Coreia do Norte com vaidade e arrogância
(Public em O DIABO nº 2257 de 03-04-2020, pág 16)
A loucura da guerra e a vaidade de ter armas de grande poder destruidor são defeitos comuns a grandes potências que sonham com o domínio do Mundo, o que suscita comentários demolidores dos pensadores mais serenos. Mas, infelizmente, há países de reduzida dimensão que não resistem à tentação de mostrar a pior das vaidades e esquecem o bem-estar e a segurança do seu povo, para desbaratarem o pouco produto do trabalho dos cidadãos no fabrico de armas vistosas de que não obtêm resultados correspondentes ao custo.
O caso mais recentemente noticiado é o do lançamento pela Coreia do Norte de dois mísseis de curto alcance na manhã de dia 21 de Março que percorreram 410 quilómetros antes de caírem no mar do Japão. Segundo a Coreia do Sul e os seus militares do Serviço de Informações que estão em permanente observação das actividades do seu vizinho do Norte, este foi o terceiro lançamento neste mês de Março.
O governo norte-coreano, com vaidade e arrogância, justificou a produção de armas nucleares como uma resposta necessária contra a política externa agressiva dos Estados Unidos em oposição à Coreia do Norte. Mas não analisa correctamente tal posição que é absurda porque, numa guerra propriamente dita com os EUA, a Coreia do Norte ficaria reduzida a pó. Mesmo que os EUA não praticassem tal destruição, a Coreia, depois dos custos que já está a ter e dos danos que teria durante o conflito, mesmo que ligeiro e rápido, não obteria a mínima vantagem nesta arrogância. E, provavelmente, não encontraria qualquer potência que, para apoiar tal loucura, se levantasse contra a grande potência americana.
Na actual situação da pandemia do Covid-19, surgida na China e já espalhada por grande parte do globo em que as pessoas estão em quarentena, a fim de evitar as piores consequências, esta acção de preparação bélica constitui um “acto altamente inapropriado”, não só pela pandemia surgida no país seu vizinho e que, certamente, está a afligir o seu povo mas também por a sua população viver com dificuldades e ver o fruto do seu trabalho desperdiçado em fantasias de grandeza desnecessárias e completamente inúteis.
No início de 2019, houve uma cimeira com Trump em Hanói a fim de a Coreia do Norte parar com experiências nucleares, mas não houve cedências à América e esta recusou levantar as sanções económicas. Porém, Kim Jong-un, apesar das suas dificuldades económicas, quer ter o país preparado para combater qualquer guerra provocada pelos EUA e disse que “as suas Forças Armadas estão prontas para proteger o seu povo e o céu azul da sua pátria”. Trata-se de uma arrogância insensata, com a qual os responsáveis militares não concordam, mas a que não podem desobedecer por não desejarem ser assassinados.
Há quem manifeste esperança de a humanidade vir a ter grandes modificações, após ter sido habituada a novos comportamentos pela quarentena que lhe foi imposta para fazer frente à actual pandemia. Porém, tais esperanças terão de ser condicionadas pela péssima qualidade de grande parte dos “responsáveis” pelos Estados que colocam acima dos reais interesses dos seus povos, o vício da ambição pessoal, da vaidade, do orgulho, da arrogância e da ostentação de actos insensatos.
A actual pandemia do Covid-19 deve incitar à reflexão profunda ponderando que todas as pessoas, independentemente da riqueza e da posição social, estão sujeitas à doença e à morte, pois têm morrido médicos e foram afectados governantes que decidiram abandonar as funções e entrar no isolamento das quarentenas e até em cuidados intensivos. ■
sábado, 4 de abril de 2020
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quinta-feira, 13 de junho de 2013
LATA DE SÓCRATES, DE RELVAS E DO REGIME
Transcrição de artigo:
A LATA
Diário de Notícias 28/04/13. Por Manuel Maria Carrilho
O contrato com Sócrates para ser comentador semanal no canal público de televisão teve de partir, ou de passar, por Relvas. Isso é óbvio. E só a imagem do que terá sido essa negociação a dois dá uma ideia arrepiante, mas bem clara, do estado de degradação extrema a que chegou o regime.
É uma contratação que infelizmente não surpreende porque, na verdade, José Sócrates e Miguel Relvas são políticos siameses. Se olharmos bem para o perfil e para o percurso de um e de outro, a conclusão impõe-se como evidente. E muitas coisas estranhas se tornam, de repente, claras e compreensíveis.
