sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Selecção de altos funcionários públicos

No seu artigo do DN, de hoje, Ferreira Fernandes fala dos cuidados na selecção dos altos funcionários que se candidatam à Administração Obama a fim de os mesmos não causarem embaraços devidos a especulações sobre o seus passado, como está agora acontecer em Portugal com a nomeação do amigo de Manuel Pinho, Manuel Sebastião, para presidente da Autoridade da Concorrência.

Bastam os problemas que virão a surgir com as eventuais asneiras que irão ser feitas durante a actividade na administração, e não convém adicionar-lhes os rabos de palha herdados de um passado menos limpo.

Para esse efeito, os candidatos têm de preencher um inquérito de sete páginas e 63 perguntas, sento tudo passado a pente fino, desde o óbvio, como problemas com a justiça (só se perdoam as multas de trânsito inferiores a 35 euros), até aos segredos modernos: os candidatos têm de dizer com que pseudónimos escreveram na Internet.

E, para evitar casos como o da filha da ex-candidata a vice dos republicanos, a confissão não deve referir-se apenas ao próprio candidato, mas também deve denunciar erros dos seus parentes próximos, sendo os o cônjuge e os filhos adultos também vistoriados.

É previsível que, na ânsia de obter o lugar, os futuros funcionários acabem por mentir. E isso irá ser demonstrado pelos futuros escândalos. Mas depois não há panos quentes a colocar-lhes em cima, pois acresce o facto de terem mentido.

Se já aqui apontei exemplos a seguir, vindos do terceiro mundo, agora chega este de um país indiscutivelmente muito desenvolvido, que é muito prático e preventivo de escândalos posteriores. Precauções como esta e admissões por concurso público, em vez de nomeações por «confiança politica» tornariam a nossa administração pública mais eficiente, rápida e moralizada, inspirando afeição por parte dos contribuintes.

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quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Como é possível?

A nomeação de Manuel Sebastião pelo ministro Manuel Pinho para presidente da Autoridade da Concorrência tem dado lugar a variados comentários. Hoje, à primeira vista, apareceram-me os dois seguintes «o regime dos amigos» do jurista Pedro Lomba e «Sócrates sai em defesa de Sebastião e Pinho» de Márcio Alves Candoso.

Ficam os links para quem desejar ver os argumentos neles constantes. Mas uma coisa me chocou. Não estranho que o clã dos políticos ignore a existência de concursos públicos como regra geral e opte por relações de família, de nome, de amizades, de trocas de favores, de conivências, etc. Mas uma desculpa saída da boca de Manuel Pinho brada aos céus. Alegou, em abono da competência, o facto de Manuel Sebastião ter obtido um grau académico na mesma universidade em que se formou Barack Obama. Nunca esperei ouvir um tal argumento de um ministro. Será que aquele senhor está convencido de que todos os estudantes que frequentaram a universidade em que se formou Albert Einstein, são génios da mesma craveira deste? Ou que os estudantes que obtiveram grau académico na universidade onde Víctor Constâncio fez o doutoramento, são «sumidades» como ele?

Claro que qualquer pessoa pode ter o azar de cometer uma gaffe, qualquer político pode usar de demagogia para iludir o Zé Povinho ignorante e pacóvio (como eles julgam que os cidadãos são), mas dizer um tal argumento com tanta convicção e convencimento de que tem poder de persuasão, é motivo para humor muito negro. Se os seus colegas políticos aprenderem essa lição passam a evitar Independente e Moderna para se doutorarem e correm aquelas em que se formaram os mais recentes laureados com o prémio Nobel. Se assim fizerem, segundo este ministro, terão o maior êxito na vida, mesmo que nada estudem e passem à tangente.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

O descontentamento militar

De Fernando Paula Vicente Maj-General da FAP

O descontentamento das Forças Armadas, traduzido essencialmente em manifestações de rua e intervenções de carácter diverso na comunicação social, a que o País tem vindo a assistir nestes anos mais recentes, é um assunto demasiado complexo para poder ser tratado, de uma forma inteligente, num mero comentário de jornal que me é pedido, o qual não pode visar outra coisa que não seja o esclarecimento da Nação sobre o que está realmente em causa. Ele traduz muito mais que uma reivindicação de direitos e de subsídios, e radica profundamente no sistemático atentado à condição militar. E, nesse sentido, para ser justo, tenho que começar por afirmar que ambas as partes Forças Armadas (FA) e sucessivos Governos constitucionais têm, nesta matéria, grossas culpas no cartório.

