítica será um processo difícil e politicamente embaraçoso. Ela requer uma enorme habilidade como estadista. O melhor resultado será Washington fazer uma pausa e renovar os seus esforços de aproximação ao Irão, depois de um intervalo decente.
Parece pouco provável que nas próximas semanas tenha lugar um diálogo significativo. Entretanto, mesquinhices como a recusa de visto para a visita a Nova Iorque do vice-presidente iraniano Parviz Davoudi a fim de participar na Conferência das Nações Unidas sobre a crise económica mundial não ajudam até porque Davoudi é um defensor de perspectivas económicas liberais. Também não ajudará a provável decisão dos EUA de continuar pelo caminho das sanções contra o Irão na próxima reunião do G8, em Trieste, Itália, de 8 a 10 de Julho. Em Maio, o Irão ultrapassou a Arábia Saudita como maior exportador de petróleo do Golfo Pérsico.
Em suma, o governo de Obama andou às cegas, depois de um magnífico começo ao encarar frontalmente a situação das relações com o Irão. Como argumenta o conhecido político e comentarista Leslie H Gelb no seu novo livro: «Power Rules: How Common Sense Can RescueAmerican Foreign Policy», Obama tinha uma opção: «utilizar o modelo líbio, através do qual Washington e Tripoli puseram as cartas na mesa e trocaram-nas de forma muito satisfatória».
O Irão fará represálias
O ambiente regional também só pode dar vantagens ao Irão. O Iraque continua num equilíbrio perigoso. O destino dos EUA no Afeganistão vai de uma provável derrota a como evitar uma derrota. A Turquia distanciou-se da posição europeia sobre os recentes acontecimentos no Irão. O Azerbeijão, o Turquemenistão, o Afeganistão e o Paquistão saudaram a vitória de Ahmadinejad. Moscovo acabou por concluir que o regime não estava ameaçado.
A China emerge como «ganhador» absoluto ao avaliar correctamente, desde o primeiro dia, as correntes subjacentes da política revolucionária do Irão. Pequim nunca antes tinha expressado tão abertamente uma inquebrantável solidariedade com o regime iraniano, rejeitando as pressões ocidentais. Nem a Síria, nem o Hezbollah no Líbano e o Hamas em Gaza mostraram qualquer inclinação para se afastarem do Irão.
É verdade que os vínculos da Síria com a Arábia Saudita melhoraram nos últimos seis meses e Damasco saúda as recentes tentativas de aproximação do governo de Obama. Mas longe de adoptar a agenda saudita ou estadunidense para com Teerão, o ministro dos Estrangeiros sírio, Walid al-Moallem, questionou a legitimidade dos protestos de rua em Teerão.
E advertiu quando as ruas de Teerão presenciavam os distúrbios: «Quem apostar na queda do regime iraniano será um perdedor. A revolução islâmica [de 1979] é uma realidade profundamente arreigada no Irão», e a comunidade internacional [leia-se EUA] deve conviver com essa realidade. Do mesmo modo, o êxito de Saad Hariri como recém primeiro-ministro do Líbano – e a estabilidade geral do país – dependerá da sua reconciliação com os rivais aliados da Síria e do Irão.
Tendo em conta todas as circunstâncias, houve uma crise política em Washington. O paradoxo é que o governo de Obama negociará agora com um Kamenei que está no auge do seu poder político das suas duas décadas como supremo líder. Quanto a Ahmadinejad, agora negociará a partir de uma posição de força sem precedentes.
Ahmadinejad não deixou quase nada em aberto para outras interpretações quando declarou em Teerão no sábado: «indubitavelmente, o novo governo do Irão terá uma atitude mais decisiva e firme para com o Ocidente. Desta vez a resposta iraniana será mais dura e mais decisiva» e levará a que o Ocidente lamente a sua «atitude intrometida». Não restam quaisquer dúvidas que Teerão não responderá através do Twitter.
* M K Bhadrakumar foi diplomata de carreira da União Indiana, tendo prestado serviço, entre outros países, na ex-URSS, Alemanha, Paquistão e Turquia.
Este texto foi publicado em www.atimes/Middle_East/KG01Ak03.html em 30 de Junho de 2009.
Tradução de José Paulo Gascão
NOTA: As origens do actual Irão estão no antigo Império Persa, fundado em 539 a.C. por Ciro, O Grande. A invasão árabe, em 635 da nossa era, trouxe consigo a conversão dos seus habitantes ao islamismo. Depois da invasão turca no século XI e dos mongóis no século XIII, recuperou a independência, passou por várias dinastias e no século XIX foi cenário de dis+puta entre o Reino Unido e a Rússia que, em 1906, dividiram o território em áreas de influência, cabendo aos ingleses explorar o petróleo, s~descoberto em 1908. Em 1921 o general Reza Khan derrubou o í~´ultimo sultão Kajar coroando-se Xá em 1926, com o nome de Reza Shah Pahlev. Em 1935, um decreto real mudou o nome do país para Irão. Em Janeiro de 1979 o Xá Mohamed Reza Pahlevi abandonou o país que entrou na procura de novo rumo sob grande influência dos Ayatollas que exercem um forte poder religioso.
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