A história da licenciatura de Relvas foi o primeiro sinal de uma semelhança que se revela bem mais funda: o mesmo fascínio pelo mundo dos negócios, o mesmo desprezo pela cultura e pelo mérito, o mesmo tipo de relação com a comunicação social, o mesmo apego sem princípios ao poder e, acima de tudo, a mesma lata, uma gigantesca lata! Só falta mesmo ver também Sócrates a trautear a "Grândola, Vila Morena", mas por este andar lá chegaremos.
O contrato com a RTP vem, de resto, acentuar mais uma convergência entre Sócrates e Relvas, e num ponto político extremamente sensível, que é o da concepção de serviço público de televisão. Porque, com este contrato, Sócrates aparece a cobrir inteiramente a devastação feita por Relvas no sector, e a bloquear tudo o que o PS pretenda dizer ou propor sobre o assunto. E quem cauciona o que Relvas fez aqui, cauciona tudo.
O que Sócrates deve fazer é assumir as suas responsabilidades na crise, e pedir desculpa aos portugueses, e para isso basta uma entrevista pontual, sóbria, esclarecedora e responsável. É isso que os Portugueses merecem, é disso que a nossa democracia precisa, e é a isso que o Partido Socialista tem direito. Ficar a pastar nos comentários, pelo contrário, é puro circo político, e do pior: é usar o horário nobre do serviço público de televisão para jogadas de baixa política e de pura revanche política pessoal.
Como já há tempos afirmei, Sócrates e Relvas são sem dúvida os dois políticos que mais contribuíram para a crise moral, e de confiança, que o País atravessa. Uma crise que veio agudizar todas as suspeitas com que os cidadãos olham para as suas elites dirigentes e para o continuado fracasso da sua ação.
São casos que a radical mediatização dos nossos dias facilita. Nomeadamente, porque ela abriu as portas à irrupção de um novo tipo de político, que trocou o retrato de cidadão esforçado, reservado e responsável de outros tempos, por um perfil em que o traço dominante é, simplesmente, o da lata.
E essa lata é o quê? É sobretudo a expressão de uma afirmação pessoal sem limites de qualquer ordem, que tudo arrasa no seu caminho, num júbilo mais ou menos histérico que dispensa qualificações ou convicções que não sejam de ordem psicológica ou comunicacional. Daí, naturalmente, a excitação voluntarista e a encenação estridente que sempre a acompanham.
A lata não é certamente um exclusivo dos políticos, mas tem neles um terreno de excepção. Ela aparece hoje como um traço específico do que alguns autores têm diagnosticado como a "nova economia psíquica" do nosso tempo. É isso que leva muita gente a ver neles verdadeiros mutantes, e a lamentar nostalgicamente que, na política, tenham desaparecido os verdadeiros líderes.
Mas seja ou não de mutantes que se trata, é preciso reconhecer que os "políticos de lata" estão em sintonia com muitas transformações do mundo contemporâneo, e que é por isso que eles suscitam inegáveis apoios e vivas controvérsias. Figuras maiores, bem ilustrativas deste fenómeno, são Sílvio Berlusconi ou Nicolas Sarkozy.
São sempre criaturas mitómanas, destituídas de superego e, portanto, de sentido de culpa ou de responsabilidade. Revelam uma contumaz incapacidade de lidar com a frustração, que é, como Freud bem ensinou, onde começam todas as patologias verdadeiramente graves.
Com eles, tudo se dissolve num narcisismo amoral, quase delinquente, que vive entre a alucinação de todos os possíveis e a rejeição de quaisquer limites. Eles estão pois muito em linha com o paradigma do ilimitado que tem anestesiado e minado o mundo nas últimas décadas.
A lata tornou-se, deste modo, num traço político muito frequente, que anima os mais variados, e lamentáveis, tipos de voluntarismo. Não admira pois que os políticos de lata se singularizem, não pela sua dedicação a causas ou a convicções, mas pelos intermináveis casos em que se envolvem e são envolvidos.
É também por isso que eles têm sempre que tentar voltar, foi assim com Berlusconi, é o que se tem visto com Sarkozy, chegou a vez de José Sócrates. Não resistem, e todos encenam, para disfarçar a sua doentia obsessão com o poder, umas travessias do deserto mais ou menos culturais: Berlusconi com a música, Sarkozy com a literatura e o teatro, Sócrates com a filosofia.
