segunda-feira, 16 de junho de 2008

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades

Do poeta insigne, e também sábio e filósofo Luís Vaz de Camões, um soneto que ajuda a compreender as realidades nacionais actuais. Outro português mais recente, defendendo que as mudanças devem ser feitas com sensatez para delas resultarem bons efeitos, disse que «mudar por mudar é disfarçar o vazio íntimo»

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Luís de Camões

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domingo, 15 de junho de 2008

Como vai a Justiça e a ordem pública?

Apanhado a guiar sem carta pela oitava vez

JN. 080615, Pedro Fontes da Costa

Um indivíduo, de 40 anos, residente na Palhaça, Oliveira do Bairro, foi ontem condenado a 12 meses de prisão efectiva por ter sido apanhado a conduzir pela oitava vez sem carta de condução.
Aquele indivíduo, desempregado, que, ontem, foi julgado em dois processos diferentes, mas relativos ao mesmo crime, ainda tem pendente a leitura de um processo e o julgamento de outro, relativos à prática do mesmo crime. Bem conhecido da GNR e do Ministério Público (MP) do Tribunal de Oliveira do Bairro, já foi condenado a penas de multa, prisão suspensa e efectivas, uso de pulseira electrónica mas, de acordo com a procuradora adjunta do MP, as medidas aplicadas não foram suficientes para acabar com a prática reiterada do crime de condução sem habilitação legal. "Arranja desculpas esfarrapadas, revelando um total desrespeito pela vida dos demais cidadãos, escudando-se sistematicamente na sua família para praticar o crime. Devia pensar no mau exemplo que está a dar aos seus filhos", afirmou a procuradora. Por sua vez, a juíza revelou que ele, além das oito vezes que foi detido a conduzir sem carta, foi condenado três vezes por furto e outra por desobediência, pelo que, referiu, "atendendo à personalidade do arguido, a pena de prisão de 12 meses não se suspende. Espero que se consciencialize de que não há impunidade", disse. O arguido confessou os crimes. Disse ser melhor condutor do que muitos encartados e que se sente perseguido pela GNR. "Conduzo sem carta por necessidade. Não é para ir à discoteca, mas para levar os meus filhos, quatro menores, ao hospital ou ir à farmácia", sublinhou.

NOTA: Justiça dissuasora? Justiça educadora? Justiça para a segurança dos cidadãos cumpridores? Ou justiça punitiva? O que se passa no País e como interpretar o sistema? Porquê não impedir tanta repetição da infracção?
O próprio título da notícia é preocupante, pois coloca a tónica em ter sido APANHADO e não em ter conduzido sem carta. O crime é deixar-se apanhar?

Afinal, a carta de condução é mesmo imprescindível? Segundo o gosto que o MAI tem mostrado pelas estatísticas, este caso demonstra, estatisticamente, que o que é perigoso é ter carta de condução, pois este homem não teve acidente e considera-se bom condutor, e a (talvez?) totalidade dos acidentados possui carta!!!

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sábado, 14 de junho de 2008

Militares em foco

A fim de contribuir para um melhor esclarecimento do tema abordado no post «Outrora, demos novos mundos ao mundo» transcrevo o seguinte artigo do DN de hoje, para o qual se espera que os militares tragam mais comentários do que naquele post, a fim de aprofundar a análise do tema.

Uma reforma mal explicada

Alexandre Reis Rodrigues, vice-almirante na reforma

Um dos objectivos da anunciada reforma na estrutura da Defesa, cujas orientações constam da Resolução do Conselho de Ministros n.º 39, de 7 Fevereiro 2008, é, usando palavras do ministro da Defesa Nacional, "reforçar a capacidade de resposta operacional das Forças Armadas ao novo ambiente estratégico". Este objectivo pressupõe, como é óbvio, que a capacidade actual é considerada insuficiente.

Se a iniciativa se referisse a meios para dar às nossas forças a mobilidade e prontidão que o actual ambiente de segurança exige e que, nos seus actuais termos, não permitem a Portugal observar a meta recomendada pela NATO (40% das forças devem ter condições de emprego no exterior), o assunto ficava esclarecido.

Mas não é disso que se trata: o que a prevista reforma prevê para essa área é a criação de um novo comando operacional conjunto e o reforço das competências operacionais do Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA).

Fica, no entanto, por perceber de que más experiências de actividade operacional no passado decorre essa necessidade. Não vejo o que possa ser referido no que respeita à actividade interna, que está limitada ao emprego em missões de interesse público; nem sequer imagino que se queira envolver pessoalmente o responsável máximo pela estrutura militar da Defesa na fiscalização da pesca e busca e salvamento ou tarefas similares de rotina, que, sem razões de queixa, têm, desde sempre, permanecido ao nível dos comandos operacionais dos ramos.

Situações como a da traineira Luz do Sameiro [cujo naufrágio, a 29 de Dezembro de 2006 e a poucas dezenas de metros de uma praia próxima da Nazaré, causou a morte de cinco pescadores] ou outras idênticas, como ficou provado, não tiveram absolutamente nada a ver com deficiências na estrutura de comando operacional das Forças Armadas.

Não vejo, também, como o assunto se possa aplicar a intervenções no exterior; só em caso de intervenção autónoma, fora do quadro da NATO ou da União Europeia, é que as forças se mantêm sob comando nacional. Porém, este tipo de situação, depois do 25 de Abril, só aconteceu uma vez com dimensão e importância política justificativa de envolvimento pessoal do CEMGFA (Guiné, Verão de 1998) e não gerou qualquer recomendação de um novo órgão de comando militar.

