Foi agradável ouvir as palavras proferidas pelo Presidente da República na AR, durante a 34ª Sessão Comemorativa do 25 de Abril. Muito aqui tem sido escrito no mesmo tom. Mas este discurso tem para o povo a vantagem de este ver que os mais altos responsáveis conhecem as realidades do País.
Porém, esse conhecimento dá aos senhores do Poder mais responsabilidade pela resolução dos problemas, porque deixam de ter a desculpa de nada saberem! Um dos males de Marcelo Caetano foi, nas primeiras «conversas em família» em finais da década de 1960 ter mostrado que estava ciente das dificuldades dos portugueses e, depois, não os ter resolvido e, passado um ano, voltar a referi-los.
Quem tiver lido com alguma atenção este blog, nos posts e nos comentários, terá encontrado variados pontos de reflexão sobre as causas do desinteresse dos jovens pela política e algumas pistas para inverter essa tendência.
Hoje, que muito se fala em cidadania activa, são colocadas mordaças a todos os que levantem a voz para dizer «o rei vai nu»: Na DREN foi o caso do professor Charrua e recentemente os jornalistas que fizeram eco da notícia do caso do telemóvel na Escola Carolina Michaelis, no Distrito de Viana do Castelo foi a substituição da directora do Centro de Saúde de Ponte de Lima, houve o caso do bloguista António Caldeira, e agora o do Ten Cor Luís Alves de Fraga.
Mas, felizmente, apesar da má qualidade do ensino, de que tanto se fala, há vários jovens, nas Escolas Secundárias e Universidades que deixam muito bem colocado o nome de Portugal no estrangeiro, com prémios recebidos pelo seu saber, por artigos científicos publicados em revistas muito conceituadas, por descobertas científicas e competições de competência. Há também exemplos de inovações nas tecnologias de base científica e em indústrias de ponta que muito honram o País.
Mas, sintomaticamente, não consta que qualquer desses jovens que se distinguem pela sua inteligência, capacidade de estudo e competência pertença a políticos ou seja militante de qualquer partido. No outro extremo, verifica-se que entre os assessores, deputados, governantes e autarcas, aparecem apenas, salvo eventuais raras excepções, parentes e amigos de políticos influentes, nomeados por «critérios de confiança política» e não por concurso público que privilegie a inteligência, a competência a capacidade de estudo honesto e isento.
Este estado de coisas leva o jovem que não tem «padrinhos» nas cadeiras do poder a não ter qualquer interesse na política e a desprezar os companheiros de escola que sendo protegidos dos clãs de S. Bento, não precisam de se dedicar aos estudos, porque têm pela frente, garantido, um futuro opulento, sem trabalho e sem necessidade de competência. A maioria dos jovens que não têm tal garantia precisam de se dedicar responsavelmente ao estudo e é de entre eles que saem os premiados internacionalmente, os cientistas que dão lá fora boa imagem ao País.
Infelizmente, a maior parte desses jovens geniais acabam por trabalhar toda a vida, ou grande parte dela, no estrangeiro onde encontram melhores condições para desenvolver as suas investigações. Se se mantivessem cá, seriam objecto de invejas e perseguições e limitações de vária ordem, segundo o arreigado princípio de nivelar por baixo, da mediocridade, dificultando a vida aos que sobressaem pelo seu valor.
Das conversas informais nos locais onde a pessoas param, compreende-se que jovens e adultos pouco se interessem pelas tricas políticas, pois ouve-se com frequência que «eles são todos iguais, e votar é escolher do mesmo». Aparece quem se incline para a abstenção e quem, com presunção de mais esclarecido, diga que todos devem ir às urnas para que os políticos não digam que o povo está indiferente à política, mas devem entregar o boletim em branco, porque sendo branco é válido e faz com que o vencedor, receba uma pequena percentagem dos votos válidos e não tenha base para a arrogância de dizer que foi escolhido pela maioria do povo, pois apenas recebeu o voto expresso de uma ninharia de compadres do seu clã.
Concluindo, o Professor Cavaco Silva tem razão para estar preocupado, mas o primeiro passo para atalhar a tal epidemia será passar já a proceder à nomeação por concurso público honesto e acabar com as nomeações políticas por critérios subjectivos e inconfessáveis. Se, depois, um assessor admitido por concurso, for desleal sobrepondo à racionalidade e independência, as suas tendências partidárias e deixar de cumprir com rigor as suas tarefas, será demitido, nos termos do contrato de admissão.
Então, ficando os «tachos» da política abertos a todos os jovens, aumentará o apetite destes pelos altos cargos da Função Pública e da Governação, passando estes a ser colocados como hipóteses de futuro para os jovens portugueses mais válidos. E convém não esquecer que o combate à corrupção é indispensável para que se não ouça «ninguém honesto quer ir para a política para não ver o seu nome misturado com o de muitos que por lá vegetam». Talvez sejam exageros, mas valerá a pena meditar no problema e nos factores que o enformam.
Notícias acerca do discurso:
- Discurso do PR no 34.º Aniv do 25 de Abril
- Clique aqui para ouvir
- estudo sobre as atitudes e comportamentos políticos dos jovens em Portugal
- Cavaco impressionado com ignorância política dos jovens
- Cavaco e os jovens
- Jovens preocupam presidente
- A revolta silenciosa dos jovens cidadãos
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sábado, 26 de abril de 2008
Cavaco, Jovens e a democracia
Posted by
A. João Soares
at
17:53
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Labels: democracia inacabada, jovens e a política
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