Mas o seu compulsivo "comeback" acaba sempre por se impor, porque ele é o tributo que eles têm que pagar à sua tão vazia como ilimitada mitomania. Com consequências, atenção, que já conduziram várias sociedades e diversos países às piores tragédias. Esperemos que não seja esse, desta vez, o caso, mas o aviso aqui fica!?
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quinta-feira, 6 de junho de 2013
O BOM LÍDER NÃO É ARROGANTE NEM VAIDOSO
Transcrição de post do Blog Sempre Jovens, publicado por Celle:
Coisas do Papa Francisco! "E tu, irias sentar-te na cadeira de trás?"
Uma das últimas cadeiras da igreja é ocupada pelo Papa.
É o que se vê na foto.
Ele está a celebrar uma Missa muito peculiar: os convidados são os jardineiros e o pessoal de limpeza do Vaticano. Num momento da celebração o Papa pede a todos que orem em silêncio, cada um pelo que o seu coração deseja. Nesse instante, ele levanta-se da sua cadeira presidencial que está na frente e vai sentar-se numa das últimas cadeiras para fazer a sua própria oração. Dá a impressão de que este chefe preferiu que todos se centrem em ver de frente a verdadeira razão da sua existência, esse Cristo crucificado que está ali presente e não em que o vejam a ele, o seu chefe, que não é mais que um homem que falhou e continuará a falhar, e a quem hoje todos chamamos o Papa Francisco.
A famosa diferença entre chefe e líder é absoluta nesta foto. O chefe sempre se emproa, pondo-se à frente para que todos o vejam e lhe obedeçam, enquanto que o líder sabe quando se deve sentar atrás, não incomoda, acompanha, facilita o caminho para que os outros consigam os seus propósitos; o líder é capaz de desaparecer no momento oportuno, para que os seus companheiros cresçam e se centrem no que é verdadeiramente importante. O líder não teme perder o seu lugar, porque sabe que, muito para além do “seu lugar”, trata-se de ajudar aqueles que se encontrem no seu caminho.
Na foto, o admirável Francisco está de costas. Ele sabe que muitos o queriam ver de frente, mas neste instante tão íntimo, ele prefere ficar de costas para os fotógrafos e dar a cara a esse Deus de todos, Amor para o jardineiro e Amor para o Papa, esse Deus que não diferencia o abraço nem dá mais por um ou por outro, ambos são pecadores e ambos precisam d’Ele.
Quantos chefes terão a capacidade de ir sentar-se naquela cadeira de trás? Quando é que mães e pais teremos que “celebrar” essa cerimónia chamada vida com os nossos filhos, e num momento oportuno sermos capazes de nos sentarmos atrás, para que eles fiquem de frente para a sua missão? Quantos poderemos voltar as costas aos aplausos, à barafunda dos “clicks”, aos elogios, para dar a cara, num momento íntimo, a essa oração profunda que torna o nosso coração despido de orgulho, a um Deus que deseja com fervor escutar-nos?
O Papa ficou-me gravado nesta foto, e eu espero que hoje esta injeção sirva para me situar no resto da minha vida...
NOTA: Sua Santidade, com este exemplo de humidade, ensinou que devemos ser para os outros tal como desejamos que eles sejam para nós. Há diferença entrem o SER e o TER. Francisco, nesta atitude mostrou que deve considerar-se irmão dos irmãos, aconselhar como se devem concentrar na reflexão sobre as suas faltas por pensamentos, acções e omissões. Deu o exemplo, ao concentrar-se na sua reflexão, de que o seu Ser deve sobrepor-se à ostentação do cargo que tem, e que acha que não deve ser utilizado como imagem de poder, mas de líder, de condutor de pessoas para o caminho do Bem.
Um bom líder não sente necessidade de ser arrogante, vaidoso ou autoritário, porque sabe captar as simpatias da sua equipa, para seguir as melhores estratégias a caminho do objectivo seleccionado.
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sábado, 10 de novembro de 2012
Isabel Jonet. As palavras e os actos
Transcrição (seguida de NOTA) de artigo de igual título publicado no Expresso e- 9-11-2012, por Henrique Monteiro:
A presidente do Banco Alimentar deu umas opiniões, anteontem à noite, na SIC Notícias. Ontem, durante todo o dia, foi simbolicamente queimada na fogueira das redes sociais; hoje segue o auto-de-fé em alguns jornais. Salvo algumas boas almas (de esquerda e de direita) que a tentaram compreender, o veredicto foi unânime: ela disse o que não se pode dizer.