Começando pelas FA, é preciso que se diga sem rodeios que elas tudo fizeram para que uma significativa parte da Nação lhes tenha perdido o respeito que tradicionalmente lhes era devotado. Ao executarem, por razões corporativas, um golpe de Estado, permitiram que ele se transformasse numa das mais anárquicas revoluções do século passado.

Liderada por comunistas, socialistas e toda a gama de oportunistas, nestes se incluindo muitíssimos militares — recorde-se aqui o sinistro Conselho da Revolução — tudo aquilo que a revolução conseguiu foi destruir as estruturas do Estado, por em prática um plano de nacionalizações cujo verdadeiro impacto está ainda por quantificar e conceder, ilegitimamente até do ponto de vista constitucional, a prematura independência às Províncias Ultramarinas, com as consequências que todos conhecemos e que, lá, se cifraram pela destruição quase completa das muitas infra-estruturas existentes e por centenas de milhares de mortos.

Qualquer país digno desse nome, já teria nesta altura investigado essa página negra da nossa História e atribuído responsabilidades a muitos — militares e civis — que ainda por aí abundam armados em heróis. Portugal não precisava de um 25 de Abril para se democratizar: a sua incontornável entrada para a CEE teria obrigado o País a democratizar-se, da mesma forma que, para tentar ser aceite na União Europeia, a Turquia procede actualmente à sua democratização interna.

Para além disso e mais importante ainda, a revolução destruiu os padrões morais em que funcionava a sociedade portuguesa, criando as condições para tornar Portugal no mais corrupto e mais atrasado país da Europa comunitária neste início do século XXI. Tudo isso, ainda que indirectamente, graças às Forças Armadas.

Ainda sobre os militares, com excepção da Força Aérea que, imediatamente após a independência do nosso Ultramar, reduziu os seus efectivos de 20 mil para cerca de 10 mil homens (a sua dimensão normal para o território do continente), modernizou a sua gestão e, tanto quanto possível, também o seu dispositivo, as FA, sem liderança política competente, foram deixadas absorver milhares de milhões de contos em programas que pouco tinham a ver com o quadro estratégico em que presumivelmente elas poderiam vir a actuar, isto porque os respectivos chefes de Estado-Maior, defendendo cada um os interesses corporativos do seu Ramo, foram incapazes de se por de acordo sobre aquilo que era verdadeiramente o interesse nacional.

Cabe aqui dizer que têm também graves culpas nesta matéria todos os Ministros da Defesa e todos os deputados que integraram as sucessivas Comissões Parlamentares de Defesa, que permitiram tudo isso sem oposição que tenha sido visível.

Faltou aos militares a honestidade da visão do interesse nacional e a Nação pagou por isso um altíssimo preço.

O desgaste da imagem das FA foi-se acentuando até que, de há uns anos a esta parte e seguros de que, finalmente, não há mais espaço para golpes militares — a insinuação, por outras palavras, feita pelo Gen. Loureiro dos Santos, de que a democracia portuguesa está em risco é leviana — os políticos têm estado a fazer às FA aquilo que bem lhes apetece, nomeadamente, retirando aos chefes militares quase todas as competências administrativas e outras; não actualizando as grelhas salariais em correspondência com aquilo que eram os tradicionalmente equivalentes níveis de remuneração da função pública; legislando sobre outras remunerações a militares e, em completo desrespeito pela lei, recusando o respectivo pagamento (neste momento, a dívida é gigantesca); destruindo os subsistemas de saúde militares e substituindo-os por um novo (ADM) que há mais de um ano não paga aos respectivos utentes qualquer comparticipação; destruindo os fundamentos da justiça militar e da condição militar e querendo transformar os militares em meros funcionários públicos.

Os militares, porque estatutariamente não têm poder reivindicativo, têm estado a pagar, mais do que qualquer outra classe, o preço da crise.

Por tudo o que antecede, constata-se que, actualmente, os militares têm vergonha de andar fardados na rua e isso, num país democrático, é um péssimo indicador social, que faz ricochete na imagem dos Governos e da própria Nação. Claro que, como recentemente aconteceu, quando Portugal admite que um desertor se candidate à Presidência da República, sabendo-se que, se ele for eleito, será também o Comandante Supremo das Forças Armadas, está tudo dito, vale tudo!

