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segunda-feira, 7 de março de 2011

Democracia em evolução

Notícia de França diz que «Sondagem dá vitória à extrema-direita», o que deve ser interpretado serenamente pelos políticos que gerem os países do velho continente.

Parece que o povo está acordando e vê necessidade de moralizar a política, de submeter os políticos ao cumprimento da lei geral, acabar com a corrupção e com o amiguismo de clã. Os sinais que chegam de vários lados mostram que o histórico poder da Europa está em vias de extinção, acabando com a «hegemonia» cultural e económica de vários séculos. Hoje tem lições a receber de muitos países do mundo. Os imigrantes árabes estão a tomar atitudes públicas (na Grã-Bretanha, na Áustria e em França) que colidem com as tradições do continente e que não provocam reacções adequadas sem deixarem de ser pacíficas. Os políticos navegam à vista da costa, com sucessivas correcções do rumo, sem lei nem Norte que os oriente de forma segura para objectivos bem definidos e ponderados com assento na realidade e num ideário claro.

Esta sondagem, mostra que as ditaduras (ou os regimes autoritários) iniciam sempre com o consentimento e aprovação espontânea do povo, farto dos abusos dos regimes incompetentes e ineficazes. O grande perigo é a dificuldade de sair delas, sempre à custa de traumatismos dolorosos, quase sempre mal aproveitados, por incapacidade de reorganização.

Por cá também se vê uma tendência para sair da apatia, do masoquismo tradicional de tudo ir aceitando sem reagir, sem reclamar, e sedimenta-se a convicção de que as coisas não podem continuar neste crescentes abusos e explorações que deixam a maioria na penúria, e de que resulta a dilatação da obesidade dos tubarões anichados à sombra do poder que manobram como títeres bem amestrados. A Justiça social não funciona e o fosso entre os mais ricos e os mais pobres alarga-se e aprofunda-se.

As pessoas desenvolvem a convicção de que é preciso podar os ramos podres da árvore, é preciso aplicar cirurgias para amputar os membros gangrenados que só prejudicam a vida e causam a morte a curto prazo.

Dada que os políticos que fazem parte do problema dificilmente poderão fazer parte válida da solução, muita gente comunga da ideia de que convinha que o FMI nos viesse apoiar, como diz João Jardim.

Mas uma mudança, como aquela que se impõe, é sempre traumática e pode ser inevitável o confronto entre os lacaios do regime actual e os «rebeldes», mas quanto mais tardar essa solução, mais dolorosa e menos eficaz ela vai ser. Falta um «manifesto doutrinário» bem apresentado, convincente, e um líder que coloque o País nos eixos, prometendo e comprometendo-se com um período de transição relativamente curto e eleições democráticas a seguir.

Sem um pulso forte e uma equipa patriótica isto não sai desta podridão. Mas é preciso controlar tal actuação nos procedimentos a adoptar e na duração da mudança.

Vejamos a evolução que a França irá ter, mas não se pode esperar muito tempo, para evitar que o remédio chegue depois de o paciente ter falecido.

Imagem do Google

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Ética ou autoridade

Não resisti à tentação de pedir ao autor deste comentário no post Como atacar os maiores problemas de momento?, autorização para o publicar em local de mais visibilidade, do que o discreto sítio onde o encontrei. Fui autorizado e espero que os leitores gostem e concordem com a minha iniciativa. Não é muito frequente encontrar uma análise tão completa e serena, como esta de Luís Pessoa.

Éticas

Caro Pedro Faria, o Amigo atacou com força pelo factor mais complicado de abordar, na nossa modesta opinião: a ética ou a falta dela.

Soluções, verdadeiras soluções, não as possuímos, nem sabemos se existem. Diagnósticos, esses são muitos e conduzem quase sempre à mesma maleita, se bem que de modo cada vez mais refinado, digamos assim.

Em Portugal não há, historicamente, uma tradição de ética, em nenhum sector da nossa vida, nem nós a podemos invocar como valor sagrado nas nossas relações. Aliás, a ética foi sempre vista como um entrave ao desenvolvimento, em que o cumprimento dos pressupostos exigidos pela transparência, provocam sempre perdas escusadas de tempo.

