A Caxemira tem sido uma fonte de preocupações e conflitos entre a Índia e o Paquistão e, recentemente, as notícias dão conta de mais um agravamento da crise.
Tudo começou com a independência da Índia que foi preparada, logo a seguir ao fim da II Guerra Mundial, tendo o último vice-rei, Lorde Mountbatten, proposto a divisão do país numa parte hindu e outra muçulmana. Depois de aprovado tal plano por ambas as partes, a União Indiana e o Paquistão obtiveram a independência como domínio em l947, estatuto que terminou em 1950.
Quando as duas partes foram separadas, as tensões entre hindus e muçulmanos eclodiram em chacinas maciças. O principado deCaxemira, no NO, junto da fronteira com o Tibete chinês, embora com população de maioria muçulmana, mas com um líder hindu, hesitou em unir-se à Índia ou ao Paquistão. Imediatamente os dois países entraram em guerra sobre a questão, que no entanto continua por resolver. A Caxemira tem sido um foco de tensão permanente entre os dois países, tendo estado na origem de duas das três guerras indo-paquistanesas.
Islamabade (Paquistão) reivindica a soberania sobre o único estado indiano de maioria muçulmana cuja integração na Índia, há 52 anos, se deveu à vontade da dinastia reinante, de religião hindu. Trata-se na essência de um conflito em que o factor religioso tem grande importância.
Depois do cessar-fogo entre a Índia e o Paquistão, estabelecido pela ONU em 1949, procedeu-se a uma divisão arbitrária do território do antigo principado, ficando o Paquistão a ocupar AZAD KASHMIR (Caxemira Livre), com 84.000 Km2 e 1,3 milhões de habitantes, com sede administrativa em Muzaffarabad. A estrada de Caracórum construída com auxílio Chinês, passa através desta região ligando o Paquistão com a província chinesa de Xinjiang. A região é dominada pelos importantes picos dos Himalaia, incluindo o k2 (8.611 m), a segunda maior altitude do mundo, a seguir ao Evereste.
A Índia ficou com a parte conhecida por JAMMU AND KASHMIR, com 138.995 Km2 e 6 milhões de habitantes. Tem duas capitais: Srinagar (capital de Verão), com 540.000 habitantes situada a 1.600 m de altitude, centro de comércio, agricultura e turismo estival, e Jammu (capital de Inverno), com 170.000 habitantes, no sopé dos últimos contrafortes do Himalaia. De SO para NE distinguem-se no seu relevo várias unidades fisiográficas: as planícies aluviais, a planície do sopé, o Himalaia e a cordilheira do Caracórum. O Grande Himalaia é constituído a NO por grande maciço cristalino que culmina no Nanga Parbat (8.125 m). As vertentes norte do Grande Himalaia descem sobre o vale do alto Indo originando desnível de mais de 5.000 m. Possui bosques frondosos. As principais actividades económicas são: exploração florestal, a criação de gado, lãs, frutas, milho, trigo, arroz e o turismo. A indústria é do tipo artesanal.
Uma parte do antigo principado, junto da fronteira com a China está ocupada por esta desde meados da década de 1950.
Na busca de uma solução para o conflito inicial, a ONU recomendou a realização de um referendo em que fosse tomada decisão sobre a autodeterminação, mas, mais de meio século depois, este continua por realizar. Esta é mais uma demonstração da falta de eficiência da mais alta instância internacional.
Como a Índia reivindica a totalidade dos 222.995 Km2 do Estado, embora só ocupe cerca de 60%, os combates reacenderam-se em 1965 e 1971.
A escalada da tensão na Caxemira iniciada no início de Maio de l999, com trocas de tiros de artilharia entre indianos e paquistaneses esteve relacionada com a penetração (versão de Nova Deli) de 400 a 600 «mercenários» («combatentes da liberdade» segundo os jornais paquistaneses) muçulmanos, armados por Islamabad. A necessidade de combater essa infiltraçâo levou em 26 de Maio a aviação indiana a intervir pela primeira vez na Caxemira.