Os políticos perderam finalmente o medo — e, como tal, também o respeito — pelos militares e estes estão cheios de razões para trazer ao conhecimento da Nação o seu descontentamento. Uma entidade insuspeita, o Senhor D. Januário Torgal Ferreira, Bispo das Forças Armadas, não se coibiu de, muito recentemente, fazer publicamente eco desse descontentamento em termos que não deixaram margem para dúvida sobre a sua legitimidade.

As FA não são um corpo de funcionários públicos. Não têm horário de trabalho das 9 às 18: se necessário, trabalham 24 horas por dia, nas condições mais adversas, inaceitáveis para os funcionários públicos, sem direito a receber horas extraordinárias. Servem a Nação e juram solenemente por ela dar a vida, onde necessário, se necessário.

Não têm sindicatos. Abdicam, enquanto em serviço activo, do direito à liberdade de expressão. A Instituição Militar é um dos pilares da segurança nacional e da sobrevivência da Nação e um dos mais importantes vectores da política externa do Estado.

Quando é hostilizada pelo Governo da Nação, fatalmente o que está errado não são as FA com os seus defeitos e virtudes, o que ressalta é que ao Governo falta noção de Estado.

E isso tem um preço político, nacional e internacional. O Governo, os Chefes Militares e o próprio Presidente da República na sua função de Comandante Supremo, que tão calado tem estado no quadro da «cooperação estratégica» que pauta o seu desempenho, deviam todos ter vergonha!

Fernando Paula Vicente Maj-General da FAP (Reformado)

NOTA: Este texto que me chegou por e-mails de várias proveniências foi publicado no «Diabo» de 11 do corrente, e foi inserido num comentário do autor no post de José Miguel Júdice com o título «a quartelada ameaçada» no Blog SEDES onde já se encontrava um comentário meu. Publico-o aqui, porque a forma como me chegou denuncia interesse de muita gente, e convém que problemas nacionais desta relevância sejam esclarecidos para que cada um forme a sua opinião sem se sentir arrastado por dicas aventureiras, mal fundamentadas.

O meu comentário no referido blog foi o seguinte:
Sr. Dr. Miguel Júdice,

De memória, recordo os tempos de 1976 em que gostei de ler a forma como o Sr. redigiu a defesa de um administrador de um banco com sede na Avenida Fontes Pereira de Melo, da qual me foi mostrada uma fotocópia por um indivíduo descontente da forma como 25 de Abril foi aproveitado, como Fernando Vouga refere num comentários atrás.

Aproveito para felicitar este pela forma como se opôs ao seu post, esclarecendo a metodologia que deve ser utilizada para tomar decisões tão importantes. E cumprimento o Dr. Campos e Cunha, que conheci quando ele era uma pequena criança, e gostei que se tivesse referido desta forma ao seu pai, com quem tive o prazer de trabalhar por três vezes, sendo a última em Belém, quando ele era chefe de gabinete e eu seu adjunto.

Acho que o Dr. Júdice foi demasiado arrojado na forma como levantou esta polémica e na maneira como se expressou em respostas a alguns comentários. Sem dúvida, que os números que apresenta mostram uma grande desproporção entre quadros e praças. As Forças Armadas, como todas as instituições, exigem frequentes ajustamentos, revisões e reformas. Porém, elas têm que estar preparadas para uma eventual mobilização geral. Oxalá ela nunca tenha que ocorrer, mas não pode ser colocada de lado. No entanto, acabado o Império, os efectivos globais podem ser reduzidos, de forma ponderada e sensata. Um coisa são pontos de pormenor e outras são aspectos de concepção.

Quando diz que para a nossa defesa seria suficiente «apenas uma guarda costeira e um grupo de tropas de elite», concordo com o argumento de Campos e Cunha quando diz que «isso seria muito mais do que hoje temos nas nossas FA, seja em equipamento, seja em homens, seja em recursos financeiros». Também há quem diga que a nossa dimensão, as nossas dificuldades, a nossa presença na UE, entre outros factores não justificam o que gastamos e ainda menos um exército de ocupação do território, pensado para um tipo de guerra que não enfrentaremos e que se enfrentarmos também não seria vencido com esse tipo de estrutura». Mas ou queremos defender o território ou não. Não podemos esperar que a UE nos defenda. E quem é a UE? Não somos nós a UE, na nossa quota parte? Pretendem que sejamos subsidiodependentes ao extremo de sermos pedintes da UE, sua colónia? A UE envia forças militares para várias partes do mundo e Portugal tem colaborado, colocando-se no seu papel de Estado membro. Como membros da UE cumpre-nos participar na vida da União e não apenas sermos mendigos, estado exíguo, colónia.