A existência de uma ética a toda a prova, não é algo de que os nossos ancestrais se possam gabar e nós somos os seus naturais seguidores. Não é um assunto de políticos, governantes ou opositores, antes uma questão fundamental de educação cívica natural. Reforço o “natural” porque não pensamos que isso possa ser desenvolvido por si só, ministrado nas escolas ou ensinado, pelos motivos que mais à frente referiremos. Os políticos limitam-se a aproveitar a boleia, porque lhes convém. É só verificar como foi feita a validação do chamado Tratado de Lisboa e como todos os países ratificaram à revelia da transparência ética devida aos seus governados, bem como o modo “arrebanhado” como as populações aceitaram essas soluções artificiosas, diz tudo sobre o nosso entendimento sobre a ética.

Todos nos revoltamos contra a falta de ética nos outros, mas achamos de uma naturalidade normal (desculpem a redundância) quando o que está em causa são “pormenores”, pequenas coisas. Um mesmo comportamento é por nós catalogado de forma diversa: achamos mal se um político mete uma “cunha” para uma pessoa, achamos natural que “falemos” do nosso filho a um amigo nosso que é responsável por empregos na área dele; achamos mal que um político se aproveite de informação privilegiada para obtenção de mordomias, mas vamos a correr comprar acções que um amigo “lá de dentro” soube que vão valorizar; achamos mal que um político trate da sua vidinha em contas no estrangeiro, para fugir aos impostos, mas vamos a correr subscrever produtos que sabemos serem ilegais ou próximos disso ou usar todos os estratagemas para fugirmos aos nossos impostos; achamos mal que os batedores de um político abram caminho por entre os carros em fila, mas nós usamos uma faixa de rodagem impedida até ao limite do possível, para metermos abusivamente o nosso carro à frente da fila enorme que se acumulou na faixa ao lado; etc.

O mau comportamento ético “dos outros” choca-nos sempre e criticamos os abusadores, mas apenas naquilo em que nos sentimos prejudicados. Não perdemos oportunidade de fazermos o mesmo se daí retirarmos benefícios. A desculpa é óbvia: “eles fazem ainda pior”… “se eles não dão o exemplo porque hei-de eu dar?”.

O ponto principal, na nossa óptica, passa pela ausência de autoridade, mais do que por uma ausência de educação cívica. Para que não haja más interpretações, não defendemos uma ditadura nem uma interrupção da democracia. Digamos antes que as características cada vez mais ferozes em termos de competição pessoal (na escola, no emprego, na estrada, em tudo, afinal), impedem que os valores éticos que penso que todos temos “entranhados” (ninguém ignora o que é acertado ou incorrecto, todos sabemos como devemos comportar-nos, mas…) se sobreponham aos valores que a sociedade real valoriza (sucesso, poder…). Quando a própria pressão social não se exerce no sentido da honestidade, da ética, mas sim no sentido de validar os comportamentos menos consentâneos com esses valores (era só o que faltava eu pagar os meus impostos, para eles roubarem à grande; o Manuel é uma máquina, fez o Lisboa-Porto em duas horas”, etc.), pouco ou nada há a fazer no campo educacional. Principalmente porque mais tarde ou mais cedo as (ainda) crianças vão-se confrontar com uma multiplicidade de casos em que sairão altamente prejudicadas, em assuntos que terão importância decisiva na sua vida futura, em favor de quem não tiver qualquer escrúpulo.

Portanto, para estarmos à espera que os mecanismos educacionais venham hipoteticamente a funcionar num futuro distante, inculcando esse espírito ético, tornando infrutífera qualquer tentativa de subverter os valores éticos, teremos gerações e gerações de honestos a serem “degolados” pelos aventureiros sem escrúpulos! E nisso nós não acreditamos! Não acreditamos em anjos. Logo, logo, serão os mais honestos a terem de se “encaixotar” nessa lama viscosa para poderem sobreviver.