Em 26 de Maio, foram abatidos dois aviões indianos (Mig 21 e Mig 27) e, em 27, um helicóptero por mísseis terra-ar paquistaneses, e a escalada da tensão na região subiu uma vez mais de nível e preocupou os aliados das duas partes Estados Unidos e China no caso do Paquistão, Rússia em relação à Índia. A França e o Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, exerceram pressão nos primeiros-ministros a fim de acalmarem os ânimos.
Esta situação era preocupante para o mundo porque os dois estados em conflito dispõem de capacidade nuclear, embora a Índia beneficie de vantagem militar.
A Índia (com 980 milhões de habitantes) realizou o seu primeiro teste nuclear em 1974 e mais cinco em l998, possuindo, segundo os especialistas, de 30 a 60 bombas equivalentes à de Hiroxima (20 Kt). Possui também mísseis balísticos com alcance de 2.000 a 2.500 Km (o Agni, fogo, cuja versão mais recente foi testada em Abril de 1999) e mísseis solo-solo com alcance de 250 Km (o Prithvi).
O Paquistão, com cerca de 130 milhões de habitantes, efectuou a primeira série de testes nucleares em Maio de 1998, sendo em l999 creditado pelos especialistas com uma dezena de cargas nucleares. Possui também mísseis solo-solo com alcance de cerca de 2.300 Km (o Ghauri II, uma versão testada em Abril de l999).
Também a nível do armamento convencional, segundo o Instituto de Estudos Estratégicos Internacionais de Londres, a Índia supera igualmente o Paquistão.
Quando ambos os Estados deslocaram para perto da fronteira meios de lançamento de armas nucleares, houve sério risco de ser iniciada uma troca de tiros nucleares o que teria resultados difíceis de calcular, devido ao efeito de escalada. Foi mais um motivo para os detentores de armas nucleares intensificarem as medidas tendentes à inibição da proliferação nuclear.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
Caxemira, um caso pendente
Posted by
A. João Soares
at
16:03
0
comments
Labels: Caxemira. conflito, referendo
sábado, 14 de junho de 2008
A União Europeia após o referendo da Irlanda
Transcreve-se este texto de Renato Nunes, emigrante nos Estados Unidos da América recebido por e-mail de Alô Portugal, pela análise perspicaz, realista e oportuna, de forma muito irónica, que faz da situação da União Europeia após o NÃO ao referendo da Irlanda.
Consórcio franco-germano
O "não" do povo irlandês foi "areia na engrenagem" da máquina criada pelo consórcio franco-germano que domina a Europa mas os dedicados lideres "europeus" não desistem e preparam já uma "alternativa 'C' "
Os burocratas e lacaios de Bruxelas, a começar por Barroso e a acabar em Sócrates sentem hoje um misto de pesar e de raiva.
Depois de tanto trabalho a alinhavar um Tratado que tão bem servia os interesses dos quatro grandes - Franca, Alemanha, Inglaterra e Itália - não e que os ‘marginais’ Irlandeses resolvem torpedear aquilo que Lisboa aconselhou e aprovou ?
Como se atreveram a tal? Como se atreveram a ter opiniões diferentes das dos seus lideres?
Já se conhecia - depois do que aconteceu em Franca e na Holanda há anos atrás - do perigo que é submeter a voto directo (pelo Povo) assuntos importantes, coisas como o futuro da hegemonia Franco-Alemã na Europa.
Então, para que servem os Parlamentos Nacionais cheios de políticos com saber e visão ?
Aí, ao menos os donos da U.E. contam com maiorias de políticos inteligentes e fiéis aos princípios do "Europeísmo" e que votam SIM nos projectos que lhes são enviados de Bruxelas para serem impostos para bem dos seus compatriotas.
Pois se vem de Bruxelas só pode ser bom !
Em Portugal é assim que se faz e o exemplo Lusitano devia ser seguido em toda a Europa.
Os sábios dirigentes de Portugal nunca sujeitariam um Tratado feito por gente genial, brilhante, ao voto de gente que não sabe o que quer.
Nos Parlamentos sim, não se correm perigos desnecessários.
Como tal, especialmente os partidos predominantes são os de Centro-Esquerda -- em Portugal PS & PSD - o voto é obviamente um SIM.