Noutros contextos, o procedimento estabelecido implica transferir o comando das forças para a autoridade internacional responsável, ficando para o CEMGFA o papel de acompanhamento do seu emprego, para salvaguardar as condições em que foi feita a atribuição. O apoio logístico é uma tarefa que ninguém defende dever sair das mãos dos chefes de estado-maior dos ramos.

É natural, por isso, a perplexidade com que vários sectores encaram a decisão de despender recursos na criação de um novo órgão de comando operacional que não vem preencher qualquer lacuna ou resolver deficiências nem pode substituir os dos ramos.

Se alguma vez houve dificuldade ou menor rapidez na tomada de decisão do emprego de forças, uma das razões invocadas, nunca esse problema se situou na estrutura militar da Defesa.

O outro "cerne desta reforma", continuando a usar as palavras do ministro da Defesa Nacional, "é o reforço dos poderes do CEMGFA" com autoridade para harmonizar os projectos orçamentais e de reequipamento dos ramos. Convinha explicar o que significa, na prática, este novo tipo de autoridade e sobretudo clarificar porque pretende o Governo abdicar da responsabilidade de assumir o diálogo que lhe cabe ter com os chefes dos ramos, que são os que detêm o conhecimento especializado dos diversos assuntos, sobre as prioridades a observar e o modo prático de as encarar, deixando essa tarefa, contra o que é habitual na maioria dos países, ao CEMGFA.

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A União Europeia após o referendo da Irlanda

Transcreve-se este texto de Renato Nunes, emigrante nos Estados Unidos da América recebido por e-mail de Alô Portugal, pela análise perspicaz, realista e oportuna, de forma muito irónica, que faz da situação da União Europeia após o NÃO ao referendo da Irlanda.

Consórcio franco-germano

O "não" do povo irlandês foi "areia na engrenagem" da máquina criada pelo consórcio franco-germano que domina a Europa mas os dedicados lideres "europeus" não desistem e preparam já uma "alternativa 'C' "

Os burocratas e lacaios de Bruxelas, a começar por Barroso e a acabar em Sócrates sentem hoje um misto de pesar e de raiva.

Depois de tanto trabalho a alinhavar um Tratado que tão bem servia os interesses dos quatro grandes - Franca, Alemanha, Inglaterra e Itália - não e que os ‘marginais’ Irlandeses resolvem torpedear aquilo que Lisboa aconselhou e aprovou ?
Como se atreveram a tal? Como se atreveram a ter opiniões diferentes das dos seus lideres?
Já se conhecia - depois do que aconteceu em Franca e na Holanda há anos atrás - do perigo que é submeter a voto directo (pelo Povo) assuntos importantes, coisas como o futuro da hegemonia Franco-Alemã na Europa.

Então, para que servem os Parlamentos Nacionais cheios de políticos com saber e visão ?
Aí, ao menos os donos da U.E. contam com maiorias de políticos inteligentes e fiéis aos princípios do "Europeísmo" e que votam SIM nos projectos que lhes são enviados de Bruxelas para serem impostos para bem dos seus compatriotas.
Pois se vem de Bruxelas só pode ser bom !
Em Portugal é assim que se faz e o exemplo Lusitano devia ser seguido em toda a Europa.
Os sábios dirigentes de Portugal nunca sujeitariam um Tratado feito por gente genial, brilhante, ao voto de gente que não sabe o que quer.

Nos Parlamentos sim, não se correm perigos desnecessários.
Como tal, especialmente os partidos predominantes são os de Centro-Esquerda -- em Portugal PS & PSD - o voto é obviamente um SIM.
Para que correr riscos deixando nas mãos do Povo - quase sempre ignorante e desconhecedor do que é bom para ele, se não forem as Elites a dizer-lhe! - decisão que podem forçar a ter-se de arranjar nova forma de fazer passar o Tratado? É só para dar trabalho.

Pois amigos, já neste momento os valorosos e abnegados dirigentes Europeus se preparam para activar a "Alternativa 'C'" !
A tal que diz que bastara SIMPLES MAIORIA para que o Tratado possa ser imposto a todos os países membros e que não é necessário referendo popular, pois bastará o voto da maioria simples dos representantes eleitos pelo Povo.
Portanto, basta 14 Parlamentos votarem SIM e a coisa está concluída e aprovada sem entraves, nem surpresas.

Não se entende porque insistem ainda alguns políticos em querer o voto directo popular sabendo que as massas nem sabem sequer no que estão a votar e preferem ser lideradas do que ter que pensar e tomar decisões?
Então não se viu já que o Povo até é dado a reeleger uma vez e outra as maiores nódoas e vigaristas políticos nos seus países?
Eles não são difíceis de levar. É preciso é saber dar-lhes Pão & Circo na altura devida.
E que mais seria de esperar de gente de baixo nível mental e intelectual cujo comportamento é altamente previsível há anos?

O futuro da UNIAO EUROPEIA e das riquezas fabulosas que vai trazer aos grandes consórcios do Capitalismo Globalista Euro-Americano não pode ser refém de votos NÃO de alguns simplórios que pensam que são alguém!

Renato Nunes, Carolina do Sul, EUA

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sexta-feira, 13 de junho de 2008

Mais um caso de jovens válidos

Na sequência de posts acerca de sinais positivos vindo das gerações mais novas, trago aqui este que acho interessante quanto a criatividade e inovação nas ideias e projectos sociais.

Segundo notícia do DN, Estudantes projectam hotel de turismo étnico no bairro problemático da Cova da Moura, no concelho da Amadora.