Daí a nossa referência à vertente não educacional, mas sim de autoridade. Olhando os exemplos que logo acodem como exemplos de civismo e ética, os países nórdicos, é fácil notarmos que aí há uma vertente censória e autoritária nos assuntos ligados à ética. É tal a (re)pressão das autoridades, que os próprios cidadãos exercem essa mesma (re)pressão sobre os seus concidadãos quando verificam aspectos suspeitos de desvio. É “bufaria”, comentamos logo por cá. Será, mas é uma “bufaria” que depois deixa de o ser porque ao verificar-se que há honestidade no tratamento, ninguém pensa sequer em usar esses métodos que o vão imediatamente penalizar perante os outros. O risco de se ver destruído na sua credibilidade é enorme e esse sentimento vai sendo passado de geração em geração e “entranhado” com normalidade.

A repressão extrema exercida teve uma finalidade dissuasora (os nórdicos não eram nem são nenhuns santinhos, são descendentes dos vikings e só isso é um dado relevante para o bilhete de identidade), mas hoje já nem é necessária (embora ainda lá esteja pronta a actuar) porque cada um dos cidadãos já absorveu o conceito básico e entendeu que há relações “limpas”, mesmo na concorrência feroz que lá há. O seu sentimento de que estão todos em igualdade de circunstâncias é o melhor guardião do sentido ético.

Em suma, um tema tão variado, com tantas causas e tão grandes efeitos em termos do minar dos alicerces de qualquer grupo ou sociedade, ainda que com o seu consentimento, jamais estará acabado.

E por mais soluções que imaginemos ter posto em cima da mesa, muitas mais se levantarão sempre, sendo certo que todas terão já sido testadas um pouco por toda a parte, umas vezes com mais vontade política, outras com menos, mas sempre sem grande sucesso.

Luis Pessoa

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domingo, 14 de setembro de 2008

Criminalidade e autoridade

O notário reformado João Mateus reagiu à maneira como jornalistas do DN trataram o caso do assalto ao banco BES e sequestro de trabalhadores. Amigo de há muitas décadas e com quem não me encontrava há muito, esteve presente num convívio para que fui convidado e, sabendo da minha condição de blogger, falou-me da sua discordância em relação à forma como o DN tratou o caso e de uma carta que escreveu ao director que não foi publicada. Sei por experiência que os jornais nem sempre publicam as cartas recebidas dos seus leitores, mas estes ao verem preteridas as suas e considerando que estas abordam temas mais interessantes do que outras publicadas, nem sempre se conformam. Neste caso, João Mateus mostrou a sua indignação, de forma muito correcta, com duas novas cartas que aqui transcrevo.

Ass: Uma pergunta a João Miranda
Data: Sat, 16 Aug 2008 16:59:26

Lendo a crítica constante do seu artigo no 'D.N.' de 16 deste mês, gostaria de lhe fazer uma pergunta simples. Que desejava que a autoridade fizesse no assalto ao BES de Campolide? Que pedisse aos dois 'presumidos inocentes' uma trégua no sequestro dos dois 'empatas' dos bancários e lhes perguntasse como se chamavam para, via NET, requisitar os seus certificados de registo criminal e ver se tinham cadastro? E que os emissários fossem agentes da polícia sem treino de tiro?

Mas quem não saberia, dos milhões de Portugueses que olhavam a TV, que eles eram primários sim, mas primários como seres humanos?

Que pensaria se fossem familiares seus os reféns? E, já agora,por que não se prestou para, com a jornalista Ana Sá Lopes, que o aplaude, substituírem aqueles, esclarecendo que não queriam que se disparasse sobre os inocentes 'presumidos', mas sim que lhes pusessem à ordem um helicóptero para fugirem convosco a respaldá-los...?

Se não era original a oferta para substituir reféns, era, ao menos, uma razão válida para me obrigar a ir logo comprar um chapéu só para me descobrir respeitosamente perante a vossa memória.

Cordialmente
João Mateus—Viseu

Segunda carta:
Ass: Carta 'off record'
Date: Tue, 19 Aug 2008 14:43:23

Velho leitor de algumas dezenas de anos de um jornal que admiro pela abertura às diversas correntes de opinião, e autor há dias de uma carta denominada 'uma pergunta a João Miranda', que não espero já ver publicada, mas que terá cumprido a missão principal de manifestar a desilusão com uma opinião que reputo de injusta, não posso hoje deixar de, com uma maior liberdade de expansão, manifestar o particular regozijo com o artigo que li, de João Miguel Tavares, revelador de uma grande capacidade de análise e com que só não posso concordar num pormenor.