Para que correr riscos deixando nas mãos do Povo - quase sempre ignorante e desconhecedor do que é bom para ele, se não forem as Elites a dizer-lhe! - decisão que podem forçar a ter-se de arranjar nova forma de fazer passar o Tratado? É só para dar trabalho.
Pois amigos, já neste momento os valorosos e abnegados dirigentes Europeus se preparam para activar a "Alternativa 'C'" !
A tal que diz que bastara SIMPLES MAIORIA para que o Tratado possa ser imposto a todos os países membros e que não é necessário referendo popular, pois bastará o voto da maioria simples dos representantes eleitos pelo Povo.
Portanto, basta 14 Parlamentos votarem SIM e a coisa está concluída e aprovada sem entraves, nem surpresas.
Não se entende porque insistem ainda alguns políticos em querer o voto directo popular sabendo que as massas nem sabem sequer no que estão a votar e preferem ser lideradas do que ter que pensar e tomar decisões?
Então não se viu já que o Povo até é dado a reeleger uma vez e outra as maiores nódoas e vigaristas políticos nos seus países?
Eles não são difíceis de levar. É preciso é saber dar-lhes Pão & Circo na altura devida.
E que mais seria de esperar de gente de baixo nível mental e intelectual cujo comportamento é altamente previsível há anos?
O futuro da UNIAO EUROPEIA e das riquezas fabulosas que vai trazer aos grandes consórcios do Capitalismo Globalista Euro-Americano não pode ser refém de votos NÃO de alguns simplórios que pensam que são alguém!
Renato Nunes, Carolina do Sul, EUA
Posted by
A. João Soares
at
07:33
4
comments
Labels: democracia à europeia, referendo, UE
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Tratado de Lisboa ratificado na AR
Ao saber da decisão do Governo de não adoptar a ratificação por referendo popular e de a fazer pelo Parlamento, sinto que os meus argumentos ao referir-me ao tema em nota no post de 14 de Dezembro não eram descabidos nem desprovidos de lógica pragmática.
Porém, fiquei a lamentar a posição desagradável em que o primeiro-ministro ficou ao proceder de forma oposta ao que tinha prometido em campanha eleitoral. Tinha que apresentar justificação, mas esta não passou de uma obrigação protocolar, política, que poucos aceitaram intimamente. Também não lhe era oportuno confessar que recebeu muitas pressões dos seus pares europeus.
É mais uma lição de que mais vale a humildade de guardar a publicidade para depois da obra concluída do que prometer e criar expectativas que não serão esquecidas e criam situação indesejável quando goradas. De promessas está o inferno cheio e é grande o monte de cacos e ruínas de políticos que mentiram!
Além das promessas de criar emprego e de não aumentar impostos, veio agora esta aumentar o rol das falsas ilusões criadas aos eleitores que, levados por ideias fantasiosas, foram atrás de uma solução que criou uma maioria absoluta que, como tudo o que é absoluto, não é salutar.
E devido a esta desilusão em relação ao que tinha sido prometido, é que, muita gente critica a decisão sobre a ratificação do tratado, sem sequer pensar qual seria o valor acrescentado por um referendo em relação aos custos, de vária ordem, que ele acarretaria.
Por isso, se acho que a decisão foi a mais sensata, lamento que o primeiro-ministro tivesse feito uma promessa que acabou por não cumprir.
Posted by
A. João Soares
at
17:46
0
comments
terça-feira, 23 de outubro de 2007
Referendo para quê?
Os jornais de hoje mostram haver opiniões contraditórias quanto à conveniência ou não da realização de um referendo sobre o novo tratado da UE. Conviria que as pessoas com voz audível no assunto nos esclarecessem sobre o significado real do tratado e do referendo. O significado teórico deste é conhecido e aproxima-nos da Democracia directa, mas a realidade é frontalmente oposta.
Recordemos o que se passou com o referendo sobre a IVG. Os políticos disseram que, por ser um problema de grande sensibilidade, não o decidiam na AR e deixavam a decisão ao povo para exprimir os seus conhecimentos, experiências e sentimentos. Parecia uma posição séria, honesta, democrática. Mas não passou de um logro, porque esses mesmos partidos saltaram para a rua e fizeram uma campanha tão intensa que constituiu uma terrível pressão nas consciências dos eleitores para votar SIM ou NÃO conforme eles (políticos) queriam. O resultado correspondeu à vontade dos partidos e à «festa» da campanha, pesada para os dinheiros públicos, e que nada trouxe melhor do que se a decisão saísse da AR, pelo voto dos deputados.