Quarenta alunos do terceiro ano de arquitectura da Universidade Autónoma de Lisboa deslocaram-se a este bairro, para elaborarem um trabalho de Arquitectura em que criam um hotel de turismo étnico que possa lançar uns ares de contemporaneidade naquele bairro carenciado.

Os professores Madalena Menezes e Manuel Vicente, tiveram a ideia e propuseram a jovens futuros arquitectos do terceiro ano imaginar um equipamento com funções culturais e lúdicas, capaz de aproximar os moradores e os visitantes de uma zona que era desconhecida de todos eles.

Da primeira visita todos ficaram sensibilizados pelo desequilíbrio contrastante entre o interior e o exterior do bairro, e também pelo "ar genuíno" e pela "vivência de rua" da comunidade local, maioritariamente oriunda de Cabo Verde e com escassos recursos financeiros.

Como disse o professor Manuel Vicente "Quisemos levar-lhes a modernidade, a contemporaneidade, para que a Cova da Moura pudesse transformar-se a partir de dentro, com as pessoas a quererem mudar e a olhar para o bairro como um sítio agradável e confortável". Acrescenta que "Isto foi apenas um exercício, mas seria óptimo que houvesse um investidor inteligente com vontade de introduzir pequenos focos de 'infecção' como este, que fossem trabalhando o tecido existente segundo uma transformação orgânica, sem 'colonizadores' do exterior".

Um dos alunos, João Simões, cujo trabalho encantou a Associação Cultural Moinho da Juventude - uma das mais conhecidas da zona -, foi um dos estudantes a responder ao desafio, tentando criar um "espaço público de referência" que pudesse servir de exemplo às restantes construções e inserir os hóspedes entre os residentes.

Fascinado por um edifício localizado no interior de um dos principais quarteirões da Cova da Moura e por um pequeno largo resguardado junto ao mesmo, o estudante concebeu vários volumes, ocupados sobretudo por quartos diferenciados (de 'singles' a apartamentos para famílias), um café aberto para duas ruas, um restaurante, uma florista, um supermercado, um banco, uma livraria de consulta livre e uma sala polivalente que se poderia transformar em auditório e abrir para a praça.

Uma piscina com vista para o bairro, no topo de um dos edifícios, e dois longos bancos e uma grande árvore, no largo resguardado pelas construções, reforçam a intenção de evitar qualquer afastamento entre visitantes e moradores.

"Neste bairro a vida parece realmente funcionar. Talvez o que falte é um espaço de celebração desta comunidade, um espaço onde se possam reunir, festejar", escreve João Simões na descrição do seu trabalho, que, a par das propostas dos colegas, poderá ser hoje conhecido na Cova, durante a celebração da festa cabo-verdiana "Kolá Son Jon".

Haverá entre os moradores do bairro capacidade para angariar fundos para um investimento como o imaginado por João Simões? Ou haverá algum investidor estanho ao bairro que queira abraçar a ideia e dar um salto pela positiva na recuperação da imagem do bairro? Falar mal de um bairro problemático é fácil, mas também não parece difícil apoiar a sua modernização, colaborando na melhoria das condições de vida e convívio dos seus residentes e visitantes. Só é preciso vontade e coragem. Há investimentos com maior risco.

Deixo aqui os links dos três últimos posts sobre as potencialidades dos jovens. No post mais antigo podem ser encontrados links de muitos outros posts.

- Jovens em voluntariado louvável
- Jovens excepcionais
- Jovens válidos são esperança para o País

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O erário quer rigor e exigência

Cavaco exortou os portugueses a serem rigorosos e exigentes e lembrou que um país "onde as instituições não sejam fiáveis, que não cresça e não inove" dificilmente vencerá. Não foi por acaso e sem intenção que pronunciou tais palavras. Elas são necessárias para alertar os cidadãos da volta urgente a dar aos hábitos de desperdício, com fanfarronice, ostentação, vaidade e parolice, tudo condimentado com irresponsabilidade e falta de rigor. Os casos que servem de suporte a esta afirmação são inúmeros e apenas se citam alguns.

A empresa Metropolitano de Lisboa pagou 16,4 milhões de euros de prémios por antecipação do prazo de conclusão das obras na empreitada de extensão da Linha Azul a Santa Apolónia, que demorou 12 anos a fazer e derrapou 1358 dias. Onde está o prazo antecipado, que justifica prémios?

O túnel do Metro que liga o Terreiro do Paço a Santa Apolónia além de ter demorado 12 anos a ser construído, teve uma derrapagem financeira de 65,7%. Foi estimado em 47,3 milhões de euros, acabou por custar 78,4 milhões (diferença de apenas 31,1 milhões!) e deixou o Metropolitano endividado. Os valores finais da factura do prolongamento da linha constam de uma auditoria do Tribunal de Contas (TC), que alerta para a possibilidade de Bruxelas vir a reclamar os fundos concedidos para a concretização, no montante total de 113 milhões de euros. Além do mais, o TC constatou que várias obras para construção do túnel Terreiro do Paço/Santa Apolónia foram adjudicadas por ajuste directo, sem salvaguardar o princípio da concorrência.

Segundo o PÚBLICO de 12 do corrente o Ministério da Justiça vai pagar, nos próximos dez anos, quatro milhões de euros pelo aluguer de um edifício novo que custou 1,8 milhões de euros (menos de metade do aluguer pago pelo Estado), onde vai instalar um tribunal, em Guimarães. O imóvel em causa acolhe o Tribunal de Varas Mistas de Guimarães e o contrato de arrendamento foi celebrado entre o Ministério da Justiça (MJ) e uma empresa de investimentos turísticos. O edifício é propriedade da Algarvau, uma empresa de investimentos turísticos sedeada em Lisboa, que o arrendou ao Instituto de Gestão Financeira e Patrimonial da Justiça a troco de uma mensalidade de 33.750 euros. A empresa arrendatária continuará proprietária do edifício no final do contrato, contra uma sugestão da Direcção-Geral do Património (DGP). Curiosamente, apesar de ter sido a JAG a construtora concorrente vencedora, o contrato de arrendamento foi assinado com outra empresa, a Algarvau!