Não creio que o jornalista deva considerar de direita a sua posição de regozijo pela salvação dos sequestrados.

Católico e monárquico convictamente de esquerda, não considero que alguém, que pacificamente trabalha para o sustento próprio e dos seus, deva estar sujeito a ver alegremente apontar à cabeça ou ao pescoço uma arma carregada por outro alguém que escolheu o caminho do crime enquanto ele optou pelo do trabalho para a satisfação dos seus eventualmente legítimos anseios.
Dezassete anos e meio de magistratura, seguidos de vinte e seis e meio de notariado, um total de 44 anos a procurar compor conflitos, primeiro em situações em que não se procurou a solução por acordo, e depois na situação oposta, o longo contacto com delinquentes, com vítimas, com acusados inocentes, com pessoas que procuram compor amigavelmente os seus conflitos de interesses, não posso deixar de gritar que nem só as minorias têm direitos. Lamento as vidas perdidas, a do sequestrador abatido, a do jovem ciganito conduzido ao mundo do crime pelos seus e vítima do tiro de um guarda não devidamente preparado, a do negro assassinado em sua casa por bando rival, e quantas outras que vão acontecendo.

É difícil o papel da autoridade, mas a legítima defesa própria e alheia, proporcional a perigo criado, é um direito do cidadão e um dever da autoridade.

E não se pode esquecer o problema do copo meio cheio ou meio vazio. Se na acção dos 'snipers' se vê uma morte que podia (poderia?) não ter havido, também se pode ver, pelo contrário, a salvação de dois trabalhadores e o profissionalismo dos polícias que ainda permitiu evitar a morte de um daqueles que optara, sabe-se lá porquê, pela marginalidade.

Na vida, todos temos que fazer opções quantas vezes cruciantes.

E termino com uma última questão:
Alguém se lembrou já de perguntar qual será o estado psicológico do 'sniper' cuja obrigação era agir num segundo e que agiu?

Atenciosamente
João Mateus-- Viseu

Terceira carta:
Ass: Criminalidade
Date: Sun, 31 Aug 2008 17:27:18

Corria o ano de 1941 e, perante vaga legiferante que atacara o Governo, erguera-se a voz autorizada do Mestre de Direito Barbosa de Magalhães (filho) acusando aquele de sofrer de diarreia legislativa. Respondeu o Poder, como o sistema impunha, calando o ousado com uma aposentação compulsiva.

Vem esta evocação a propósito do artigo do Dr. António Cluny (D.N. de Domingo), que se aplaude, e que reconduz creio, ao que traduzo livremente por estado de espírito emocional sob que terão sido produzidos os actuais Código Penal e de Processo Penal e Lei de Política Criminal, derivado de abusos no decretar de prisão preventiva e que a prolongada detenção de um político exacerbara.
Reagiu-se a quente e, um ano depois, são patentes as consequências.

É um facto, mas alguma coisa se deve aprender com o passado: a uma tolice não se deve responder com outra que alguns parece exigirem.

São demasiado importantes aqueles Códigos, e mesmo aquela Lei, para servirem de campo a jogadas de batalha naval. Há que parar para reflectir, não continuando a agir a quente. O velho remédio para as diarreias (um dia de jejum só ingerindo líquidos) parece-me recomendável. Suster as consequências mais graves da lei, como sugeriu o Ministro Doutor Rui Pereira, com a iminente legislação sobre as armas, e outras que se possam impor, e acalmar antes de alterar os Códigos parece-me essencial.

E, já agora, recordando, da mesma era de 40, o filme 'Casablanca', e a ordem final do comandante da polícia para se prenderem os suspeitos do costume, alheios à morte que houvera, esperemos que a reacção em curso das polícias, que se apoia, não resulte, da mesma forma, na prisão apenas dos suspeitos usuais, prostitutas imigrantes, aceleras alcoolizados, condutores não encartados ou passadores de droga, enquanto ao lado, à mesma hora, se assassina um jovem de 22 anos em sua própria casa.