Já reparou que as missões mais significativas das FA têm sido efectuadas em cumprimento de decisões da UE e da NATO? Acha que estas instituições ficariam satisfeitas se nós enviássemos polícias ou GNR com bastão para actuar ao lado dos seus militares bem instruídos, equipados e armados, com o que existe de melhor na indústria militar? Isso, só por si, já será um factor a considerar antes de analisar a sua polémica tese. Mas há também a defesa do espaço marítimo, das pescas, do espaço aéreo. Pensou nisso?

Mas, de qualquer forma, o seu post foi útil pela polémica que levantou nos visitantes mais atentos. Pena é que os generais se sintam amarrados pela vetusta «servidão militar» e não tenham vindo aqui esclarecer estes temas. Mas eles valem o que valem!

Não quero terminar sem dizer algo acerca da afirmação do Dr. Campos e Cunha «Penso e defendo que as Forças Armadas devem estar privadas de certos exercícios de direitos fundamentais: liberdade de expressão em muitas matérias, participação política activa, greve, etc. Em contrapartida devem ter também um tratamento especial de um corpo que tem estas circunstâncias excepcionais e difíceis.» Efectivamente, quando o Governo hoje se refere à «condição militar» perde uma boa oportunidade de estar calado. A «condição militar», como muito bem diz, exige restrições aos militares nos direitos, liberdades e garantias constitucionais dos cidadãos, pelo que o Estado os beneficiava com compensações como contrapartida estatal. Ora, este Governo tem retirado essas compensações, tendendo a considerar os militares como vulgares funcionários públicos. Logo, não é moral, nem talvez legal, querer exigir que a outra parte desse «acordo» cumpra a sua sujeição a tais restrições. Sendo tratados como funcionários públicos, ou pior do que muitos destes, não lhes deve ser negado o direito a associação sindical, a manifestação, greve, etc.

Creio que aquilo que mais fere os sentimentos dos militares é não ser devidamente apreciado pelos governantes, a sua devoção à Pátria, com total e permanente disponibilidade e aceitação de riscos que vão até à própria vida. Nenhum funcionário sabe o que isso é.

Se quiserem decidir extinguir as Forças Armadas, não façam com a leviandade com que decidem noutras questões, procurem analisar o problema com uma metodologia semelhante à descrita algures por Fernando Vouga, que preconiza começar pela «identificação dos objectivos nacionais dando prioridade aos que, por serem vitais, justificam o emprego da força. Depois, há que identificar quais serão as ameaças que, reais ou hipotéticas, imediatas ou futuras, se configuram contra os nossos objectivos/interesses. A seguir, definem-se as estratégias (defesa, dissuasão, resistência passiva, passagem à guerrilha, etc.). Por fim, calcula-se o volume e tipo de forças (permanentes e a mobilizar) necessárias para a estratégia escolhida». Se seguirem este caminho, tenham sempre presente que se trata de PORTUGL e não se limitem ou condicionem por tricas partidárias, ou fantasmas de ódios, vinganças ou medos irracionais.

Cumprimentos
A. João Soares

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segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Autoritarismo ou democracia?

Sem autoridade assumida e respeitada não pode haver democracia. Porém, se a autoridade for excessiva e levada ao abuso, não será respeitada (apenas «contrariado, mas obedeço») e descamba para as atitudes ditatoriais do «quero posso e mando».

O ponto de equilíbrio ideal será governar COM a colaboração de todos manifestada através dos seus representantes formais ou informais. Quando todos colocarem os interesses da Nação, do colectivo dos cidadãos, acima de ambições pessoais e de pequenos grupos, não será difícil obter um consenso para os problemas mais significativos para a vida nacional actual e para a preparação de um futuro mais risonho.

Isso implica o cuidado permanente de não governar CONTRA os agentes das políticas decididas, mas COM a colaboração activa e eficaz desses agentes. Não se engrandece Portugal com decisões que, por não beneficiarem desse consenso, corram o risco de serem anuladas num próximo governo, pois isso traria prejuízos, com gastos inúteis de recursos essenciais, e demora na solução que se pretendia.