A quantidade de dinheiro mal gasto em obras públicas cujos custos derraparam de uma forma escandalosa é impressionante, como a reabilitação do túnel ferroviário do Rossio, a extensão do metro a Santa Apolónia, a ponte Europa sobre o Mondego, a Casa da Música e a ampliação do Aeroporto Sá Carneiro. Mas as más tradições de incúria de um Estado esbanjador e estroina vêm de longe, de algumas décadas atrás, havendo ainda memória do Centro Cultural de Belém.

Custa muito saber que, em momento de crise tão aguda, estamos na contingência de ter de devolver a Bruxelas os 113 milhões de euros de financiamento ao túnel do Terreiro do Paço a Santa Apolónia, por causa da incompetência do dono da obra que assinou contratos em que a União Europeia detectou irregularidades e deficiências. E não são exigidas responsabilidades pessoais a quem comete tais falhas!

Os líderes políticos costumam do alto da sua arrogância afirmar que têm responsabilidade política, sem nunca explicarem ao bom povo o que esse conceito representa, de palpável. Os portugueses, a Nação, o País, têm o direito de ser exigentes e rigorosos na avaliação do desempenho dos seus eleitos, porque, como Cavaco Silva nos transmitiu, o Estado não pode continuar a ser uma instituição que não é fiável.

Depois de vários casos sob suspeita que proporcionaram ao PR o alerta para a exigência e o rigor, é de esperar que os agentes do Estado sejam mais cuidadosos nos investimentos prometidos com a alegação de se destinarem a tentar estimular o crescimento, e que vão desde as estradas, às barragens e aos hospitais, num momento em que a economia portuguesa está a arrefecer rapidamente e precisa de ser estimulada. São muitos milhões, mas que só deverão começar a produzir efeitos em 2009. Só as obras já anunciadas envolvem 12,5 mil milhões de euros.

Siga-se o exemplo da Noruega, referida no post anterior, no respeito pelo dinheiro público.

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Noruega e a boa gestão do dinheiro público

Transcrição de post do blog Caçoada, por constituir um exemplo de boa gestão do dinheiro público em benefício da população sem preocupações de ostentações insustentáveis.

NORUEGA... UM EXEMPLO... E QUE EXEMPLO!

"Na Noruega, o horário de trabalho começa cedo (às 8 horas) e acaba cedo (às 15.30). As mães e os pais noruegueses têm uma parte significativa dos seus dias para serem pais, para proporcionar aos filhos algo mais do que um serão de televisão ou videojogos. Têm um ano de licença de maternidade e nunca ouviram falar de despedimentos por gravidez."
"A riqueza que produzem nos seus trabalhos garante-lhes o maior nível salarial da Europa. Que é também, desculpem-me os menos sensíveis ao argumento, o mais igualitário. Todos descontam um IRS limpo e transparente que não é depois desbaratado em rotundas e estatuária kitsh, nem em auto-estradas (só têm 200 quilómetros dessas «alavancas de progresso»), nem em Expos e Euros."

"É tempo de os empresários portugueses constatarem que, na Noruega, a fuga ao fisco não é uma «vantagem competitiva». Ali, o cruzamento de dados «devassa» as contas bancárias, as apólices de seguros, as propriedades móveis e imóveis e as «ofertas» de património a familiares que, em Portugal, país de gentes inventivas, garantem anonimato aos crimes e «confundem» os poucos olhos que se dedicam ao combate à fraude económica."
"Mais do que os costumeiros «bons negócios», deviam os empresários portugueses pôr os olhos naquilo que a Noruega tem para nos ensinar. E, já agora, os políticos. Numa crónica inspirada, o correspondente da TSF naquele país, afiança que os ministros não se medem pelas gravatas, nem pela alta cilindrada das suas frotas. Pelo contrário, andam de metro, e não se ofendem quando os tratam por tu. Aqui, cada ministério faz uso de dezenas de carros topo de gama, com vidros fumados para não dar lastro às ideias de transparência dos cidadãos. Os ministros portugueses fazem-se preceder de batedores motorizados, poluem o ambiente, dão maus exemplos e gastam a rodos o dinheiro que escasseia para assuntos verdadeiramente importantes."

"Mais: os noruegueses sabem que não se «projecta o nome do país» com despesismos faraónicos, basta ser-se sensato e fazer da gestão das contas públicas um exercício de ética e responsabilidade. Arafat e Rabin assinaram um tratado de paz em Oslo. E, que se saiba, não foi preciso desbaratarem milhões de contos para que o nome da capital norueguesa corresse mundo por uma boa causa."

"Até os clubes de futebol noruegueses, que pedem meças aos seus congéneres lusos em competições internacionais, nunca precisaram de pagar aos seus jogadores 400 salários mínimos por mês para que estes joguem à bola. Nas gélidas terras dos vikings conheci empresários portugueses que ali montaram negócios florescentes. Um deles, isolado numa ilha acima do círculo polar Árctico, deixava elogios rasgados à «social-democracia nórdica». Ao tempo para viver e à segurança social."

"Ali, naquele país, também há patos-bravos. Mas para os vermos precisamos de apontar binóculos para o céu. Não andam de jipe e óculos escuros. Não clamam por messias nem por prebendas. Não se queixam do «excessivo peso do Estado», para depois exigirem isenções e subsídios."