João Mateus—Viseu

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sábado, 29 de março de 2008

Proibido dizer «O rei vai nu»

O sr. coronel reformado da FAP, Luís Alves de Fraga, autor do blogue "Fio de Prumo", está submetido a processo disciplinar por criticar as «longas filas» de militares para marcar consulta no Hospital do ramo (ver DN).

Alves Fraga considerou que "As chefias responsáveis (...) já deviam ter tomado medidas contra tal estado de coisas", e questionou-se se "não serão os Serviços do Estado-Maior da Força Aérea competentes para estudarem e resolverem o problema da marcação das consultas do Hospital".

Segundo o advogado de defesa, a nota de culpa diz que «aquelas afirmações violam o Regulamento de Disciplina Militar (RDM) por ferirem a dignidade, a honra e o bom nome das chefias da FAP e, em particular, do seu chefe do Estado-Maior, serem atentatórias da coesão e disciplina na FAP e denotarem, ainda, falta de respeito por aqueles generais e pelos cargos que ocupam».

Segundo o mesmo, este processo é ofensivo dos mais elementares direitos constitucionais dos cidadãos e até do regime democrático". Como "o militar na reforma não se encontra sujeito às restrições constitucionais relativas à liberdade de expressão", o advogado garantiu ao DN estar-se perante "um problema de liberdade de expressão", onde o recurso ao RDM pela FAP visa "humilhar publicamente alguém que pela sua verticalidade, coragem e saber merece a consideração de todos".

Desde muito novo, que conheço um aforismo, segundo o qual, «o comandante é responsável por tudo o que na sua unidade se faz ou deixa de fazer». Por isso, as autoridades que superintendem nos referidos serviços não podem alijar a responsabilidade pelo que de menos bom neles ocorra. E, num funcionamento normal, elas sabem – ou pelo menos devem saber - o que se passa, e devem tomar medidas para corrigir o que exigir correcção. Como as deficiências são reais, é lógica a dúvida se existe competência para serem estudadas e resolvidas, pois podem ser de tal modo complexas que ainda não tenha sido possível resolvê-las com os meios existentes.

É estranha a actuação da autoridade ao invés da moral da história que nos relata o elogio ao miúdo que teve a sinceridade de dizer «o Rei vai nu». A posição do sr. coronel foi a de alertar para uma situação que causa desconforto a utentes do hospital em posição de debilidade e de sofrimento. Mas num visível mau uso da autoridade, em vez de exercer o esforço no sentido de eliminar rapidamente a deficiência relatada, procura calar o mensageiro. Isto não é próprio de uma democracia.

Parece que aquilo de que o processo acusa o mensageiro, é uma «falta» de que devem ser acusados os responsáveis pelos serviços até ao mais alto escalão. Com efeito, a existência das deficiências referidas fere a dignidade, a honra e o bom nome das chefias da FAP (e de todos os militares do ramo) e, em particular, do seu chefe do Estado-Maior, e é atentatória da coesão e disciplina na FAP e afecta o respeito que deve ser merecido pelos generais e pelos cargos que ocupam.

Será desejável que tais deficiências e outras do género sejam corrigidas logo que detectadas, para a coesão de todos os militares e para a dignidade, a honra e o bom nome destes e das chefias. Portugal precisa de Forças Armadas prestigiadas e de um espírito positivo e colaborante dos seus elementos, do seu capital humano, a todos os níveis.

Ao sr. coronel Alves de Fraga, desejamos que não seja molestado nas suas qualidades, publicamente reconhecidas, de verticalidade, coragem e saber, de que deu provas, mais uma vez ao denunciar, as deficiências referidas.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2007

O estado da Segurança Interna do Estado

Na passagem de Agosto para Setembro, reentramos na tragédia da realidade nacional. Depois de um mês de alívio, de distanciamento, caímos esmagados pela variedade de notícias que, por entretanto nos termos desabituado, nos parecem dramáticas.