Estamos, neste momento, perante um facto concreto que deve ser meditado dentro destas reflexões. O caso da megamanifestação de professores e as palavras da ministra e do PM, levantam preocupações vitais para os portugueses que usam a sua capacidade de raciocínio. Dizer que não recuam na forma como a avaliação está decidida é muito grave. Nada tem de democrático. É querer o impossível, governar contra a quase totalidade dos agentes essenciais do ensino. Se tanta gente se deu ao incómodo de participar na manifestação é lógico pensar que deve haver razões profundas para tal descontentamento. Não se pode argumentar que todos aqueles professores (sempre tive respeito por estes profissionais embora tenha conhecido alguns menos válidos) são ovelhas mansas obedientes e sem vontade própria, a mando de um pequeno partido da oposição. É indispensável analisar as suas razões e procurar soluções que atinjam os objectivos de uma avaliação viável, prática (simplex) e eficaz.

De ditadura já estamos servidos e não queremos outra, por mais que queira mascarar-se de democracia.

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domingo, 9 de novembro de 2008

Reforma do sistema financeiro

Muito se tem falado da crise financeira global, mas raramente são focadas de forma aberta e clara, perceptível ao cidadão comum, os seus contornos, as suas causas e apontadas pistas para ser evitada a sua repetição.

No entanto, quem não se prenda às palavras dos entendidos, geralmente tendenciosos, por fazerem parte do problema, e começar a pensar, colocar interrogações e tentar procurar respostas, começa a ver que o problema não é tão simples como querem mostrar nem a solução é fácil porque os fautores da crise não estão interessados em moralizar o sistema.

Por onde andaram os eméritos economistas que deixaram chegar a imoralidade, a ilegalidade de procedimentos gananciosos em busca de dinheiro fácil e avultado, ao ponto de lesar todo o ser humano, principalmente aqueles que já tinham pouco a perder e que ficam sem nada? Assistiram impávidos e serenos ao desenrolar da actividade financeira sem regras nem princípios nem valores éticos nem respeito pelos seres humanos menos protegidos, sem a sua elevada inteligência vislumbrar os perigos que viriam a resultar dessa imoralidade. Muitos deles, senão todos, estariam interessados nos benefícios advenientes de tal situação caótica que não olha a meios para obter riqueza.

Se as crises devem ser aproveitadas para fazer remodelações profundas, qualquer voz de viciados no sistema que se opõem a soluções que lhes façam perder regalias deve ser sonoramente rebatida, com argumentos convincentes. Espera-se que isso aconteça, e já há sinais de mudança. Começa a aparecer no horizonte uma onda reactiva a exigir a reforma do sistema. Há que garantir segurança, confiança e capacidade de planear o futuro, sem o receio de riscos incomportáveis.

Na sexta-feira 7 de Novembro, após uma reunião com os seus homólogos dos países dos BRIC (Brasil, China, Índia e Rússia), o ministro brasileiro da Economia, Guido Mantega , declarou que os principais países emergentes, do BRIC, querem "uma reorganização do sistema financeiro mundial". Segundo ele, estes países consideram que o G7, que reúne as economias mais avançadas, não pode enfrentar sozinho uma crise como a que afecta actualmente todas as economias. O G20, grupo dos países mais industrializados e potências emergentes, devia ser reforçado para supervisionar o grupo dos países ricos. Porém, estes também não devem considerar-se donos do mundo e ditar leis à medida dos seus interesses, ignorando todos os outros, mais necessitados. Há que fazer convergir todas as boas vontades mesmo vindo dos países mais pobres.

No comunicado conjunto do BRIC consta, entre outros alertas, que "a crise revelou a fraqueza da gestão dos riscos, da regulação e da supervisão dos sectores financeiros de algumas das economias avançadas", "consequentemente, apelamos a uma reforma dos quadros de regulação e de supervisão, assim como a regras mais claras e à transparência".

Também o presidente do Banco Mundial (BM), Robert Zoellick , afirmou no sábado que os países do G20 estão perto de um consenso sobre a necessidade de reformar o sistema financeiro, numa altura em que as economias estão a entrar "numa zona de perigo. Zoellick afirmou aos jornalistas, à margem da reunião ministerial do G20, que reúne os países mais avançados do Mundo e os grandes países emergentes, que todos defendem a necessidade de uma resposta coordenada à crise financeira mundial. Parece que há consenso quanto à criação de uma nova arquitectura financeira mundial.