Na sociedade actual, como no tempo da Inquisição, todos temos de andar com um credo na boca. Tal como o credo católico, também este se baseia em crenças e não em factos!
E o que disse Isabel Jonet? Enfim, disse o que pensa e isso hoje pode ser quase um crime.
Tanto bastou para os arautos do politicamente correcto se porem em acção. Uns escreveram que não dão nem mais um quilo de arroz enquanto ela for presidente do Banco Alimentar; outros exigiram a sua demissão (da instituição privada que ela dirige há anos); uma série deles acusou-a de insultar os pobres (embora os próprios não sejam pobres sabem quando os pobres se sentem insultados) e um movimento ameaça-a de não sei o quê.
A obra de Isabel Jonet fala por si. Mas há uma certa categoria de gente para quem o importante são palavras. Para quem os pobres não são pessoas reais, com qualidades e defeitos, mas categorias político-filosóficas abstractas. Claro que nenhum daqueles que critica violentamente Isabel Jonet terá feito um centésimo do que ela fez no combate à pobreza e à fome em concreto. Mas a pessoas assim não interessam obras nem actos concretos. Apenas ideias e palavras.
E vivem iludidos com palavras a vida toda.
NOTA:
No primeiro contacto com as referidas palavras de Isabel Jonet, a quem os pobres de Portugal muito devem, interpretei a sua mensagem como um apelo à necessidade de mentalizar as pessoas para a boa gestão dos seus recursos, que é preciso que desçam da fantasia e caiam na realidade, deixem as nuvens e coloquem os pés no chão.
As palavras foram proferidas de improviso sob a pressão da apresentadora do programa e não saíram com a perfeição adequada, mas o empobrecimento que refere será a descida á realidade daqueles que vivem obcecados com as aparências, com o «faz-de-conta», o exibicionismo de riqueza muitas vezes inexistente, a vaidade, a ostentação do telemóvel, ipad, ipod, etc do último modelo, em detrimento do essencial, do seu valor intrínseco, da comodidade e do agrado da vida.
O mal podia ser remediado com melhores exemplos dos eleitos. Não seria necessário chegar ao ponto de ir de bicicleta para o gabinete de trabalho, mas também não é necessário usar um carro de topo de gama, pois um utilitário dos mais baratos não reduz a competência, a capacidade de tomar boas decisões, a eficácia dos despachos. Por isso, concordo com o artigo de Henrique Monteiro e lamento as palavras injustas daqueles que vivem de ilusões e não descem abaixo da superfície de uma notícia, ficam pela casca e não saboreiam o sabor da fruta.
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domingo, 5 de fevereiro de 2012
Arrogância como tradição???
Desde miúdo (e já lá vão várias décadas!), numa aldeia do interior, ouvia dizer que «andamos a aprender até morrer», «o saber não ocupa lugar», «perfeito só Deus», «errar é humano», etc.
No entanto, ainda aparecem pessoas que se querem apresentar como sábios infalíveis, geniais, divinos, mas só acredita em tal arrogância e basófia quem não filtra as suas «barbaridades» de linguagem pelo crivo do próprio pensamento, pois quem observa as acções e omissões desses seres balofos, vaidosos e cheios de prosápia inconsistente, verifica que não passam de seres normais com imperfeições e erros, mais ou menos, como qualquer mortal.
Já houve um governante de quem ficou célebre a frase «nunca erro e raramente me engano», mas «decretou» não haver tolerância de ponto num Carnaval e o povo não gostou e a sua carreira política sofreu um ligeiro revês. Agora frequentemente mostra que ‘nem sempre’ acerta.
Parece que tal arrogância de quem não quer aprender com os outros e com a experiência está a tornar-se tradição. Senão vejamos o título de notícia no PÚBLICO que é a transcrição de palavras de um governante "Governo não aceita lições de moral da esquerda sobre sensibilidade social”.
O Zequinha das anedotas escolares ficou ignorante porque não queria aprender, não aceitava lições, porque já «sabia tudo». Mas estão a surgir afirmações da área do Governo que mostram ainda haver algo a aprender, ainda há lições a receber, como se vê da notícia Capucho considera "contraproducente, negativo e injusto" não dar tolerância de ponto, também desta Deputado do CD-SPP contra extinção de alguns tribunais e desta mais antiga Cavaquistas defendem saída de Vítor Gaspar do Governo.