Apesar dessa autêntica lavagem de cérebros e de violação das consciências, acabou por haver muitas abstenções porque as pessoas mais desconfiadas em relação aos políticos não quiseram fazer o jogo de uns ou de outros e ousaram recusar as pressões que os estavam a empurrar. Essa falta de confiança nos políticos tem sido notada em muitas eleições. Os políticos deixaram de representar a vontade dos eleitores e estes respondem com a abstenção ou votando em independentes, que embora sejam do mesmo naipe, não estão a jogar pelo partido. É uma atitude do povo, que não é tão burro como os políticos pensam.
Quanto ao referendo sobre a UE, se tiver lugar, será conveniente levá-lo a sério, com os partidos a manterem-se silenciosos deixando o povo ser espontâneo e sincero. Só assim terá significado. Mas há quem alegue que o povo não está esclarecido ao ponto de poder emitir um voto consciente e fundamentado. Nesse caso evite-se o referendo e toda a festa de campanhas demagógicas que apenas servem para gastar recursos vários e para treinar os «boys» e «girls» que iniciam o estágio para a carreira política de assessores, vereadores, deputados, e por aí acima, à imagem dos seus parentes e amigos da oligarquia reinante.
O jornalista Manuel António Pina, no Jornal de Notícias, refere «o argumento de Vital Moreira, porta-voz oficioso do Governo, contra o referendo: o Tratado é complicado de mais para a mente simples do "cidadão comum", se o "cidadão comum" tentar lê-lo não passa da segunda página. Acha Vital Moreira que os "cidadãos incomuns" que se sentam na AR lerão o Tratado de fio e pavio e só o votarão depois de o compreenderem. Ora só quem não conhece o espírito crítico e a independência e craveira intelectuais que vão pela AR é que não lhe dará razão.»
Quererá dizer que, com referendo ou sem ele, o tratado da UE será aprovado de cruz. Os vindouros arcarão com as boas ou más consequências deste novo tratado que agora foi congeminado pelos génios da Europa que não serão muito melhores do que a amostra que temos em casa!
Posted by
A. João Soares
at
09:34
9
comments
terça-feira, 28 de agosto de 2007
Abortos fora dos hospitais.
Notícia de hoje do JN «Aborto fora de hospitais a partir de Setembro» é um pouco surpresa e um pouco sinal e bom senso. Já não podemos acreditar em nada que tenha algo de política, mas esta promessa parece ser mais um recuo do ministro da Saúde. Se assim for, não lhe terá sido alheia a onda de reparos feitos pela população através das poucas vias de que dispõe e da mordaça e da ameaça impostas pelo Governo. Muitos blogs, incluindo este, se manifestaram contra a leitura abusiva que o Governo fez do referendo, mesmo que este tivesse sido incontestadamente válido. Dos posts aqui inseridos, deixo aqui os links, A, B, C e D.
É de esperar que o Governo também deixe de financiar, com o dinheiro de todos nós, essa realização de caprichos de mulheres sem qualidades maternais, ignorantes e desleixadas, que não foram capazes de utilizar de forma adequada os meios anticoncepcionais existentes. Não se trata de um problema de saúde, pois nem o espermatozóide é um vírus, nem a gravidez é uma doença, nem o feto é um cancro. O referendo era bem claro pois destinava-se a que se deixasse de considerar crime o aborto até à décima semana e que esse devia ser praticado em instituição adequada, isto para não serem julgadas as abortadeiras e para estas não porem em risco a própria vida ao abortarem às escondidas em locais de higiene duvidosa como garagens e sótãos.
Oxalá este recuo (mais um!) do ministro da Saúde não fique a meio, e reponha a moralidade (na medida do possível!) e a legalidade, ou legitimidade, em consonância com a letra do referendo e não desbarate o nosso dinheiro.
