Ao saber da decisão do Governo de não adoptar a ratificação por referendo popular e de a fazer pelo Parlamento, sinto que os meus argumentos ao referir-me ao tema em nota no post de 14 de Dezembro não eram descabidos nem desprovidos de lógica pragmática.
Porém, fiquei a lamentar a posição desagradável em que o primeiro-ministro ficou ao proceder de forma oposta ao que tinha prometido em campanha eleitoral. Tinha que apresentar justificação, mas esta não passou de uma obrigação protocolar, política, que poucos aceitaram intimamente. Também não lhe era oportuno confessar que recebeu muitas pressões dos seus pares europeus.
É mais uma lição de que mais vale a humildade de guardar a publicidade para depois da obra concluída do que prometer e criar expectativas que não serão esquecidas e criam situação indesejável quando goradas. De promessas está o inferno cheio e é grande o monte de cacos e ruínas de políticos que mentiram!
Além das promessas de criar emprego e de não aumentar impostos, veio agora esta aumentar o rol das falsas ilusões criadas aos eleitores que, levados por ideias fantasiosas, foram atrás de uma solução que criou uma maioria absoluta que, como tudo o que é absoluto, não é salutar.
E devido a esta desilusão em relação ao que tinha sido prometido, é que, muita gente critica a decisão sobre a ratificação do tratado, sem sequer pensar qual seria o valor acrescentado por um referendo em relação aos custos, de vária ordem, que ele acarretaria.
Por isso, se acho que a decisão foi a mais sensata, lamento que o primeiro-ministro tivesse feito uma promessa que acabou por não cumprir.
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Tratado de Lisboa ratificado na AR
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A. João Soares
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quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Sugerir esperanças cria responsabilidades
Já são passados cerca de 40 anos sobre a primeira «Conversa em Família» de Marcello Caetano, em que este teve a frontalidade de mostrar conhecer os problemas que preocupavam os portugueses, fazendo nascer a esperança de lhes dar solução.
Era um assumir de responsabilidades que podia ser a cedência a uma tentação ingénua. Um ano ou mais depois, numa outra conversa – passaram a realizar-se regularmente – veio dizer quase «ipsis verbis» o mesmo que tinha dito na primeira. Era uma confissão de fracasso, de que nada tinha melhorado desde então, uma desilusão.
Recordei esses tempos devido às notícias de hoje de que Cavaco Silva, nas visitas natalícias que vem fazendo, na sequência da sua campanha de combate à exclusão, ouviu alertas sérios sobre " a crescente degradação das condições de muitas famílias". As culpas foram atribuídas ao desemprego e aos empregos cada vez mais precários, que levam a que "quem tem de deixar de trabalhar para acompanhar um filho doente se veja de repente a braços com falta de dinheiro até para pagar a renda da casa". Qualificou o desemprego como "um fenómeno preocupante" e deixou no ar a ideia de que o tenciona abordar mais tarde.
Também, na companhia de D. José Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa, contactou com sem-abrigos com problemas graves de toxicodependência e alcoolismo.
Exortou à esperança, realçando o papel insubstituível do voluntariado e da sociedade civil e estimulando os técnicos e dirigentes a um melhor aproveitamento das boas vontades existentes e apelando aos poderes Central e Local para que ajudem o mais possível as entidades privadas de solidariedade social prestadoras de cuidados que, muitas vezes, o Estado não fornece. Trata-se de um "compromisso cívico" que irá reafirmar nos próximos três anos, até ao fim do seu mandato.
Aproveitou mais um dia do seu roteiro para a inclusão apelando ao governo central e às autarquias locais para "na medida do possível" terem uma atitude generosa em relação às instituições de solidariedade social. Quis deixar uma palavra de estímulo directo aos muitos voluntários que, com grande generosidade, tentam alterar no quotidiano situações de grande exclusão social em muitas instituições espalhadas pelo país que trabalham com idosos, deficientes, crianças e em todos outros domínios". Mostrou vários casos de sucesso e deixou claro, uma vez mais, que o combate à exclusão social "não é só uma tarefa do governo", mas sim "de todos os portugueses sem qualquer excepção."
Esperamos que Cavaco Silva não desista deste seu propósito, embora o êxito não seja imediato, mas são indispensáveis gestos positivos em cada momento. E é muito interessante a ideia de realçar que Portugal não é obra apenas de governantes, mas de cada um, «de todos os portugueses sem qualquer excepção», dentro das suas possibilidades.
Algumas das notícias:
Cavaco mostra exclusão entre a dor e a esperança
Desemprego e exclusão social preocupam presidente
Presidente apela a atitude generosa dos poderes públicos
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A. João Soares
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Labels: desilusão, esperanças, exclusão, inclusão, promessas