A arrogância e a falta de humildade, levando a não estar atento a sugestões bem intencionadas, vindas de qualquer azimute, levanta dúvidas sobre a capacidade de decidir da melhor forma para criar uma vida melhor dos portugueses, da disposição para fazer uma boa preparação das decisões segundo uma metodologia do género da indicada em Pensar antes de decidir. O povo tem razão, o sábio, o cientista procura sempre aprender mais, e coloca sempre em dúvida aquilo que já sabe, com vista a aperfeiçoar-se mais.
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sexta-feira, 16 de julho de 2010
Pesporrência nacional
O termo pesporrência, segundo o Google, significa arrogância, basófia.
Mário Contumélias na sua crónica do Jornal de Notícias, intitulada Somos os maiores…, depois de referir o êxito» da selecção de pessoal, aquilo que tem sido dito e o eventual «prémio» ao treinador, termina com o seguinte trecho que merece muita reflexão:
«Se sairmos da esfera do futebol, a onda mantém-se.
Por exemplo, temos a maior taxa de abandono escolar da União Europeia? Não importa, a ministra está satisfeita porque estamos a melhorar.
Quase 49% dos alunos do 9.º ano tiveram negativa nos exames de Matemática? O Ministério da Educação sublinha que a média do conjunto de todas as provas é positiva.
O Governo empenha-se na info-inclusão, mas 55,4% dos portugueses não usam a Internet? Não faz mal, importa é 44,6% são verdadeiros navegadores.
Somos dos europeus com mais baixos rendimentos e maiores dificuldades para chegar ao final do mês com as contas pagas? E depois? Importante é que no final do ano passado havia 11 mil portugueses com fortunas superiores a um milhão de dólares (815 mil euros), mais 600 do que em 2008.
Afinal, estamos em franco progresso. Vai-se a ver, somos os maiores.»
Poderemos acrescentar: Estamos em crise? Mas o PR passa uma semana em Angola, com volumosa comitiva, numa época em que as comunicações, as vídeo-conferências permitem contactos íntimos, tornando menos necessários os contactos directos e as custosas viagens, depois de o PR ter aconselhado os cidadãos a passar férias cá dentro.
Enfim, pesporrência nacional. Somos os maiores!
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segunda-feira, 16 de junho de 2008
O Velho do Restelo disse
Depois do soneto de Camões publicado em post anterior, trago aqui o início do discurso do Velho do Restelo com que termina o canto quarto de Os Lusíadas, por nele encontrar motivos de meditação para compreender muito do que hoje ocorre em nosso redor. Quem tiver curiosidade, poderá consultar o poema épico e ler as restantes sete estrofes do Velho, que não trago aqui para não sobrecarregar com referências mitológicas e históricas, ficando por estas três que já dão estímulo para interessantes reflexões.
Estrofe 95
- «Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos fama!
Ó fraudulento gosto que se atiça
Cua aura popular que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!
Estrofe 96
«Dura inquietação d’alma e da vida,
Fonte de desamparos e adultérios,
Sagaz consumidora conhecida
De fazendas, de reinos e de impérios!
Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
Sendo digna de infames vitupérios;
Chamam-te Fama e Glória soberana,
Nomes com quem se o povo néscio engana!
Estrofe 97
«A que novos desastres determinas
De levar estes Reinos e esta gente?
Que perigos, que mortes lhe destinas
Debaixo dalgum nome preminente?
Que promessas de reinos e de minas
De ouro, que lhe farás tão facilmente?
Que famas lhe prometerás? Que histórias?
Que triunfos? Que palmas? Que vitórias?
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sábado, 15 de dezembro de 2007
O circo dos políticos, ou as cimeiras
O circo desceu à cidade
Por António Barreto, «Retrato da Semana» - «Público» de 9 de Dezembro de 2007
TRAPEZISTAS ANDRÓGINOS, papagaios alfabetos, palhaços pobres e ricos, tigres amestrados, magos e contorcionistas: há de tudo. Vieram por três dias, a cidade ficou em quarentena e, ansioso, o mundo espera por resultados. A meio da semana, tudo recomeça, mas só com um grupo selecto que vem assinar nos Jerónimos a inútil constituição europeia
alcunhada de Tratado.