No entanto, em Portugal, reina a apatia e a ausência de posições claras e bem explicadas para informar de forma correcta os cidadãos. Antes, abundam as mentiras «piedosas» que, ao serem contraditórias, perdem credibilidade e agravam as preocupações das pessoas anónimas e dos agentes económicos. No entanto, merece justificado realce a Dr Maria José Morgado , directora do DIAP, que, como aqui já foi referido , preconiza "a eliminação dos paraísos fiscais", que agindo à margem da lei e da ética, servem de apoio a actos criminosos de vária ordem, e até do terrorismo que usa técnicas do crime económico.

Esses paraísos poderão ser apenas uma pequena ponta do iceberg constituído pelas actividades perversas do actual do sistema financeiro mundial que age sem controlo, regulação e supervisão eficazes, com a táctica do «salve-se quem puder» ou glosando a imagem de um humorista brasileiro, «enriquece hoje porque amanhã poderá não ser possível». Mas eles, tal como qualquer outra actividade nociva à segurança financeira dos pequenos aforradores e agentes económicos devem se banidos sem dó nem piedade.

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sexta-feira, 7 de novembro de 2008

E o que dizem os economistas honestos?

Maria José Morgado, directora do Departamento de Investigação de Acção Penal de Lisboa (DIAP), que há oito anos sugeriu publicamente "a eliminação dos paraísos fiscais", o que na altura foi um escândalo, voltou a fazer a mesma afirmação. Sublinhou que, agora, "até Durão Barroso defende o controlo ou o fim" da aplicação global do dinheiro sujo.

Segundo ela, os paraísos fiscais financiam o narcotráfico, o tráfico de pessoas, a pedofilia e a pornografia. São muitos e especializados. Em tais destinos, acrescentou Morgado, "depositam-se subornos, erguem-se fortunas ilícitas, lava-se dinheiro". Nessas "fortalezas o terrorismo usa as mesmas técnicas do crime económico".

As palavras de Maria José Morgado, não trazem novidades. Pergunto quem é que não concorda com ela? Quem se opõe ao que ela preconiza? Então, porque razão os políticos e economistas dos países ditos civilizados não estabeleceram normas que os eliminem?

O que dizem a este respeito políticos e os economistas honestos? O que têm feito para tornar a actividade financeira mais ética e mais segura, menos atreita a crises como a actual?

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Secretário de Estado mentiu miseravelmente

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Os políticos costumam dar-se liberdades pouco abonatórias de falsear a verdade, mas tudo tem limites, e um deles é não lesar a dignidade de entidades que têm direito a ter prestígio perante a Nação e que são pilares da segurança nacional.

Segundo o DN, o secretário de Estado da Defesa, João Mira Gomes, no passado dia 30, horas depois de o general Loureiro dos Santos (reforma) alertar para a tensão existente nas fileiras, disse que "As chefias militares não nos transmitem qualquer informação" sobre quaisquer "movimentos de descontentamento a nível de qualquer escalão das forças militares", "Não consideramos que haja qualquer tipo de clima de instabilidade nas Forças Armadas."

Estas palavras fragilizaram a posição dos mais altos responsáveis pelos Ramos das Forças Armadas. O seu prestígio ficou abalado com tais afirmações.

Ontem em entrevista televisiva o ministro da Defesa, Nuno Severiano Teixeira, afirmou, de forma clara, que "as chefias militares têm transmitido ao Governo as preocupações e as expectativas das Forças Armadas".

Estas palavras do ministro provam que o secretário de Estado mentiu miseravelmente, afectando os responsáveis militares.

Perante esta indignidade de um governante, os Chefes Militares devem agir em conformidade e deixar de falar com tal tratante. Parece que deveriam ir já ao gabinete do ministro e dizer claramente: «Não voltamos a falar com tal indivíduo mentiroso desonesto. Exigimos que seja demitido até ao toque de recolher de hoje. Se o não for, amanhã ao toque de alvorada traremos ao Sr. Ministro os nossos pedidos de exoneração dos cargos».

Nessa tomada de posição são apoiados pelos sargentos que segundo o JN em «Militares faltam a almoço e preparam protestos» estão activos mostrando que não lhes falta aquela fruta, hoje muito escassa. Se os Chefes tomarem esta atitude granjearão o respeito e admiração de todos os militares e mostram-se merecedores das estrelas que ostentam.

Os militares e a Nação têm os olhos focados em tais chefes e esperam ver tal prova da sua dignidade.