Como diz o sociólogo Paquete de Oliveira, «reabrem as escolas, os tribunais, as repartições, as fábricas. Toca o gongo para o trabalho e todas as obrigações. Os políticos recomeçam nas suas disputas. As querelas futebolísticas sustentam grandes discussões. Voltam os julgamentos em atraso de anos. Dá-se conta do aumento da gasolina em 7,8 %, dos cursos de Engenharia e outros tantos que existem a mais, que metade dos seguranças da vida nocturna está ilegal, que os portugueses usam cada vez menos protecção contra a sida, que 80% das doenças mentais ficam por tratar (ui!), que nem com escola a tempo inteiro há lugar para muitos daqueles que do ensino faziam a sua profissão, que pelas estradas portuguesas, este Verão, deixámos dezenas e dezenas de mortos. Eu sei lá, é um rol de coisas que por Agosto passavam desapercebidas. Com a acalmia da estação quente, quase não se toma consciência do que significam na cooperação estratégica os vetos do presidente da República e quase se esquece que a presidência europeia está cá no burgo. Setembro é, de facto, um mês com certa crueldade. Tira-nos a ilusão que Agosto criara.»

Também o advogado José Luís Seixas, dá umas pinceladas nesta tela: « Os acontecimentos da madrugada de domingo no Campo Grande replicam, de forma trágica, um qualquer filme de gangsters. As balas, porém, foram a sério e o sangue jorrou pela rua.

Associando o que se passou com as reportagens publicadas sobre o funcionamento de muitas discotecas de Lisboa e do Porto fica-se com a preocupante ideia de que a "noite" e os seus negócios vivem numa situação de marginalidade consentida. As denúncias são tantas e tão graves que ninguém entende a passividade das polícias e a ineficácia do Estado.

- Podem crianças com 12, 13 ou 14 anos frequentar estes estabelecimentos? Não podem, mas frequentam aos magotes.
- Podem-lhes ser vendidas bebidas alcoólicas? Não podem, mas são vendidas.
- Podem estas discotecas e bares exercer o seu comércio sem uma autorização especial denominada por licença? Não podem, mas grande parte permanece aberta não a tendo, sequer, requerido.
- Podem funcionar sem horário, até às seis ou às oito da manhã? Não podem, mas funcionam.

Ou seja, o Estado não fiscaliza, não age, não zela pelo cumprimento da lei e não pode garantir a segurança e a tranquilidade públicas. Assim sendo, estão criadas as condições necessárias para que a criminalidade organizada se estabeleça, domine o negócio e estabeleça territórios. A tiro, se tal for necessário.»

Segundo Isabel Stilwell, «denominam-se bens não-rivais aqueles que não se gastam e podem ser usados, simultaneamente, por quem quiser. Por exemplo, se contemplar uma paisagem fantástica, não roubo nem um bocadinho da sua magia a ninguém. É um bem público, colectivo, de todos sem ser de ninguém em especial.

É preocupante a pouca importância que o Estado, e cada um de nós, dá a este tipo de bens fundamentais. Logo a começar pela desvalorização da sabedoria, do mimo, da educação. E do espaço em que vivemos. O caos das nossas cidades, a falta de um planeamento urbanístico que satisfaça os olhos e facilite o nosso dia-a-dia, as escolas a cair aos bocados, ou as paredes inundadas de tags nojentos são provas do nosso desprezo por aquilo que, não estando cotado em bolsa, contribui, de forma incalculável, para a nossa qualidade de vida. Ou para a falta dela. Viver numa grande cidade é uma fonte acrescida de stress, sobretudo, para quem não tem poder e dinheiro.

Se entendêssemos que as sardinheiras da nossa janela são um bem não-rival, uma epidemia boa, entenderíamos que tomar conta das nossas cidades, dos nossos bairros, dos nossos cantos, era um investimento que valia a pena. Temos o direito, e o dever de exigir, que os políticos cumpram as suas promessas, e, se entendêssemos mesmo esta ideia, desconfio que a felicidade chegava mais depressa.»