CIMEIRA, tratado, declaração e estratégia: todas de Lisboa, para engrandecimento da pátria! Ao lado do Presidente da União Europeia, português de lei, o Presidente da Comissão, outro português de gema. Portugal, Lisboa e Sócrates saem deste rodopio famosos, prestigiados e com uma nova projecção internacional. Parece que o papel de Portugal no mundo foi assim reforçado. Que muitas novas oportunidades serão criadas. E que se deu um passo essencial na construção da paz e da segurança mundiais.
SERÁ NECESSÁRIO, para obter segurança, dialogar com criminosos, apertar a mão a torturadores, tratar quaisquer déspotas de democratas, esquecer guerras e fomes, deixar entre parêntesis a corrupção, alimentar a cleptocracia e debitar, com ar confiante, longos discursos de lugares-comuns optimistas congratulatórios? Será que o preço que tem de se pagar pela paz inclui a criação e a manutenção de uma Nomenclatura internacional imune, impune e "off shore"? Será que o próprio desta casta é o hotel de cinco estrelas, o caviar, os vintages caríssimos, a trufa branca e os aviões transformados em lupanares de luxo?
A CIDADE DE LISBOA, como qualquer outra nas mesmas circunstâncias, ficou em estado de sítio. Em qualquer canto da cidade, de repente, uns nervosos polícias mandam parar carros e desviar transeuntes, ou atiram para as bermas tudo o que vive, a fim de dar lugar a luzidias comitivas de topos de gama barulhentos e sirenes emproadas de importância. Estivéssemos nós sob ameaça nuclear e a diferença não seria grande: perímetros proibidos, áreas de segurança máxima, locais protegidos pela Armada e pela Força Aérea, centenas de gorilas mais ou menos disfarçados e milhares de soldados e polícias nas esquinas ou pendurados nos telhados. Dezenas de carros blindados transportam estes senhores do pavilhão para o hotel, do centro de congressos para a sala de jantar. A distância que os separa de pessoas normais mede-se em centenas ou milhares de metros. Têm medo de tudo, dos colegas, dos terroristas, dos opositores, dos criminosos, dos acidentes e das pessoas em geral. É cada vez mais o retrato da vida política actual: longe de todos, com receio de tudo. Mas com infinita arrogância.
É TRISTE O ESTADO a que chegou o mundo! Triste e irreversível. Se mudança houver, será para ainda pior. Os políticos vivem, deslocam-se, governam, reúnem e decidem como se fossem perseguidos, como se estivessem permanentemente cercados. Políticos, estrelas de cinema, bilionários e chefes da Máfia vivem assim. Rodeados de guarda-costas e protegidos por exércitos, são acompanhados por enormes comitivas a que não faltam médicos, enfermeiros, ambulâncias, cozinheiros, provadores, jornalistas e "escort services". Alguns não dispensam astrólogos, feiticeiros, psicólogos e "personal trainers". Os que, a exemplo de Sócrates, exigem correr ou fazer exercício mandaram reservar partes da cidade para poderem queimar toxinas e ser filmados em privado. Os políticos e seus poderosos equiparados vivem num mundo à parte, têm a sua própria geografia e governam-se pelas suas leis. De vez em quando, para serem filmados, esbulham o espaço público. A democracia trocou o Fórum e a Assembleia pela Nomenclatura e pela reserva de privilegiados. Os políticos olham para os povos como se estes fossem incómodos para as suas encenações. Mas os povos olham cada vez mais para os políticos como usurpadores e parasitas.
EM PORTUGAL, os próximos dias, semanas e meses, vão ser de intensa propaganda. As glórias do governo e de Sócrates serão equiparadas aos mais altos feitos da história. Tudo para o bem e a grandeza do país. A impecável organização dos festejos será elogiada por toda a gente. O discurso do Primeiro-ministro será mostrado como jóia rara e dele se dirá que ascendeu ao estatuto de líder mundial. Repetir-nos-ão, centenas de vezes, que Portugal está na linha da frente. Da paz, do diálogo, da cooperação, dos direitos humanos, da democracia, da ajuda ao desenvolvimento e da humanidade em geral. Pobre país que jubila com os cenários de pechisbeque, mas persiste na linha de trás da justiça, da produtividade, da educação e da desigualdade social!
DIZEM QUE OS CONFLITOS, quando atingem níveis insuportáveis, trazem a paz. Mas também dizem que as grandes festas de concórdia e espalhafato anunciam o conflito, a violência e a miséria. São coisas que se dizem...