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Presentes menos de 50 dos 230 deputados

A sessão da AR de 6 de Novembro foi antecipada para as 09h30. Pelas 09h40, quando o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, começou a ler a mensagem presidencial sobre o regime jurídico do divórcio, estavam na sala apenas 32 deputados (14% do total). Às 09h50 as presenças eram menos de 50 (menos de 22%). Ver em Mensagem de Cavaco sobre divórcio ouvida por menos de 50 deputados

As notícias deste género
são, por vezes, mal interpretadas. Pode não ter havido falta de consideração para com o autor das mensagens, o Presidente da República, ou para o leitor das mesmas, o Presidente da Assembleia da República. Os faltosos, ou a maioria deles podem ter estado muito atarefados, com toda a sua dedicação esforçada, a cumprir o orçamento do Estado, em «deslocações dentro e fora do País», rubrica em que estão previstos, 3,7 milhões (só!!!), para 2009. Ver em Custo com viagens atinge 3,7 milhões

Também quanto a este número, não nos devemos deixar impressionar, pois mesmo que fosse o dobro ou o quádruplo, os nossos deputados continuariam a ignorar os reais problemas deste extenso País quer em Vilar de Peregrinos em Trás-os-Montes, ou Vila Nova de Tázem na Beira Alta ou Monte dos Pereiros nos Alto Alentejo.

Mas será verdade que esse desconhecimento terá por base a inexistência de viagens, ou as que são realizadas têm outros fins, outros destinos?

Parece que em Portugal devia ser imitada a decisão da autarca cabo-verdiana do Mindelo, Isaura Gomes, quanto à forma de realizar auditorias de resultados indiscutíveis. Ver aqui ou aqui.

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Chefes militares «a meio da ponte»

A indecisão na escolha entre as hipóteses possíveis tolhe quem tem de tomar uma posição bem definida em tempo útil, sem possuir o domínio de todas as vantagens e inconvenientes das várias alternativas. Muitas vezes, acaba por o mais importante não ser a solução mas o caminho do raciocínio que a ela conduz.

O seguinte artigo do DN aponta para a necessidade de os chefes militares se encherem de coragem e demonstrarem ao povo e ao Governo que entre os militares e os funcionários públicos há diferenças abissais quanto ao risco inerente à sua missão, quanto à necessidade de disponibilidade permanente, à aprendizagem contínua, à motivação inquebrantável e à indefectível dedicação à Pátria (que é perene e não coincide com os seus representantes). Tudo isto se traduz, em restrições no uso dos direitos, liberdades e garantias constitucionais, não aplicáveis a qualquer servidor do Estado, e a que devem corresponder compensações, de vária ordem que, aliás, lhes eram legítima e moralmente atribuídas mas que, recentemente lhes foram subtraídas por governos iníquos. «Mal com os homens por amor de el-rei e mal com el-rei por amor dos homens», os chefes militares, estáo metidos entre a espoliação pelo Governo e as pressões dos subordinados que representam e devem defender, como diz o título ao artigo, num colete de forças, ou no meio da ponte.

Chefes militares metidos num colete-de-forças

Artigo de Manuel Carlos Freire, no DN de 06 de Novembro

Defesa. Polémica entrevista de Loureiro dos Santos à TSF foi há uma semana
A polémica criada há uma semana pelas declarações do general Loureiro dos Santos, alertando o poder político para as consequências de não resolver os problemas existentes, fragilizou um pouco mais a posição dos chefes das Forças Armadas.

Esse entendimento é partilhado por diferentes fontes militares ouvidas pelo DN, tanto no activo como na reserva e reforma. As declarações feitas ontem à Lusa pelo presidente da Associação 25 de Abril, coronel Vasco Lourenço, reforçam essa percepção: as chefias "não fazem sentir as necessidades" dos militares à tutela e "têm uma atitude mais politicamente correcta do que outra coisa", os militares foram "habituados a que os chefes militares defendessem os interesses, quer da instituição quer dos militares enquanto cidadãos".

Subjacente a estas afirmações daquele capitão de Abril e de vários outros militares está o entendimento de que os chefes deveriam demitir-se, face ao silêncio do poder político, e que os escolhidos para os substituir rejeitassem o convite - criando um vazio que forçaria o Governo a resolver os problemas, a exemplo do que ocorreu em França há alguns anos.

A verdade é que a situação das chefias se assemelha a um colete-de-forças: por um lado, a resolução dos problemas é da responsabilidade exclusiva do poder político, por outro "não podem dizer aos seus homens o que fazem [para persuadir a tutela] porque, se o fizessem para todas as 'casernas', no minuto seguinte havia um jornalista a receber um email com essa informação e lá estava o chefe à perna com o ministro", frisou um oficial na reserva.