É tempo de aprendermos que os bárbaros somos nós. Seria meio caminho andado para nos civilizarmos.

Recebido por email.

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quinta-feira, 12 de junho de 2008

Iluminismo do século XXI - 2

Trago aqui mais um texto de Manuela, a precursora do Iluminismo do século XXI, que nos incita a meditar em aspectos essenciais da vida da humanidade e a procurar respostas para as suas dúvidas. Um desafio aos comentadores de blogs.

Iluminismo, Ilusionismo ou "Iluminatismo"?

Às vezes, depois de passar horas a ler posts em blogs interessantes, comentando aqui e ali, "linkando" de link em link (até me perder da página onde comecei), absorvendo informação desconhecida, outra que reconheço, mas sob diferentes pontos de vista, dou comigo a pensar… sim, também me acontecem destas coisas…!

Até onde e quando serei capaz de argumentar sobre um Mundo ideal, já nem sei se cristão nos seus princípios, e conciliar as minhas ideias com os meus desejos de progresso e de desenvolvimento de um país, que é o meu, mas que se me revela quase desconhecido?

Até quando irei conseguir resistir a uma propaganda, utilizada de forma tristemente admirável por extremistas de um passado recente, aperfeiçoada para que "conquiste adeptos", e continuamente repetida por mãos de mestres que a manipulam de forma quase perfeita? Uma propaganda que me tenta convencer que a Salvação do Mundo em que vivo, e a concretização dos meus ideais, só é possível através da construção de um governo global, uniforme, previsível e regular, (ou seja, "formatado" sob uma "ordem" internacional)!? Supostamente, um governo menos individualista e mais participante por meio de organizações multilaterais, também elas, supostamente prestigiadas e eficazes… Se estas não ficassem reféns de interesses de Estados ou de indivíduos mais poderosos, o meu cepticismo não seria tão grande…

Como vou continuar a defender ideais liberais e democráticos, que julgo saber (re)conhecer, precursores de uma sociedade onde a solidariedade, a igualdade de oportunidades, de raças e de sexos imperem, sob a ameaça simultânea e constante de uma teoria profética que, tal como todas as profecias, "se cumprirá", e que dita que o meu Mundo é regido apenas por poderes políticos e económicos? Na verdade, se for reler as decisões, tomadas por gente sábia e "voluntariosa", sobre a universalidade dos direitos do Homem, sobre a intervenção humanitária em cenários de guerra, sobre o falhado Protocolo de Quioto ou, ainda, sobre o "stand-by" do desarmamento ou… ou… a minha desilusão aumenta.

Estupefacta, chego à conclusão que, sem me ter apercebido, tenho vivido num Mundo esotérico e oculto, instruído por doutrinas secretas e, dependendo da subjectividade ou emotividade de cada um, assustadoras pelas suas coincidências ou, então, únicas salvadoras condicionadas por uma fé inquestionável… mas, por fim, castradoras da liberdade (sem medo) de expressão ou, até mesmo, do pensamento. Afinal, o destino está traçado, não apenas nas linhas da mão ou nas borras do café turco, mas também nos textos bíblicos onde é "lida" e "anunciada" a chegada do Anticristo (embora este, ao longo dos séculos, já tenha nascido e ressuscitado diversas vezes)…

Ou, optimista, talvez viva, "apenas", rodeada de bem elaboradas técnicas de Marketing, com resultados estatísticos bem visíveis, que propõem a contínua satisfação do potencial consumidor através dos 4 P's:

-desenvolver o Produto e diferenciá-lo dos outros,
- sondar quanto o consumidor está disposto a Pagar, (ou, neste caso, a vender de si próprio),
- distribuir pelo Ponto de venda mais rentável e, finalmente,
- Promover esse produto.

Cada um de nós, Seres pensantes e críticos, fará, a seu modo, a leitura destes 4 P's e far-lhe-á a legenda que mais lhe convém, pois sabemos há muito, muito tempo, que é o PODER da Comunicação, da Informação, da Publicidade, leia-se Propaganda, seja ele subliminar, persuasivo ou ostensivo, o factor principal de promoção do produto perante o potencial "cliente". Satisfazendo as suas necessidades fantasistas vai, lentamente, seduzindo e penetrando no âmago das suas emoções.

Com um misto de sentimentos, noto que não importa a qual destes "sub-mundos" já direccionados, proféticos e potenciadores de emoção me vou submeter. Sempre terei de arcar com as consequências da minha escolha e, de entre elas, destaca-se uma, que neste caso importa referir, que é a castração da faculdade que me diferencia dos outros animais, o pensamento racional e lógico, aquele que me tentam roubar pela homogeneização de ideias, princípios, valores, crenças e comportamentos…

Ilusão ou realidade?
Estarei "iluminada" pela Luz da Razão, ou estarei a ser iludida pela "Luz" que me querem fazer ver?

Manuela

NOTA: Porque não conciliar as suas ideias com a média geométrica das ideias alheias? Em vez de querer conciliar estas com as suas? Compreendo que as nossas ideias são mesmo nossas, embora tenham nascido e crescido com aquilo que ficou do muito que soubemos e fomos esquecendo. Nada nasce por acaso, mas não é seguro mudar de ideias ao sabor de ideias alheias, porém estas sempre deixam uma poeira que fica a cobrir os nossos apontamentos e os vão deformando, obrigando-os a modernizar-se. E é desse pó, que todos vamos deixando, que há-de vir o iluminado que criará a doutrina do novo mundo.

