As dúvidas e críticas ao estatuto do aluno não são inovações. Os políticos portugueses já eram dotados de «mentes iluminadas» há mais de um século. Parece que nada piorou... nem melhorou!!! como se infere do seguinte texto da obra «Vida Irónica» de Fialho de Almeida (1857-1911):
-Senhor !
Por uma graciosidade especial dos funcionários a quem V.M. (Vossa Majestade) houve por bem encomendar a organização interna do Ministério de Instrução Pública e Belas Artes, pude percorrer esta manhã os cadernos de planos, os relatórios e minutas dos projectos de lei que aqueles ilustres homens têm preparada a grande obra da futura educação da mocidade, com uma largura de vistas que me espanta, atento o facto de Suas Exas. não terem senão dois olhos, e esses mesmos oftálmicos e piscos. Senhor, eu estou contente.
Dês que desfruto razão, é esse Ministério a primeira coisa assombrosamente perfeita que me é dado admirar no meu País. Como chegaram a construir tão sábios projectos, homens que nem sequer sabem ler ? Eis o que eu nunca me poderei explicar nitidamente.
Entretanto, como é sina da natureza humana o sempre haver quem ponha pecha às concepções mais impecáveis, aqui lhe venho acusar, meu Senhor, uma lacuna reconhecida por mim nos planos do novo Ministério, para que V.M. a preencha conforme os seus desejos de glória, e espírito magnânimo que sempre tem mostrado no respeitante à felicidade dos seus súbditos.
Meu Senhor, nas reformas de ensino planeadas pelo Sr. ministro de Instrução Pública falta a mais útil. Entre as escolas práticas a criar, esqueceu S. Exa a mais indispensável. Falta no orçamento da Instrução Pública, verba custeadora duma escola de roubo; falta nos cadernos do novo Ministério o projecto duma escola de assassinato.
Para as restantes profissões está tudo. Há professores que ensinam a fazer queijo, a montar a cavalo, a bordar a missanga, e a observar os olhos doentes. Há para a pintura, para cutilaria, para rendas e para partos. A todos os ramos da acção humana, o Estado vai dando guias, ateliers, e matrículas baratas. O ensino metódico e científico desceu até à aprendizagem dos carpinteiros e dos fabricantes de sapatos de liga. Há bacharelatos para tudo, só o Governo de V.M. deixa o ladrão desamparado, e o assassino ignorante e à mercê da sua própria imaginação.
sábado, 3 de novembro de 2007
O estatuto do aluno e a história
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A. João Soares
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Labels: ensino, estatuto, incoerência, insensatez, miiopia
quinta-feira, 1 de novembro de 2007
Confusões no ensino
Há pouco tempo era a confusão da TLEBS que nos proporcionou dois secretários de Estado a fazerem declarações, com muito calor, de sinais opostos, com poucos minutos de intervalo. Antes tinha sido o problema de os professores terem de passar todo o horário dentro das escolas, mesmo que não tivessem aulas calendarizadas para essas horas. Outros pomos de discórdia têm surgido, como o problema da violência escolar e o controlo da disciplina.
Agora o Diário de Notícias diz que o «PS recua no novo estatuto do aluno». O leitor fica sem perceber se «os alunos do ensino básico com excesso de faltas poderão ficar retidos no mesmo ano de escolaridade, caso não tenham aproveitamento na prova de recuperação. Na mesma situação, os estudantes do secundário serão excluídos da disciplina em que falharam a aprovação na prova» ou se haverá alteração desta proposta.
Qualquer recuo mostra humildade dos dirigentes que aceitam o seu lado humano de errarem. Mas evidencia também a sua incapacidade de analisar rigorosamente o assunto, por forma a decidir da forma mais correcta e inatacável que não obrigue a recuos. Tais erros são incongruentes dada a quantidade de assessores e de outros «trabalhadores» que superlotam os gabinetes e serviços afins. Seria suposto que a colaboração de tanta gente «bem escolhida» resultasse numa gestão impecável do ensino e da educação. Mas, pelos vistos, não é!
Se as faltas dos professores não devem ser negligenciadas, as dos alunos também não devem ser ignoradas. Os alunos devem aprender a ser responsáveis, a saber gerir as suas vidas de adultos que virão a ser. Para isso devem ser estimulados a estudar, embora, pelo que me dizem, os psicólogos defendem que não se devem forçar as crianças porque isso as traumatiza e impede que cresçam naturalmente. Mas, com a falta de valores, do culto pela excelência, do prestígio do saber, da meritocracia, teremos um futuro de ignorantes que só pensam na ostentação de riqueza, adquirida de qualquer forma. Exceptuam-se, certamente, uns poucos, curiosamente, de famílias onde ainda se respeita a ética, a moral e outros valores tradicionalmente válidos, que, por se distinguirem numa sociedade mal preparada, acabarão por ser alvos da inveja dos medíocres.
Muitas faltas e o abandono escolar poderia ser evitado com a reactivação das escolas técnicas de outrora, em que se formariam técnicos necessários à economia nacional. Hoje é reconhecido que o encerramento das escolas comerciais e industriais foi uma asneira crassa. Alegava-se que se condenavam as crianças a não seguirem para a universidade. Mas é errado porque temos muitos licenciados e até professores universitários oriundos dessas escolas.
Profissões como as de serralheiro, marceneiro, etc. aprendem-se na adolescência e não na vida adulta depois de se ter falhado na universidade, altura em que já não se tem disposição para ser aprendiz, por falta de humildade e de motivação.
A falta de preparação profissional metódica e sistemática resulta em Portugal ficar nas mãos de imigrantes que vêm fazer aquilo que os portugueses não querem ou não sabem fazer, acabando por haver desemprego ao mesmo tempo que termos cá muitos estrangeiros a trabalhar. Por isso, o futuro do país está em risco.