Não se demitindo, resta aos chefes ouvir o ministro e o secretário de Estado da Defesa dizerem que desconhecem qualquer "mal-estar generalizado" nas fileiras - e assistir às sucessivas manifestações mais ou menos públicas de protesto das fileiras. "Cada vez que as associações adquirem protagonismo, é inevitável que passe a imagem que os chefes nada fazem", reconheceu aquele oficial, um dos que contesta a existência dessas estruturas representativas. Mas "a triste realidade é que a 'rua' tem força para lidar com estes políticos. E também se deve à 'rua' algumas medidas positivas para os militares que o poder político tomou, [sem as quais] estávamos bem pior".

Segundo o almirante Reis Rodrigues (reforma), "o Governo, na sua 'lógica' de olhar para os militares como funcionários públicos, parece não ver qualquer inconveniente nessas manifestações e nem sequer presta atenção a esses acontecimentos". Mas se o ministro da Defesa parece dar-lhe razão, ao dizer que desconhece o "mal-estar generalizado" nas fileiras, um general na reforma aponta "dois erros" à tutela: "Primeiro não ouvem os chefes, depois minam-nos ao responder aos gritos das associações e não através dos chefes, fartos de alertar o poder político" para resolver os problemas.

Face à ausência de respostas da tutela, há também quem veja, na repetida afirmação do ministro de que está "a trabalhar em conjunto com os chefes", uma "tentativa de os transformar no alvo do desagrado dos militares". Ora, a crítica crescente às chefias parece apoiar a teoria, sabendo-se que, em política, o que parece é.

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quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Mais uma lição do dito «Terceiro Mundo»

Depois de ter aqui publicado o post Lições do dito «Terceiro Mundo» recebi comentários a falar do pior que existe nos países menos desenvolvidos, mas isso não apagou o valor moral dos casos que referi e, depois de, há pouco, ter visto um diálogo na AR sobre a intenção de encobrir algo sobre as nacionalizações que já começaram, quando tanto se fala de transparência democrática, decidi publicar mais este exemplo vindo da Presidente da Câmara da cidade da Praia em Cabo Verde. Que bela lição para o Governo e os autarcas de cá que se escondem à sombra de «estudos» e «pareceres» de amigos para confirmarem algo que precisam de ter muito tapado.

MpD fomenta transparência na gestão municipal

Isaura Gomes pede auditoria externa à sua própria gestão e encarrega adversário de a coordenar.

Pode ser o fim da politiquice de má língua em que certos partidos são useiros e vezeiros. Achincalhada na campanha eleitoral, Zau mandou agora fazer uma auditoria externa ao seu primeiro mandato. E para que, de uma vez por todas, cessem as atoardas, não esteve com eias medidas – zás!, nomeou um vereador do PAICV para coordenar todo o processo. Zau, zás!

Mindelo, 5 Novembro – O MpD está a pôr em prática, nas autarquias sob sua gestão, uma nova forma de fazer política: começou em plena campanha eleitoral na cidade da Praia, onde Ulisses Correia e Silva prometeu (e cumpriu) lançar uma auditoria à anterior Câmara e auditorias regulares à sua própria gestão. Depois, em Assomada, Francisco Tavares fez o mesmo. E agora, em Mindelo, surpreende com a sua frontalidade.

Acusada duramente e em termos menos próprios por Onésimo Silveira, candidato do PAICV, e por Vanda Évora, candidata tambarina à presidência da Assembleia Municipal, com Gualberto do Rosário a entrar no mesmo coro, Isaura Gomes desafiou-os. Com Zau vitoriosa nas urnas, os adversários meteram a viola no saco, mas a presidente da Câmara de S. Vicente não se esqueceu: quer tudo a limpo. Isaura Gomes pediu uma auditoria externa ao seu primeiro mandato. E para que não restem quaisquer dúvidas, Zau foi mais longe: encarregou um vereador do partido adversário, Albertino Graça, de coordenar todo o processo.

Os autarcas ventoinha assumem assim a luta pela transparência, que se gostaria de ver generalizada a todos os municípios e à própria governação. Este precedente, criado pelo MpD, pode criar embaraços às suas oposições, expostas a verem eventuais atoardas suas varridas por inquirições e “entaladas” se, nos municípios onde têm maioria, o processo das auditorias não for seguido.

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