O mundo é sempre desconhecido, ou dito de outra maneira, é diferente a cada momento, e já não é o que conhecíamos antes. A estrutura do nosso conhecimento não pode ser rígida, mas flexível para assimilar as mudanças que ocorrem em permanência, em nosso redor.

Único e global ou plural, um governo deve resultar da vontade dos eleitores, ou não se tratasse de democracia. E deve ter sempre presente que a sua missão é criar melhores condições de vida para esse povo trabalhador e que precisa de ter confiança nos eleitos. E estes não são tão bons em Marketing como possa parecer, pois, se o fossem, não criariam tanto descontentamento nos eleitores, naqueles a quem devem dar felicidade. A aparente valia da propaganda resulta da apatia, indiferença e ausência de sentido crítico do povo que não confia na própria capacidade de intervenção, mas que, apesar do seu aparente adormecimento, silenciosamente, se vai preparando para obter eficácia. E, quando isso acontecer…!

Nesta análise que a autora faz de múltiplos cenários, em bom estilo de «brainstorming», com que se iniciam as reflexões que precedem grandes estudos, ressalta uma certeza, a de que os poderosos são obcecados pela manutenção das suas prerrogativas, e esta é a essência da estratégia que tudo condiciona, pisando os cidadãos tal como o futebolista pisa a relva do estádio sem nela pensar minimamente. E para essa estratégia entra em perfeito conluio, mais ou menos discreto, o poder económico, em permanente jogo de influências, troca de favores e de gratidões, que acaba sempre nos «tachos dourados», um pouco como no «apito dourado».

E, a propósito da referência discreta a projectos de poder mundial único, verifica-se que a literatura publicada cita uma união muito íntima entre os poderes político, financeiro, económico, comunicação social, monarquias reinantes, etc. Também há estruturas de índole religiosa, e de formato iniciático, com traços de hierarquia e de disciplina parecidos com instituições militares ou clericais.

Depois destas tentativas de incursões nas dúvidas citadas pela autora, concluo que elas têm razão de ser e que este seu trabalho constitui um índice da sua tese de doutoramento, que precisa de ser mais sistematicamente ordenado e, depois, aprofundado em cada capítulo, de forma coordenada, coerente, sem perder o rumo para o objectivo que talvez seja a conclusão sobre a definição do que desejará ser o mundo dos próximos anos, aquele que deve absorver todas as energias criativas e inovadoras dos iluministas do século XXI. Há mais de século e meio, apareceram uns poucos teóricos que traçaram uma concepção do mundo que deu muito que falar e que ainda hoje tem apoiantes que encontram nela muito de válido. É altura de aparecer um grupo de teorizadores que criem uma nova concepção que dê esperanças aos seres humanos mais carentes de segurança e perspectivas futuras. Sem esperança não é fácil encarar o futuro.

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quarta-feira, 11 de junho de 2008

Frases idiomáticas e a língua portuguesa

Transcreve-se carta de António Brotas publicada no Expresso de 080607

A evolução da língua ou, a "ota" de Vasco da Graça Moura

A língua portuguesa evolui de um modo diferente nos vários países em que é falada.
E às vezes muito rapidamente.

É assim duvidoso que os brasileiros recém chegados a Portugal tenham podido compreender o título "Uma ota ortográfica", do artigo publicado em 28 de Maio no "Público", por Vasco da Graça Moura. É possível que, daqui a dez anos, os dicionários dêem à palavra "ota" o significado com que VGM desde já a usa. Se tal suceder, como co-autor do livro "O Erro da Ota", ficarei muito honrado por ter contribuído para o enriquecimento da língua portuguesa (em Portugal). É, no entanto, provável que a palavra só tenha uso na linguagem corrente com o significado de "elefante branco", tal como "Convento de Mafra", "estádios de futebol", ou mesmo "Porto de Sines" (neste último caso injustamente porque o Porto de Sines ainda pode ser um dos factores importantes do nosso desenvolvimento). Tudo expressões que os falantes dos outros países não compreendem.

Nem sei se os angolanos, por exemplo, dizem "elefante branco".
Possivelmente, um dia dirão: "pakassa negra", ou algo no género, escrevendo com K. Nada disto é importante, nem pode ser significativamente alterado, nem para melhor, nem para pior, pelo anunciado acordo ortográfico.

O que pode ser grave e prejudicar a língua são algumas medidas recentes tomadas por entidades que a deviam defender. Todos sabemos que as crianças têm uma grande capacidade para aprenderem línguas e as esquecerem logo a seguir. Algumas são capazes de aprender inglês com os bonecos animados. Nas nossas escolas o inglês, que tem uma gramática rudimentar, passou a ser ensinado antes dos alunos dominarem minimamente a gramática portuguesa bastante mais complexa. Como ninguém espera que eles vão para o recreio conversar em inglês com o inglês que lhes ensinam nas aulas, o resultado pode ser, unicamente, o de muitos deles nunca mais aprenderem os verbos portugueses.

O Ministério da Educação devia mandar fazer uma muito séria avaliação dos efeitos deste ensino.

Registe-se, que num curso de português para estrangeiros na Faculdade de Letras de Lisboa, foi suprimida nos verbos a segunda pessoa do plural. Se os diplomados por este curso forem à aldeia da Beira onde nasceu Eduardo Lourenço e ouvirem, por exemplo, a pergunta "ides a Lisboa?", julgarão que lá se fala um português incompreensivel e degradado.