NOTA: Transcrevo este artigo que considero um retrato em cores vivas de uma situação já aqui referida que muitos portugueses se recusam a observar com olhos bem abertos. Merece ser reconhecida a isenção do Prof António Barreto pela clarividência da análise e pela coragem de transmontano com que se exprime.
Os objectivos da cimeira foram conseguidos: Os políticos viajaram, conviveram banquetearam-se, discursaram em termos politicamente correctos, mostraram as suas vestes mais vistosas, obrigaram os vermes a privarem-se de viajar livremente nas ruas da sua cidade, evitaram os temas mais relacionados com a qualidade de vida das populações (direitos humanos, democracia, liberdade, etc.) e alguns mais espertos fizeram negócios com empresas multinacionais, as únicas beneficiadas por este circo, bem recheado de actores. E assim vai o mundo moderno!!!
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domingo, 5 de agosto de 2007
A importância de ser tratado por Excelência
Chega de excelências
Em 13/6 , um juiz do Paraná desmarcou uma audiência porque um trabalhador rural compareceu ao fórum de chinelos, conduta considerada "incompatível com a dignidade do Poder Judiciário".
Não muito antes, policiais do Distrito Federal fizeram requerimento para que fossem tratados por "Excelência", tal qual promotores e juízes.
Há alguns meses, foi noticiado que outro juiz, este do Rio de Janeiro, entrou com uma acção judicial para obrigar o porteiro de seu condomínio residencial a tratar-lhe por "doutor".
Tais fatos poderiam apenas soar como anedotas ridículas da necessidade humana de criar (e pertencer a) castas privilegiadas. No entanto, os palácios de mármore e vidro da Justiça, os altares erguidos nas salas de audiência para juízes e promotores e o tratamento "Excelentíssimo" dispensado às altas autoridades são resquícios directos da mal resolvida proclamação da República brasileira, que manteve privilégios monárquicos aos detentores do poder.
Com efeito, os nobres do Império compravam títulos nobiliárquicos a peso de ouro para que, na qualidade de barões e duques, pudessem se aproximar da majestade imperial e divina da família real.
Com a extinção da monarquia, a tradição foi mantida por lei, impondo-se diferenciado tratamento aos "escolhidos", como se a respeitabilidade dos cargos públicos pudesse, numa república, ser medida pela "excelência" do pronome de tratamento. Os demais, que deveriam só ser cidadãos, mantiveram a única qualidade que sempre lhes coube: a de súditos (não poderia ser diferente, já que a proclamação não passou de um movimento da elite, sem nenhuma influência ou participação popular). Por isso, muitas Excelências exigem tratamento diferenciado também em sua vida privada, no estilo das famosas "carteiradas", sempre precedidas da intimidatória pergunta: "Você sabe com quem está falando?".
É fato que a arrogância humana não seduz apenas os mandarins estatais. A selecta casta universitária e religiosa mantém igualmente a tradição monárquica das magnificências, santidades, eminências e reverências. Tem até o "Vossa Excelência Reverendíssima" (esse é o cara!).
Somos, assim, uma República com espírito monárquico. As Excelências, para se diferenciarem dos mortais, ornam-se com imponentes becas e togas, cujo figurino é baseado nas majestáticas vestimentas reais do passado. Para comparecer à sua presença, o súdito deve se vestir convenientemente. Se não tiver dinheiro para isso, que coma brioches, como sugeriu a rainha Maria Antonieta aos esfomeados que não podiam comprar pão na França do século 18. Enquanto isso, barões sangram os cofres públicos impunemente. Caso flagrados, por acaso ou por alguma investigação corajosa, trata a Justiça de soltá-los imediatamente, pois pertencem ao mesmo clã nobre (não raro, magistrados da alta cúpula judiciária são nomeados pelo baronato). Os sapatos caros dos corruptos têm livre trânsito nos palácios judiciais, com seus advogados persuasivos (muitos deles são filhos dos próprios julgadores, garantindo-lhes uma promiscuidade hereditária), enquanto os chinelos dos trabalhadores honestos são barrados. Eles, os chinelos, são apenas súditos. O único estabelecimento estatal digno deles é a prisão, local em que proliferam.
A tradição monárquica ainda está longe de sucumbir, pois é respaldada pelo estilo contemporâneo do liberal-consumismo, que valoriza as pessoas pelo que têm, e não pelo que são. Por isso, após quase 120 anos da proclamação da República, ainda é tão difícil perceber que o respeito devido às autoridades devia ser apenas consequência do equilíbrio e bom senso dos que exercem o poder; que as honrarias oficiais só servem para esconder os ineptos; que, quanto mais incompetente, mais se busca reconhecimentos artificiais etc.