Após palavras vindas de tão doutas origens, a tela ficaria completa se o caudal dos acontecimentos não continuasse a fluir. Mas ele não pára. É a notícia de que muitos fogos florestais foram iniciados a meio da noite, certamente por razões estranhas ao calor solar, a continuação das mortes na estrada para estragar as estatísticas do Governo, a superabundância das infracções detectadas pelos radares em Lisboa, indo muitas ficar impunes devido a incapacidade burocrática, o aumento escandaloso dos preços dos combustíveis, ao lado do aumento escandalosamente pequeno dos salários mínimos, ao contrário da evolução nos parceiros europeus, a fome que nos espera se deixarmos de poder comer os transgénicos, o fecho de valências hospitalares, como a oncologia, o combate ao défice orçamental à custa de sucessivos aumentos de impostos. E, por outro lado, a basófia governamental a ostentar uma riqueza que não possuímos.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2007

O chefe-líder

Na sequência do tema tratado em Democratas ou ditadores?, transcrevo este texto extraído do blog Filhos de um deus menor:

O chefe que eu concebo

"O chefe que eu concebo é o homem completo, homem de coração, de razão, de vontade, que ama, julga e comanda" (Antoine Redier).
Onde é que há chefes assim?

Infelizmente a ânsia do poder nas sociedades de hoje não nos deixa chefes "concebidos" por "Antoine Redier".

Hoje encontram-se, isso sim, chefes neuróticos, com elevado sentido de desumanidade. Estes chefes neuróticos, quanto mais tolhidos se sentirem pelas suas inibições, tanto menos serão capazes de se impor. A verdade é que a ânsia do poder serve-lhes de protecção contra o risco de se sentirem ou serem considerados insignificantes, forjando assim uma ideia rígida e irracional do poder que lhes foi conferido por decreto - que os leva a convencerem-se de serem capazes de superar qualquer situação, dominando-a imediatamente por mais difícil que se apresente.

Estes chefes classificam os seus superiores, iguais ou inferiores hierárquicos em dois grupos; os «fortes» e os «fracos», admirando os primeiros e desprezando os segundos. Vão também ao extremo naquilo que consideram fraqueza. Sentem maior ou menor desprezo pelas pessoas que concordam consigo ou cedem aos seus desejos e por aqueles que mostram inibições ou não dominam as suas emoções por forma a manter sempre uma expressão impassível. Mas menosprezam igualmente essas qualidades em si mesmo, ao sentirem-se humilhados quando são forçados a reconhecer os seus «fantasmas» ou as suas inibições.

Tendem a julgar que têm sempre razão, e facilmente se irritam, ainda que em pormenores ínfimos, se lhes provarem que estão errados. Hão-de saber tudo melhor do que ninguém, atitude que, por vezes, se manifesta extremamente antipática.

Outra faceta característica do perfil deste tipo de chefes reside na exigência de tudo ser feito segundo a sua vontade. Tal exigência é susceptível de constituir fonte de incessante irritação se os que dependem de si não cumprem exactamente o que deles espera ou se o não fazem no preciso momento em que lhes é ordenado.

Uma das mais vulgares atitudes que integra este perfil de chefe reside na recusa a cedências. Têm dificuldade em estar de acordo com uma opinião de nutrem ou aceitar um conselho, ainda que seja considerado acertado, e a simples ideia de assim proceder desencadeia a rebelião. Os chefes em que prevalece esta atitude tendem a reagir contra tudo e, por estrito medo de ceder, assumem a posição inversa.

Mas o mais grave reside no facto de este tipo de chefes nem sempre terem verdadeira consciência das suas atitudes autoritárias ou, pelo menos, da sua importância. Não lhes convém reconhecê-las ou modificá-las, pois estas - atitudes autoritárias - desempenham para eles notáveis funções protectoras. Tão pouco os outros devem verificá-las: correriam o risco de, nessas circunstâncias, ficarem a dar ordens no deserto ou sozinhos na "parada". Deixando assim em crise as suas necessidades prementes de impressionarem, serem admirados e respeitados. Em crise também ficariam os seus desejos de deslumbrar os outros pela sua suposta inteligência e os seus notáveis dotes de comando.

Se considerarmos que muitas carreiras/nomeações profissionais ficam dependentes das informações de mérito dadas por chefes com tal perfil, facilmente se compreende que é necessário uma reflexão sobre muitos aspectos da actual realidade social/laboral.
«Comandar não é somente fazer-se obedecer, é acima de tudo exercer uma autoridade moral da ordem mais elevada» (Les Forces Morales, publ. Of. do M. G. da França)
Postado por Paulo Sempre

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