António Brotas
co-autor do livro "O erro da Ota"

NOTA: A língua viva nem sempre é totalmente clara, tendo cada grupo, local ou profissional, termos próprios que podem ser tidos por idiomáticos e, com o decorrer do tempo, ser compreendidos pelos estranhos ao grupo. É o caso de Ota, elefante branco, etc. Os termos de comparação, de referência, numa data podem não ser entendidos em datas posteriores. Ao ler escritos antigos, muitas vezes me interrogo: o que quis significar com isto? Era apenas uma referência ao um acontecimento da época.
Mas merece mais reflexão a referência de A. Brotas ao ensino, em que deve ser dada mais atenção aos efeitos obtidos e compará-los com os que são desejados, a fim de serem introduzidas as correcções convenientes. A procura da excelência deve ser permanente.

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Encontro dos Combatentes, 2008

Transcrição da alocução proferida pelo Sr. Professor universitário Doutor João César das Neves na sessão comemorativa. Não faço qualquer introdução ou nota final, porque o autor é bem conhecido e o texto está perfeito, não carecendo de apreciação minha. O meu sincero bem-haja ao Sr. Professor pela gentileza de ter disponibilizado o texto.

Sessão comemorativa dos Combatentes
Monumento aos Combatentes do Ultramar, 10 de Junho de 2008
João César das Neves

Meus amigos

Estamos aqui reunidos por causa do sangue. É o sangue que aqui nos chama todos os anos. Um sangue longínquo, um sangue de multidão, um sangue de violência. Espalhado por múltiplas terras, ao longo de muitos anos, é este sangue que aqui está reunido neste Monumento. É este sangue que aqui nos reúne neste dia.

Todos os anos vimos aqui falar ao sangue. Todos os anos dizemos palavras a este sangue antigo, distante, múltiplo. Desta vez, em vez de falarmos ao sangue, ouçamos o sangue. Ouçamos o que o sangue tem para nos dizer. Em vez de dizermos os sentimentos que este sangue nos suscita, pensemos no que este sangue diz dele mesmo. O que este sangue nos quer dizer.

1. A grandeza do sangue

Será que o sangue nos fala de coragem? De valor? De heroísmo? Algum, sem dúvida! Mas muito dele, não. A maior parte certamente, não. Algum deste sangue foi derramado em feitos notáveis, actos valorosos, gestos memoráveis. Mas a maior parte não.

Será que o sangue nos fala de colonialismo? Geo-estratégia ? Modelos políticos? Algum, sem dúvida! Mas muito dele, não. A maior parte certamente, não. Algum deste sangue foi derramado por razões ideológicas, propósitos tácticos, consciência mundial. Mas a maior parte não.

A maior parte, certamente, foi sangue que não queria ser derramado, que não concordava com aquela guerra, que não compreendia bem porque estava ali, que não desejava estar ali. Grande parte desse sangue jorrou por azar, por engano, sem vontade. É normal o sangue jorrar contra vontade.

Quando falamos de tanto sangue, em tantos locais e em tantos anos, derramado em condições tão diferentes, por pessoas tão distintas, temos de admitir que a maior parte do sangue não era especial. Sangue de multidão dificilmente é especial. Sangue de tão grande multidão tem de ser sangue comum, sangue normal, sangue de gente como nós.

Se este sangue não nos fala de heroísmo e valor, de colonialismo e ideologia, de que é que ele nos fala, então? Porque razão afinal estamos nós aqui? O que torna tão especial este sangue que todos os anos nos reúne neste lugar, a dizer coisas ao sangue? Qual a grandeza extraordinária deste sangue que, afinal, por ser sangue de uma multidão, não pode ser especial?

O sangue que aqui nos reúne nem sempre nos fala de coragem e de heroísmo, ideologia e sistemas. Mas fala-nos sempre de dever. O que este sangue nos diz, o que este sangue tem de grande, é o dever cumprido. O que há de comum em toda essa enorme multidão é que estava lá. Tinha sido enviada, tinha-lhe sido ordenado e tinha ido. Foi onde tinha de ir e cumpriu o dever que tinha de cumprir. Cumpriu o dever até ao fim. Cumpriu o dever até ao sangue.

Grande parte desse sangue não queria estar ali. Grande parte desse sangue não concordava com aquela guerra, não apoiava sequer o regime que a declarara. Mas estava ali e combatia. Por ser o seu dever. Sacrificava a sua vida. Não porque quisesse sacrificá-la, não porque apoiasse a causa, porque fizesse feitos notáveis, únicos. Simplesmente porque devia ali ir e tinha de cumprir o seu dever. E foi. E cumpriu. Até ao fim. Até ao sangue.

Esta é a grandeza deste sangue. Esta é notável elevação deste sangue que aqui nos reúne todos os anos. Simplesmente estar onde tinha de estar, cumprir aquilo que era o seu dever. Sem querer, sem concordar, sem apoiar, mas cumprindo. A grandeza deste sangue é aquela grandeza extraordinária de que são capazes as multidões. A única grandeza das multidões, a grandeza de estar, a grandeza de cumprir, a grandeza de se dar, mesmo àquilo com que não se concorda. Por ser o seu dever.

2. As razões do sangue

É difícil hoje compreender as razões deste sangue. Num tempo de direitos, este sangue fala-nos de deveres. Num tempo de ambições, este sangue fala-nos de entrega. Num tempo de realização pessoal, este sangue fala-nos de sacrifício. É difícil neste tempo compreender porque o sangue foi derramado. Para o nosso tempo é difícil até compreender porque vimos aqui, todos os anos, honrar o sangue derramado. Este sangue hoje não é compreendido. Este sangue hoje é invocado, é chorado, é lamentado, mas não é compreendido.