Numa verdadeira República, que o Brasil ainda há de um dia fundar, o único tratamento formal possível, desde o presidente da nação ao mais humilde trabalhador (ou desempregado), será o de "senhor", da nossa tradição popular. Os detentores do poder, em vez de ostentar títulos ridículos, terão o tratamento respeitoso de servidor público, que o são. E que sejam exonerados se não forem excelentes!
Seus verdadeiros chefes, cidadãos com ou sem chinelos, legítimos financiadores de seus salários, terão a dignidade promovida com respeito e reverência, como determina o contrato firmado pela sociedade na Constituição da República.
Abaixo as Excelências!
Fausto Rodrigues de Lima ---- Promotor de Justiça do Distrito Federal
In http://alentejano2004.blogspot.com/
NOTA: Por cá, depois e uns anos em que as pessoas nos se tratavam pelo nome primeiro nome, está a começar a abusar-se dos títulos, o que é exigido por muitos snobs, principalmente mulheres. Será tendência para a monarquia???!!! Os EUA tiveram um Presidente Bill e tinham tido outro Jimy. A GB teve um PM Tony. Nós temos um PM «engenheiro» José Sócrates e um PR Professor Doutor Cavaco Silva. Assim se vê o que é um País grande e poderoso!!! A excelência é muito importante na qualidade do desempenho, mas é dispenssável no tratamento demasiado formal.
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A. João Soares
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quarta-feira, 18 de julho de 2007
Inconvenientes da maioria absoluta
O Parlamento, em funcionamento normal, tendo como objectivo encontrar as melhores soluções para o País, em sobreposição a interesses particulares de partidos ou outros grupos, muito ganharia com a participação em consenso dos vários intervenientes, sem autoritarismos, arrogâncias ou teimosias apoiadas na maioria absoluta. Duas cabeças pensam melhor do que apenas uma, e os partidos da oposição têm capacidade para moderar posições menos sensatas e para chamar a atenção para pormenores positivos não negligenciáveis. Mas, infelizmente, a maioria manifesta-se inconveniente para o bem do País, por se considerar única detentora da verdade, alimentando egoísmo e vaidade, o que a impede de ver e ouvir a realidade e o bom caminho. Uma lei que é aprovada apenas pelo partido do Governo perde credibilidade. Seguem-se alguns exemplos retirados da imprensa recente.
A redacção final da Lei Política Criminal (LPC), correspondendo, no essencial, à proposta de lei apresentada pelo Governo, foi aprovada pela Assembleia da República na semana passada apenas com o voto favorável da maioria" socialista, o que fez ficar perplexo o Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP). Este denuncia "erros jurídicos graves" e "contradições" e questiona se a LPC é uma ruptura assumida ou a governamentalização da justiça penal. Segundo o sindicato, a lei poderá colocar em causa a essência do Ministério Público, encarregado pela Constituição de defender a legalidade, agir com objectividade nos processos, e fragilizar o Procurador-Geral da República se este definir directivas que violem as normas basilares do Código Penal, pelo que a promulgação da lei poderá ser "um desafio difícil" para o PGR.
Também o Regime Jurídico das Instituições de Ensino Superior (RJIES) é criticado por ser uma manta de retalhos e não uma verdadeira reforma do Ensino Superior", o que se deduz do facto de o PS apresentar 74 propostas de alteração. Com todos estes remendos, poderá concluir-se que a proposta do Governo estava mal preparada e elaborada de forma atabalhoada.
Também a lei das finanças locais passou com o "sim" isolado do PS e agora, como a nova lei das finanças regionais enfrenta a contestação da Assembleia Regional da Madeira, a maioria absoluta do PS irá sozinha garantir de novo ao Governo a aprovação de uma proposta de lei polémica.
Mas, os próprios socialistas começam a estar preocupados embora sem forma bem definida. Os inconvenientes da arrogância do Poder estão a fazer-se sentir, como se viu no Congresso [socialista], em que o ministro da Saúde foi deixado a falar praticamente sozinho, parecendo que a sua intervenção "foi acolhida pelos poucos presentes com grande frieza". A sua política de Saúde parece estar subordinada ao compromisso de destruir o Serviço Nacional de Saúde, e abrir espaço para os grupos privados, o que não parece agradar a alguns socialistas mais sérios.
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A. João Soares
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