O nosso tempo compreende o heroísmo, compreende a coragem, compreende o valor. Aquilo que o nosso tempo tem dificuldade em entender é o silêncio, a entrega. O nosso tempo tem dificuldade em entender o sacrifício. Como é possível dar o sangue por algo com que não se concorda? Como se entende o sangue derramado por uma multidão? Isto hoje não sabemos. Hoje temos de o perguntar a este sangue.

O sangue fala-nos de algo maior que ele. Este sangue de multidão, este sangue comum, sangue normal, sangue de gente como nós, fala-nos de algo maior do que ele. Algo a que se entrega. Algo a que se sacrifica. Porque até o sangue sem feitos notáveis, até o sangue que não quer ser derramado, que não concorda com a guerra, que não quer estar ali, até esse sangue é sempre derramado por algo maior do que ele. É por isso que está ali. Por isso cumpre o seu dever.

Essa razão maior é muito diferente de uns para os outros. Mas existe em todos. A causa maior que inspira o dever é diferente em todos eles. Mas está presente em todos eles. Uns lutavam pela pátria, outros pela família, pelos amigos. Lutavam pela sua aldeia, pela sua terra. Alguns pela Fé e pelo império, outros pelos operários e pela sociedade sem classes, outros ainda pelo progresso e a civilização. Havia os que lutavam pela justiça, pela liberdade, pelo bem comum. Todos sabiam porque estavam ali, cada um com as suas razões. Mesmo os que não queriam estar ali. Mesmo os que não compreendiam bem porque estavam ali Mas cumpriam o seu dever.

Assim vemos a extraordinária grandeza deste sangue. Uma grandeza que, se virmos bem, é ainda maior que a da coragem, do heroísmo, da valentia. É notável alguém entregar a sua vida de forma nobre, num gesto elevado. Mas é mais notável ainda dar o seu sangue no silêncio e no esquecimento, numa guerra com que se discorda. Mas dá-lo por uma causa nobre, por uma razão maior. A sua razão. A razão da sua vida.

Esta é a grandeza das multidões, a grandeza de estar, a grandeza de cumprir, a grandeza de se dar a algo maior.

3. O que o sangue ouve

Isto é o que o sangue nos diz. Que podemos nós dizer-lhe? Que quer o sangue que lhe digamos? Que podemos nós dizer diante de tanto sangue?

Diante deste sangue, diante de tanto sangue, calam-se as retóricas e as figuras de estilo. Diante de um sangue longínquo, um sangue de multidão, um sangue de violência espalhado por múltiplas terras, que podemos nós dizer? Emudecem as ideologias e os discursos, empalidecem as exigências e as irritações.

Diante de tanto sangue a única coisa a dizer é o silêncio. O mesmo silêncio com que o sangue foi derramado. E nesse silêncio, o que há a dizer é o que nós dissemos hoje. A única coisa que há a fazer é rezar. Humildemente baixar a cabeça e rezar.

Rezar a Deus para lhe agradecer o que estas vidas nos deram. Agradecer tudo o que este sangue nos deu. Rezar a Deus para lhe entregar este sangue. Entregar-lhe tudo o que este sangue é. Rezar a Deus para lhe pedir que sejamos dignos daquilo que o sangue nos pede. Pedir que sejamos dignos deste sangue.

Rezar é o que o sangue nos pede que digamos.

4. A lição do sangue

É isto que o sangue tem hoje a dizer-nos. A nós que vimos cá todos os anos, é isto que o sangue diz dele mesmo. E isto é algo que devemos ouvir, porque é algo que raramente ouvimos. Algo que mais ninguém nos diz nos dias de hoje.

Hoje, felizmente, não nos pedem o sangue. Hoje já não se vê o sangue. O sangue que hoje existe é sangue escondido. Hoje já não há o sangue que o regime nos pede, pela guerra. O sangue que hoje há é aquele que nós pedimos ao regime, pelo aborto. E esse sangue não nos fala de dever. Fala-nos de prazer, de desespero, de abandono, de solidão, de infâmia. Este é o sangue do nosso tempo. Este é o sangue de um tempo de direitos, de ambições, de realização pessoal. Este é o sangue de quem não se quer dar.

Nos nossos dias a questão já não passa pelo combate, pela luta, pela morte. Por enquanto, não passa pelo combate, pela luta, pela morte. Não nos pedem sangue. Pedem-nos suor. Hoje o nosso dever não é o sangue, mas é o suor. Pedem-nos suor, pedem-nos lágrimas, pedem-nos impostos, pedem-nos regras e regulamentos. O nosso dever não nos exige que partamos para longe e lutemos até à morte. Já não é esse o nosso dever. Mas o dever pede-nos que trabalhemos, que procuremos emprego no desemprego, que paguemos, que cumpramos, que soframos.

Grande parte de nós não quer viver assim. Grande parte de nós não concorda com esta crise, não apoia sequer o regime que a declarou. Discordamos da política, condenamos a crise, criticamos os chefes, acusamos os erros. Regateamos o suor, as lágrimas, os impostos, as regras. Exigimos apoios, promoções, subsídios, aumentos. Não cumprimos o nosso dever.

Vimos diante deste sangue Vir aqui não é uma memória do passado, um nostálgica celebração de feitos antigos. É uma presença no presente e um compromisso para o futuro. Um compromisso para o nosso sangue.

Partimos daqui depois de celebrar este sangue. O sangue que, numa guerra muito pior que a nossa crise, estava ali e combatia. Por ser o seu dever. Sacrificava a sua vida. Não porque quisesse sacrificá-la, não porque apoiasse a causa, porque fizesse feitos notáveis, únicos. Simplesmente porque devia ali ir e tinha de cumprir o seu dever. E foi. E cumpriu. Até ao fim. Até ao sangue.

João César das Neves

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